
Katalin Karikó
Katalin Karikó nasceu em 1955, na Hungria. Cresceu em uma pequena vila rural sem água encanada nem televisão, mas manifestou interesse precoce pela ciência. Graduou-se em biologia em 1978 e, em 1982, concluiu seu doutorado em bioquímica pela Universidade de Szeged. Atualmente, ela é uma renomada bioquímica, reconhecida por suas pesquisas pioneiras no desenvolvimento de terapias baseadas em RNA. Sua carreira foi intensamente dedicada ao estudo do RNA mensageiro (mRNA), o que motivou sua mudança para os Estados Unidos, em 1985, para trabalhar como pesquisadora na Universidade de Temple e, posteriormente, na Universidade da Pensilvânia. O grande marco de sua carreira é a descoberta e o desenvolvimento tecnológico envolvendo modificações nas bases de nucleosídeos do mRNA. A invenção surgiu do desafio de utilizar o mRNA sintético no organismo, visto que a molécula original provocava respostas imunes inflamatórias prejudiciais e até fatais em testes com animais. Trabalhando em conjunto com o imunologista Drew Weissman, Karikó descobriu que a modificação dessas bases bloqueava reações inflamatórias indesejadas e, ao mesmo tempo, aumentava a produção de proteínas desejadas. Essa tecnologia, patenteada pela dupla em 2005, permite que o sistema imunológico seja direcionado de forma segura contra patógenos específicos. Recentemente, a pesquisa de Karikó e Weissman alcançou um impacto global extraordinário durante a pandemia de COVID-19, que durou de 2020 a 2023. Com base no sequenciamento genético do vírus, a plataforma de mRNA modificado permitiu o desenho e o desenvolvimento extremamente rápido das vacinas contra a doença. Esse avanço biotecnológico salvou a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo, demonstrando enorme eficácia na prevenção de quadros graves e hospitalizações. Por viabilizarem essa proteção em escala global, Karikó e Weissman receberam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2023. A viabilização desses imunizantes e a transformação da ciência básica em medicina aplicada não seriam possíveis sem o envolvimento da indústria. Karikó e Weissman fundaram inicialmente a RNARx para tentar comercializar o RNA não imunogênico e, depois, licenciaram a tecnologia para empresas como BioNTech e Moderna. Em 2013, Karikó assumiu o cargo de vice-presidente sênior na empresa biofarmacêutica BioNTech para coordenar ativamente o desenvolvimento do mRNA. Essa união do conhecimento científico com o setor industrial superou as antigas dificuldades de apoio financeiro na academia. Para além dos laboratórios e prêmios, Katalin Karikó possui uma história de vida construída sobre a resiliência e o foco no impacto humano. Como imigrante, precisou costurar o pouco dinheiro que conseguiu — oriundo da venda de seu carro no mercado clandestino — no urso de pelúcia de sua filha pequena para conseguir deixar seu país durante o regime comunista húngaro. Longe da vaidade acadêmica, ela afirmou sentir-se mais realizada ao ver idosos de uma casa de repouso sobreviverem à COVID-19 graças à vacina do que ao receber prêmios. Karikó espera que seu Nobel inspire outras mulheres, imigrantes e cientistas a perseverarem em suas jornadas. A trajetória da cientista, no entanto, foi exaustiva e marcada por duras rejeições. O artigo fundamental sobre sua descoberta foi rejeitado por revistas científicas de prestígio em 2005, com a justificativa de não ser “inovador”. Ela lutou continuamente para obter financiamento para pesquisas e, em 2013, chegou a ser rebaixada e forçada a se aposentar de sua posição na Universidade da Pensilvânia, sob a alegação de que não possuía a “qualidade” exigida para compor o corpo docente. Apesar de ter sido forçada a esvaziar sua mesa, Karikó reconheceu, após receber o Nobel, que os percalços e as pessoas que dificultaram sua vida a tornaram mais resiliente. Em suma, Katalin Karikó representa a face de uma ciência revolucionária que só triunfou graças a uma teimosia inabalável. A sua perseverança, em um período em que a própria comunidade acadêmica a menosprezava, transformou a medicina moderna. A sua descoberta em torno da molécula de mRNA hoje vai além da pandemia, pavimentando estudos futuros sobre outras doenças infecciosas e novos tratamentos contra o câncer. Autor: Juan Rattes de Brito REFERÊNCIAIS: [1] Nobel Prize. KATALIN KARIKÓ. Disponível em: https://www.nobelprize.org/stories/women-who-changed-science/katalin-kariko/. [2] National Geographic Brasil. Quem é Katalin Karikó… Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2023/10/quem-e-katalin-kariko-a-historia-por-tras-da-vencedora-do-premio-nobel-de-medicina-de-2023. [3] PubMed Central. From rejection to the Nobel Prize: Karikó and Weissman’s pioneering work on mRNA vaccines… Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10663363/. [4] Britannica. Katalin Karikó. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Katalin-Kariko.