Émilie du Châtelet (1706 – 1749)

Émilie du Châtelet (1706 – 1749)

   Nascida em 17 de dezembro de 1706, em Paris, no coração da aristocracia francesa, Gabrielle-Émilie Le Tonnelier de Breteuil cresceu cercada por diplomatas, filósofos e militares. Émilie era filha de Gabrielle Anne de Froulay — mulher de sangue nobre, responsável por administrar a casa e organizar a vida social e moral da família — função tradicionalmente atribuída às damas da alta sociedade. Já seu pai, Louis Nicolas Le Tonnelier de Breteuil, ocupava um dos cargos de maior prestígio e de elevada confiança política: o de introdutor dos embaixadores1 na corte de Luís XIV [1].

   Émilie era a única filha entre cinco irmãos homens. Não era a primogênita nem a caçula, embora muitas vezes assumisse esse último papel. Seus irmãos, como era de se esperar no contexto do século XVIII, foram preparados para carreiras militares, diplomáticas e administrativas — cargos que não eram concedidos às jovens francesas, educadas quase exclusivamente para o matrimônio e para a boa etiqueta. Émilie, contudo, não se restringiu a esse destino. Incentivada pelo pai, que reconheceu nela talentos inatos, passou a estudar latim, grego, italiano, alemão — e, sobretudo, matemática [1].

   Ainda que Émilie tenha trilhado um percurso formativo distinto do padrão imposto às damas de sua época, houve um aspecto em que não pôde divergir: o casamento. Aos dezoito anos — idade considerada adequada para o matrimônio —, Émilie casou-se com Florent-Claude du Châtelet-Lomont, passando a ser designada socialmente como Madame la marquise du Châtelet2; entre os mais próximos, era simplesmente chamada de Émilie du Châtelet. A união foi firmada por meio de negociação entre as famílias, que possuíam posição social equivalente e estavam interessadas em consolidar alianças, preservar o patrimônio e ampliar suas redes de influência na corte. Esse enlace não levou em conta qualquer afinidade intelectual ou afetiva entre ambos [1].

   Logo após os primeiros anos de casamento, nasceram seus três filhos: Françoise Gabrielle Pauline du Châtelet, Louis Marie Florent du Châtelet e Victor-Esprit du Châtelet. Com o aumento da família, coube a Émilie administrar a residência e supervisionar a educação das crianças, já que o esposo, no posto de oficial do exército, raramente permanecia em casa, passando, assim, longos períodos em campanhas ou em missões a serviço da Coroa. Desse modo, embora mantivessem uma relação estável, funcional e socialmente adequada, a distância e as circunstâncias não favoreciam a construção de uma intimidade conjugal mais profunda, tampouco o desenvolvimento de uma paixão genuína [1, 2].

   Essa ausência do marido, contudo, não lhe foi de mal a pior; ao contrário, abriu-lhe espaço e conferiu-lhe autonomia para retomar seus estudos e ampliar sua formação acadêmica, especialmente em matemática, área em que contou com a orientação de matemáticos de destaque, entre eles Pierre-Louis Moreau de Maupertuis e Alexis Clairaut, aprofundando-se no cálculo diferencial e integral, na mecânica clássica e na física matemática [1, 2].

   Foi dessa maneira que Émilie du Châtelet passou a circular pelos salões da Academia de Ciências de Paris, onde se reuniam os maiores matemáticos e filósofos de seu tempo. Imagine a cena:  atravessar portas imensas e pesadas, que davam acesso a amplos salões iluminados por velas, sentar-se ao redor de mesas extensas cobertas por manuscritos redigidos com pena e tinta, enquanto vozes acaloradas ecoavam pelo recinto. Nem mesmo um cenário tão hostil como esse foi capaz de intimidá-la; pelo contrário, serviu-lhe de estímulo para participar ativamente de um dos debates científicos mais proeminentes de sua época, que buscava definir qual grandeza deveria ser associada ao movimento dos corpos [2].

   Trata-se de uma controvérsia que já vinha sendo discutida desde o século XVII, quando Gottfried Wilhelm Leibniz propôs que essa grandeza seria proporcional a mv²  — sendo m a massa e v a velocidade do corpo , denominada por ele de vis viva — do latim, “força viva” —, em contraste com a formulação de Isaac Newton, que defendia a quantidade de movimento proporcional a mv. Naquele período, Newton venceu a batalha, mas ainda estava longe de vencer a guerra, que ganhou um novo capítulo em 1728, quando resultados experimentais obtidos por Willem ’s Gravesande3 ofereceram respaldo empírico à tese leibniziana, reacendendo embates por toda a Europa [2]. 

   Inserida nesse ambiente de tensão intelectual, Émilie posicionou-se a favor da vis viva, decisão que a levou a enfrentar severas críticas por parte de opositores na Academia — ambiente no qual jamais foi admitida como membro oficial, condição reservada apenas a homens eruditos, brancos e ricos. Ainda assim, obteve uma rara permissão para frequentar e participar das sessões, pois fazia parte da aristocracia, era inteligente e possuía, sobretudo, amigos influentes. Dentre esses amigos estava Voltaire, de quem Émilie se aproximou em 1733 e manteve um relacionamento amoroso [2, 3].

   Desde o início, o marido de Émilie du Châtelet estava ciente do envolvimento de sua esposa com Voltaire. Ele não se intrometia, tampouco demonstrava oposição — assim como ele próprio mantinha suas aventuras amorosas, algo relativamente comum na elite francesa da época [3]. 

   À medida que os anos avançavam, a dedicação de Émilie tornava-se ainda mais intensa; praticamente não descansava, passava horas lendo e revisando demonstrações matemáticas, impulsionada pelo desejo de esclarecer a controvérsia acerca da vis viva [1, 4]. Essa rotina de estudos culminou, em 1740, na publicação da obra Institutions de Physique, na qual Émilie apresenta suas análises sobre o experimento de Willem ’s Gravesande e expõe argumentos científicos que reforçam a validade da vis viva como grandeza proporcional a mv². Embora esse resultado ainda estivesse incompleto à época, o livro foi decisivo para o amadurecimento do conceito que, mais tarde, conduziria à formulação da grandeza correta: a energia cinética. Além disso, na mesma obra, Émilie sistematizou e explicou os fundamentos teóricos e o formalismo matemático da gravitação universal de Newton, teoria que também era alvo de resistência entre os franceses que defendiam o cartesianismo4 [2, 4].

   Todavia, o feito mais notável de toda a sua carreira ainda estava por vir: a tradução comentada da obra Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica de Isaac Newton. Émilie verteu o texto do latim para o francês e acrescentou comentários, esclarecimentos matemáticos e notas explicativas, o que tornou a obra acessível ao público erudito francês em 1749. Essa tradução, concluída pouco antes de sua morte, foi fundamental para consolidar e difundir o newtonianismo na França, contribuindo para sua plena aceitação no meio científico. Além disso, a edição por ela preparada permaneceu, por décadas, como livro-base na Academia de Ciências de Paris [3, 4].

   Émilie du Châtelet morreu em 10 de setembro de 1749, aos 42 anos, em Lunéville, atual comuna5 na França, poucos dias após o nascimento de sua quarta filha, Stanislas-Adélaïde du Châtelet. A causa mais provável de sua morte foi febre puerperal — infecção pós-parto comum e letal no século XVIII. O pai da criança era Jean-François de Saint-Lambert, poeta com quem Émilie mantinha um envolvimento entre 1748 e 1749 [2, 4]. 

   Àquela altura, Voltaire, que fora seu companheiro por muitos anos, já não mantinha com ela uma relação conjugal desde o início da década de 1740, embora o vínculo intelectual e a amizade entre ambos persistissem. Após sua morte, Voltaire registrou, em cartas, a dor que o acometeu, chegando a afirmar que havia perdido “a metade de si mesmo” [3, 4]. Apesar do luto, ele permaneceu atuante na Academia de Ciências de Paris, onde continuou a difundir os trabalhos dela e a reconhecer publicamente a relevância de Émilie du Châtelet para a ciência [4].

Autora: Cassandra Trentin.

Referências:

[1] HAGAN, N. M. La dame d’esprit: a biography of the Marquise du Châtelet. New York: Alfred A. Knopf, 1957.

[2] ZINSSER, J. P. Emilie du Châtelet: daring genius of the Enlightenment. New York: Viking, 2006.

[3] BODANIS, D. Passionate minds: Emilie du Châtelet, Voltaire, and the great love affair of the Enlightenment. New York: Crown Publishers, 2006.

[4] REILLY, J.; RYAN, T. B. C. (org.). The Bloomsbury handbook of Émilie Du Châtelet. London: Bloomsbury Academic, 2023.


1. Cargo responsável por receber e apresentar à corte os representantes oficiais das demais monarquias europeias — homens enviados para negociar alianças, tratados e interesses políticos.

2.  Em francês no original: Senhora marquesa du Châtelet.

3. Observou, em experimentos com esferas metálicas lançadas verticalmente de diferentes alturas sobre superfícies de argila e areia, que a profundidade da deformação produzida na colisão era proporcional ao quadrado da velocidade de impacto dos corpos.

4. Corrente filosófico-científica associada a René Descartes. Esse filósofo havia proposto um universo mecanicista baseado em vórtices de matéria, segundo o qual os fenômenos físicos deveriam ser explicados por contato direto entre corpos. Nesse contexto, a concepção newtoniana de uma força gravitacional atuando à distância — sem a mediação de um meio material visível — parecia, para muitos intelectuais franceses, obscura.

5. Menor divisão administrativa da França, equivalente ao município no Brasil.

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