
As Entrelinhas do Acaso
Ninguém pediu para nascer. No entanto, aqui estamos. Talvez alguma divindade tenha nos concedido a dádiva da existência; ou simplesmente sejamos meros frutos do acaso. Mas é difícil ignorar o gosto amargo que nossos egos sentem ao reduzir a própria existência humana a uma simples vitória em um jogo de azar que o universo, por sorte (ou não), venceu. Afinal, passaríamos de protagonistas — para quem tudo teria sido criado a fim de satisfazer — a meros subprodutos de uma cadeia de eventos aleatórios. Ao fim da vida, com um pouco de sorte, talvez descobriremos de onde viemos. Até lá, resta-nos apenas habitar este breve intervalo: viver, suportar, celebrar… e, para alguns, tentar calcular qual a chance de estarmos aqui.
Comecemos revendo um dos principais argumentos utilizados para atestar a possível existência de um criador: o chamado ajuste fino. A ciência mostrou que, se o universo fosse ligeiramente diferente, a vida tal como a conhecemos não existiria1. Foram necessárias condições quase que perfeitas para que o primeiro ser vivo existisse. Então, quais as chances do universo ser tão perfeito? Intuitivamente, somos levados a admitir que essas chances são irrisórias; afinal, existe uma infinidade de configurações para cada componente do universo. Alguns atribuem essa perfeição às mãos de um designer inteligente, que moldou precisamente cada componente do cosmos para, enfim, a vida poder existir.
Apesar de ser um tanto quanto sedutor, note que esse raciocínio foi construído considerando a vida como uma consequência do universo – algo que soa lógico e trivial. Porém, ao lidar com probabilidades, devemos levar em consideração os eventos que já fazem parte da realidade; neste caso, a própria vida. Portanto, não devemos nos perguntar “qual a probabilidade da vida existir em um universo como este?”, mas sim: “dada a existência da vida, qual a probabilidade de o universo ser exatamente como é?”
Como visto, as chances no primeiro caso não são favoráveis: pequenas alterações no universo o tornam incapaz de sustentar a vida tal como a conhecemos. Mas, como existem seres vivos, a probabilidade de o universo apresentar exatamente estas condições torna-se muito maior – caso contrário, esses seres vivos não existiriam. Stephen Hawking denominou essa interpretação de “Princípio Antrópico Fraco”, uma vez que parte do fato da existência humana na Terra (expressa pela palavra Antrópico) para justificar o mundo observável.
Os argumentos desenvolvidos nas seções precedentes foram pautados na perspectiva de que mudanças nas condições iniciais do universo impossibilitam o surgimento da vida tal como a conhecemos. No entanto, os seres vivos surgiram depois dessas condições serem estabelecidas. Segundo a seleção natural, esses seres vivos evoluíram adaptando-se a essas condições. Naturalmente, condições ligeiramente diferentes poderiam dar origem a formas de vida ligeiramente diferentes. Desta forma, a real pergunta que nos debruçamos é: dada a existência de seres vivos e considerando suas possíveis formas, qual a probabilidade do universo ser como é?2
Neste ponto, vale notar que a sequência lógica adotada nos conduz a discutir as probabilidades associadas ao surgimento do universo tal como o observamos. Contudo, como é certo que esse cenário sustenta seres vivos, podemos, de forma indireta, inferir uma probabilidade para o surgimento da própria vida. Assim, se a probabilidade de um universo como o nosso existir for elevada, a probabilidade do surgimento da vida igualmente o será. Naturalmente, essas probabilidades são drasticamente afetadas pelo tempo disponível em que se espera encontrar seres vivos – afinal, as chances de seu surgimento em 10 mil anos são radicalmente distintas do que em 500 milhões de anos.
É claro que o Princípio Antrópico fraco não encerra a discussão. Existem outras tentativas de explicar a improbabilidade do surgimento da vida. A equação de Drake, Teoria da floresta negra e a Teoria do Grande filtro são apenas alguns exemplos. Algumas hipóteses mais ousadas sugerem a existência de infinitos universos: se tudo o que é possível ocorre em algum deles, então a vida não seria uma exceção, mas uma necessidade. Talvez jamais encontraremos uma resposta definitiva. Até lá, resta-nos apenas continuar vivendo, carregando conosco tanto o assombro da ciência quanto o espanto da filosofia – e tentar melhorar esses cálculos.
Autor: Gabriel Vinicius Mufatto.
Referências
Hawking, Stephen. O universo numa casca de noz (The Universe in a Nutshell). São Paulo: Mandarim, 2001.
Greene, Brian. Até o fim do tempo: mente, matéria e nossa busca por sentido num universo em evolução. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
Mlodinow, Leonard. O andar do bêbado. São Paulo. 2009
1 Por exemplo, se a força nuclear forte fosse mais intensa, o Sol não produziria alguns elementos químicos; se fosse mais fraca, as estrelas nem existiriam.
2 Existe uma sutileza natural nessas probabilidades. Portanto, sugerimos ao leitor refletir atentamente sobre elas.