
No Ritmo do Carnaval: O Samba como Patrimônio Cultural Brasileiro
O Carnaval, que hoje mobiliza foliões em diferentes partes do mundo, percorreu um longo e gradual processo de transformação até alcançar o formato que conhecemos. Registros históricos indicam que ele se consolidou entre os séculos XII e XVI, em cidades italianas — especialmente Veneza —, que se tornaram importantes centros dessa celebração, difundindo bailes mascarados, cortejos públicos e teatralização urbana [1]. No Brasil, essa festividade foi introduzida pelos portugueses no período colonial, com início no século XVII, sob a forma do entrudo: prática popular de rua, caracterizada por brincadeiras coletivas que consistiam em lançar água — não necessariamente limpa — uns nos outros. Utilizavam-se bexigas de cera cheias de água (os chamados “limões de cheiro”), bem como baldes com água misturada a farinha, gesso e, em situações mais extremas, líquidos de odor desagradável, com o objetivo de surpreender, molhar e “atacar” o outro como parte da diversão [1]. Com o tempo, essa brincadeira deixou de ser vivenciada apenas pela elite portuguesa e passou a ser amplamente adotada, sobretudo, por escravizados, libertos e trabalhadores urbanos, o chamado “povo miúdo”. No entanto, o entrudo foi sendo reprimido ao longo do século XIX, por ser considerado desordeiro e incompatível com o projeto de modernização urbana, sobretudo no Rio de Janeiro, então capital do Brasil [1]. A administração municipal passou a editar regulamentos e decretos que proibiam a prática, impondo multas e prisões sob o argumento de que era necessário “civilizar” os costumes e aproximar a capital dos padrões europeus de urbanização. Nesse contexto, guardas patrulhavam as vielas, dispersando aglomerações, confiscando bexigas e levando os envolvidos às delegacias. O espaço público, antes palco da brincadeira popular, tornou-se território de vigilância e repressão, com o objetivo de redefinir quem poderia ocupar as ruas — e sob quais condições [1, 2]. Embora censurado pelas autoridades, o entrudo não desapareceu por completo. Muito pelo contrário, foi sendo, aos poucos, ressignificado nas áreas populares da cidade, a partir da segunda metade do século XIX, incorporando influências africanas e outras formas de celebração consideradas mais compatíveis com o ideal de “ordem e progresso” defendido pelas elites. Entre essas formas, destacavam-se os bailes de máscara realizados em teatros e clubes fechados, que tinham como elementos principais fantasias refinadas e música orquestrada, inspiradas nos carnavais europeus, especialmente nos modelos francês e italiano [2]. Foram esses acontecimentos que possibilitaram, no início do século XX, mais precisamente em 1932, a realização do primeiro desfile oficial de escolas de samba no Rio de Janeiro, posteriormente regulamentado pelo poder público, com critérios formais de julgamento [2, 3]. Atualmente, o Carnaval é celebrado em mais de 50 países, distribuídos principalmente pela Europa, América Latina e Caribe, além de algumas regiões da África e da América do Norte. A comemoração está vinculada ao calendário litúrgico móvel católico, ocorrendo 47 dias antes do Domingo de Páscoa e encerrando-se na Quarta-feira de Cinzas, período de jejum e penitência. O próprio termo “Carnaval”, derivado do latim carne vale, que significa “adeus à carne”, evidencia seu vínculo com a transição para um período de restrição [1, 3]. Ainda que comemorado coletivamente em diversos países, o Carnaval ganhou um estilo próprio, sendo moldado de acordo com as realidades culturais e históricas de cada sociedade. No Brasil, por exemplo, existem muitas maneiras de curtir essa festividade, mas a comemoração raiz acontece, essencialmente, no Sambódromo — palco oficial dos desfiles das escolas de samba — ou nos tradicionais bloquinhos de rua [3, 4]. No caso do Sambódromo, os desfiles das escolas de samba exigem um trabalho árduo que perdura o ano inteiro para se concretizar, em poucos minutos, na Sapucaí, demandando disciplina, entrega e pertencimento da comunidade com a escola. Até o dia do desfile, o samba-enredo precisa estar na boca do povo, cantado com o coração, pois é ele que narra a história que será apresentada na avenida. Cabe às rainhas das escolas de samba, por meio da sincronia de seus movimentos e muito samba no pé, apresentar o esquenta da bateria ao público. São as fantasias, os adereços e as maquiagens elaboradas, com muito brilho e purpurina, e os gigantescos carros alegóricos, capazes de comportar dezenas de pessoas, que enriquecem e colorem a avenida, chamando a atenção do público carnavalesco [3, 4]. Além disso, são os bonecos gigantes de Olinda, o frevo, os estandartes, os trios elétricos e as marchinhas que compõem o código estético do Carnaval de rua no Brasil. É nas ruas que a comemoração é marcada por experiências intensas, como cantar junto com desconhecidos como se já fossem velhos amigos; vestir algo que jamais usaria no dia a dia e sentir-se incrível; perder-se na multidão e, ao mesmo tempo, reconhecer-se como parte dela; beber algo gelado no calor intenso e sentir alívio imediato; dormir pouco e acordar com o corpo pesado, mas com o coração leve. É o suor misturado com alegria que faz parte de dias marcados por muita folia, muito beijo na boca e muito samba [4]. São essas vivências interpessoais que conferem identidade ao Carnaval brasileiro, como bem sintetiza o comentarista Milton Cunha: “o Carnaval é o maior espetáculo popular do planeta porque ele fala de quem somos” [4]. E falar de quem somos implica, inevitavelmente, revisitar a nossa própria história. Isso é feito ano após ano no Carnaval — e, em 2018, não foi diferente: a escola Paraíso do Tuiuti apresentou o samba-enredo “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?” e iniciou o desfile com uma comissão de frente que encenava o tráfico negreiro, no qual homens e mulheres capturados na África apareciam confinados nos porões das embarcações que cruzaram o Atlântico, presos por correntes. A coreografia incluía também feitores1 dando chibatadas nesses povos escravizados, configurando um ato de desumanidade. A maquiagem e os figurinos ajudavam a evidenciar as cicatrizes e marcas estilizadas da violência e da brutalidade que, infelizmente, mancharam a história do Brasil por mais de três séculos [5]. Após esses detalhes de tamanha densidade histórica, contados com minúcia, seria natural, caro leitor, você supor que esta autora esteve presente na Sapucaí em 2018. Mas sabe o que é mais curioso nisso tudo? É o fato de que ela jamais participou de um Carnaval até o momento. Tudo o que conhece vem de depoimentos, relatos e de muitas madrugadas acordada, assistindo à televisão, esperando a Beija-Flor desfilar na Marquês de Sapucaí. Acompanhando, no dia seguinte, a apuração das notas e sempre torcendo para que a escola de Nilópolis fosse a grande campeã do Carnaval do Rio de Janeiro, tomada pela alegria e pelo entusiasmo de Neguinho da Beija-Flor, que abria os desfiles dizendo: “Abre alas, meu povo, olha a Beija-Flor aí, gente! Chora, cavaco!” [6]. Ainda assim, uma coisa é certa: mesmo como espectadora, não é preciso estar fisicamente presente para sentir a euforia que o Carnaval desperta. O que chega pela tela, pela música e pelos relatos já basta para compreender que o Carnaval é muito mais do que uma festa. Ele desperta, no povo brasileiro, o orgulho pela própria terra, enaltecendo a nossa pluralidade cultural, bem como dando visibilidade a narrativas historicamente marginalizadas que marcaram a formação do Brasil — muitas delas ainda refletidas no cotidiano de grande parte da população; evidenciando a luta contra as desigualdades sociais e de gênero, além de reforçar a importância de preservar nossas riquezas naturais — que se materializam na imensa diversidade de fauna e flora que nos sustenta [7]. Autora: Cassandra Trentin. Referências: [1] FERREIRA, F. Inventando carnavais: o surgimento do carnaval carioca no século XIX e outras questões. Rio de Janeiro: UFRJ, 2004. [2] BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1987. [3] CAVALCANTI, M. L. V. C. Carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994. [4] VIANNA, H. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. [5] DAMATTA, R. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco do a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 1999. [7] TINHORÃO, J. R. Pequena história da música popular: da modinha à lambada. São Paulo: Art Editora, 1991. 1. Indivíduos responsáveis por fiscalizar e controlar o trabalho de pessoas escravizadas durante o período colonial e imperial no Brasil.