
Yakov Frenkel (1894 – 1952)
Yakov Illyich Frenkel nasceu em 10 de fevereiro de 1894, em Rostov-on-Don, no Império Russo, em uma família de origem judaica. Desde jovem, demonstrou um talento excepcional tanto para as artes, sendo um violinista e pintor dedicado, quanto para as ciências exatas. Ele ingressou na Universidade de São Petersburgo em 1913, concluindo seus estudos em apenas três anos, período em que começou a se destacar sob a orientação de figuras importantes da física russa, desenvolvendo uma visão teórica que unia rigor matemático a uma intuição física aguçada [1, 2].
A carreira de Frenkel consolidou-se no Instituto Físico-Técnico de Leningrado (atual Instituto Ioffe), onde se tornou um dos principais físicos teóricos da União Soviética. Sua versatilidade era notável: enquanto muitos cientistas se especializavam em uma única área, Frenkel publicou artigos sobre eletrodinâmica, física nuclear e física do estado sólido. Em 1926, ele revolucionou a cristalografia ao introduzir o conceito do que hoje chamamos de “defeito de Frenkel”, que descreve o momento em que um átomo abandona sua posição na rede cristalina para ocupar um espaço intersticial, deixando para trás uma lacuna, conceito vital para entender a difusão em sólidos [2, 3].
No início da década de 1930, Frenkel voltou seus estudos para as propriedades ópticas dos isolantes, o que o levou a prever teoricamente a existência de éxcitons. Ele propôs que um fóton poderia ser absorvido por um cristal para criar um estado excitado que se move através da rede como uma entidade neutra, sem transportar carga elétrica líquida, mas transportando energia. Essa ideia foi inicialmente recebida com ceticismo, mas provou ser um pilar fundamental para a física de semicondutores e para o desenvolvimento de dispositivos tecnológicos como LEDs e células solares [3].
Além de suas contribuições à física da matéria condensada, Frenkel desempenhou um papel crucial no início da física nuclear. Em 1936, ele foi o primeiro a propor o modelo da gota líquida para descrever o núcleo atômico, sugerindo que as forças que mantêm os prótons e nêutrons unidos agem de forma análoga à tensão superficial em uma gota de líquido. Este modelo forneceu a base para que Niels Bohr e John Wheeler explicassem, anos depois, o fenômeno da fissão nuclear, demonstrando a visão precursora de Frenkel [2, 3].
Frenkel também dedicou grande parte de sua vida ao ensino e à escrita de livros didáticos que se tornaram clássicos na formação de físicos ao redor do mundo. Sua obra “Teoria Cinética dos Líquidos”, publicada originalmente em 1945, é considerada um dos textos mais influentes na área, tratando os líquidos não apenas como gases densos, mas como sistemas com ordem de curto alcance, similares aos sólidos. Sua abordagem pedagógica era clara e incentivava os alunos a buscarem a “física por trás das fórmulas” [2, 3].
Apesar das pressões políticas da era stalinista e de sua saúde frágil, Frenkel nunca abandonou sua integridade científica e seu entusiasmo pela ciência. Ele faleceu em 23 de janeiro de 1952, em Leningrado, devido a complicações relacionadas à insuficiência cardíaca grave. Sua memória permanece viva em cada estudante que estuda os defeitos em cristais ou o comportamento de quasipartículas, sendo frequentemente citado como o “físico dos físicos” devido à elegância de suas soluções teóricas [1, 3].
Autor: Eloise Granville
Referências:
[1] FRENKEL, J. Kinetic theory of liquids. Oxford: Oxford University Press, 1946. (International Series of Monographs on Physics).
[2] FRENKEL, V. Y. Yakov Ilich Frenkel: his work, life and letters. Basel: Birkhäuser, 1996.
[3] PEIERLS, R. Yakov Ilich Frenkel. Biographical Memoirs of Fellows of the Royal Society, London, v. 1, p. 89-101, nov. 1953. Disponível em: https://royalsocietypublishing.org/journal/rsbm. Acesso em: 25 de fevereiro de 2026.