
O Idiota
Autor: Fiódor Dostoiévski. Ano de publicação: 1867. Gênero: Romance. Resenha: Dostoiévski sempre criticou a Igreja Católica; ainda assim, era profundamente religioso. Em suas obras, inspirava-se na figura de Cristo para dar vida a seus personagens. Por exemplo, sua pureza em ver o lado bom das pessoas e capacidade de perdoar são traços marcantes do Príncipe Liév Nikoláievitch Míchkin. Na trama, porém, a alta sociedade de São Petersburgo não compreende tamanha pureza, ridiculariza sua falta de ambição e o apelida de “Idiota” – dando o nome à obra. Mas não se engane, leitor: embora zombassem de sua imagem, a alta sociedade russa se regozijava com a presença de Míchkin em suas festividades. Talvez fosse justamente sua inocência que levava as pessoas a se abrirem e depositarem nele sua confiança. Diferentemente dos outros nobres, Míchkin não queria lograr fama ou riqueza mediante as pessoas com quem conversava; queria apenas conversar. No decorrer das páginas, conhecemos gradualmente a história de Míchkin. Órfão desde cedo, foi levado à Suíça, onde passou parte da vida em tratamento para crises de epilepsia. Com a morte de seu benfeitor, retornou à Rússia em busca de uma parente distante. Ao chegar em São Petersburgo, mesmo sem sequer um teto para morar, conheceu herdeiros, magnatas, a tal parente — uma princesa — e a Nastasya Filippovna — considerada por muitos a mulher mais linda da Rússia. Nastasya era controladora. Seu próprio benfeitor, em um ato de desespero, ofereceu um dote exuberante por sua mão apenas para ver-se livre dela. Tal como uma cortesã da época, Nastasya envolvia-se com todos os seus pretendentes; fazia-os ficar loucamente apaixonados. O jovem príncipe, no entanto, foi uma espécie de exceção: apaixonou-se por compaixão. No fim, Nastasya rejeitou-o para ficar com um amigo dele. Perdendo-a, Míchkin viveu sua primeira desilusão. Tempos depois, a sociedade russa não apenas integrou, mas acolheu Míchkin como um dos seus. Afinal, ele herdara uma grande fortuna de um tio distante. Essa ascensão social permitiu-lhe apaixonar-se por Aglaia Ivánovna: jovem, meiga, bela, imaculada e filha de sua parente. No entanto, seu envolvimento com Nastasya Filíppovna ainda o assombrava, lançando sombras sobre o novo amor. Assim, Míchkin viveu sua segunda desilusão. Essas são as principais tramas do romance — em si, até banais. No entanto, a verdadeira riqueza da obra está nos diálogos e nos debates entre os personagens; alguns refletem a própria história de vida de Dostoiévski. Naturalmente, essas conversas carregam intensa carga emocional e filosófica. Um dos momentos mais marcantes ocorre quando Míchkin narra a história de um condenado que tem sua sentença revogada minutos antes da execução — experiência vivida pelo próprio Dostoiévski. Cada sentimento, seja de angústia ou de desolação, que sentia em cada passo foi contado de forma vívida e profunda. Em suma, trata-se de uma obra sem igual, escrita por um autor igualmente singular. Todos deveriam ter a experiência de ler O Idiota. É uma leitura verdadeiramente enriquecedora: política, filosofia, drama e, em certa medida, a própria psique humana se entrelaçam em cada página. A parte mais difícil é chegar ao final e ainda acreditar que há esperança para a humanidade. Autor da resenha: Gabriel Mufatto.