
Os Melhores Contos de Fadas Asiáticos
Autor: Feng Menglong Ano de publicação: 2024 Gênero: Narrativo A coletânea Os Melhores Contos de Fadas Asiáticos apresenta 31 narrativas tradicionais provenientes de diferentes regiões da Ásia — entre elas, China, Japão, Mongólia, Coreia e Índia. Embora cada conto contribua para a preservação de mitos e lendas transmitidos ao longo das gerações, a obra busca também evidenciar que essas histórias atuam, em diversas sociedades asiáticas, como instrumentos de orientação espiritual que sustentam práticas e valores culturais. Nesse escopo, destaca-se “Dama Bai: A Lenda da Serpente Branca”, um dos contos mais envolventes do folclore chinês, que articula de maneira consistente enredos que exploram moralidade, justiça, redenção e a complexidade das relações afetivas entre um espírito milenar e um homem mortal. A narrativa acompanha Xu Xuan, jovem herdeiro de uma tradicional casa de ervas medicinais, que desde cedo assumiu o negócio deixado pelos pais. Certo dia, enquanto atendia seus clientes, Xu Xuan é surpreendido pela visita de um monge, que o convida a participar do festival Qingming, cerimônia dedicada à veneração aos antepassados. Xu Xuan aceita o convite e, na manhã seguinte, dirige-se ao templo, cumprindo todos os rituais previstos. Ao sair da celebração, uma tempestade repentina o surpreende, impedindo seu retorno para casa. Após caminhar pela margem do rio em busca de um barco, avista o velho Zhang, barqueiro conhecido na região, e pede uma carona. Durante a travessia, o barqueiro interrompe o percurso ao ouvir vozes que vinham da margem: duas mulheres pediam auxílio. Entre elas estava a dama Bai. Ao subir no barco, a senhorita mencionou ao sr. Zhang e a Xu Xuan, que era viúva, e explicou ter ido ao festival Qingming prestar homenagem ao marido falecido. O encontro foi breve, mas suficiente para que Xu Xuan não conseguisse apagar da mente a delicadeza e a beleza daquela mulher, cuja presença o impressionou de imediato. No dia seguinte, o destino insistiu em aproximar Xu Xuan e dama Bai. A caminho do mercado local, levando o guarda-chuva que havia emprestado de seu tio, ele reencontra a jovem sob uma chuva intensa. Diante da situação, Xu Xuan entrega o guarda-chuva a Bai e combina de ir buscá-lo no dia posterior, na viela Shengongjing, onde ela morava. Ao chegar ao local, Xu Xuan é conduzido até uma residência ampla, com portão duplo e janelas de treliça — espaço que aparenta dispor de considerável riqueza. Recebido com hospitalidade, ele aceitou o convite para tomar chá. Nesse momento, Bai subitamente revela que, desde o primeiro instante em que avistou Xu Xuan, nutriu por ele um afeto imediato, declarando: “Diante de um homem honesto como o senhor, eu não posso deixar de dizer a verdade. Meu marido faleceu, e eu acredito que eu e o senhor já fomos um casal em vidas passadas, já que nos apaixonamos logo à primeira vista. Não seria maravilhoso se o senhor pudesse encontrar uma casamenteira para nos casar e vivermos felizes um ao lado do outro? [..]” Surpreso, Xu Xuan recusa inicialmente a proposta, alegando não possuir condições financeiras para assumir tal compromisso. Bai, então, afirma dispor de algumas economias herdadas de sua antiga união, assegurando que seriam suficientes para viabilizar o matrimônio. Nesse momento, ela solicita à sua criada que traga o presente preparado especialmente para seu amado. Ao abrir o embrulho, Xu Xuan se depara com cinquenta taéis de prata, oferecidos com naturalidade pela senhorita Bai. Diante desse gesto inesperado — que solucionaria suas limitações econômicas e legitimaria a possibilidade do casamento com a mulher que amava — Xu Xuan finalmente aceita. Animado, Xu Xuan procura a irmã e o cunhado, o oficial Li, pedindo que iniciem os trâmites do casamento. No entanto, ao ouvir a origem do dinheiro, o cunhado reage imediatamente: a quantia corresponde exatamente aos lingotes de prata furtados do cofre do general Shao, em um crime recente e sem suspeitos. Temendo ser acusado de acobertamento, Li entrega as pratas às autoridades, o que leva Xu Xuan à prisão sob denúncia de roubo. Diante da incriminação, ele insiste em sua inocência e relata ao general, em detalhes, todo o ocorrido: explica como conheceu dama Bai, como foi recebido em sua residência e de que forma recebeu os cinquenta taéis de prata. Seu depoimento despertou a curiosidade das autoridades, que decidiram verificar a veracidade das informações apresentadas por Xu Xuan. Quando os oficiais chegam para investigar o local onde Bai supostamente vivia, a residência, antes descrita como uma casa imponente, revela-se um imóvel abandonado, tomado por entulho e mau cheiro. Moradores da região esclareceram que ali nunca viveu alguém que se identificava como dama Bai — e recordam que a última família a ocupar a casa morreu de uma doença de estação há quase uma década. Esse é o primeiro clímax da trama, que abre caminho para o possível caráter sobrenatural que permeia o conto. A história conduz o leitor a um terreno de incertezas: dama Bai seria um espírito? Uma ilusão construída na mente de Xu Xuan? Uma divindade — ou um demônio — que se apaixonou por ele e arquitetou cada detalhe para se aproximar? Ou teria ela um plano ainda maior, usando Xu Xuan apenas como isca? O conto desenvolve essa atmosfera de dúvidas até se aproximar de seu desfecho, preservando o mistério e nos instigando a questionar, a cada página, o que realmente está acontecendo e qual mensagem a narrativa procura transmitir. É surpresa atrás de surpresa — e, quanto ao final, adianto apenas que, ao investigar a origem da dama Bai, segredos vêm à tona, deixando Xu Xuan horrorizado e profundamente assustado. Esse é apenas um aperitivo, caro leitor, do que esta obra tem a oferecer. Autora: Cassandra Trentin