
Feliz Ano Velho
Autor: Marcelo Rubens Paiva
Ano de publicação: 1982
Gênero: autobiografia
Marcelo Rubens Paiva levava uma vida relativamente comum em dezembro de 1979: era estudante de engenharia agrícola na Unicamp, tinha muitos amigos e uma banda em que cantava e tocava guitarra. Também era politicamente ativo, aspecto que herdou de sua família. No dia 14 de dezembro de 1979, com 20 anos, Marcelo estava em uma festa de fim de ano em um sítio com amigos, subiu em uma pedra à beira de um lago e gritou: “Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado”. Pulou com a pose do Tio Patinhas, e sua vida mudou completamente nos instantes seguintes, porque o lago era muito raso. Esse episódio, que o deixou tetraplégico, marca o início de Feliz Ano Velho, obra em que o autor narra com ironia, dor e lucidez sua jornada de reconstrução.
Marcelo é filho de Rubens Beyrodt Paiva, ex-deputado federal que foi preso, torturado e assassinado pela ditadura militar em 1971. Inspirado a começar a escrever durante o período em que lutava para reconstruir sua vida em uma cadeira de rodas, viria a se tornar um renomado escritor, dramaturgo e jornalista. Na sua primeira obra, narrou o acidente, os dias no hospital e muitas lembranças de uma vida que já não existia mais, ao menos não da mesma forma. Com um estilo que mescla humor ácido, profunda introspecção, e uma honestidade até mesmo exagerada, a obra tornou-se um marco na autobiografia brasileira.
O começo da narrativa tem enfoque no período em que o autor passou no hospital, nos meses seguintes da ocorrência. Durante esse tempo, o futuro era muito incerto: não era possível saber se voltaria a andar, mexer os braços ou manipular objetos. A narração transmite o sentimento de incerteza, mas tem um tom de quase irreverência, com certa negação, que talvez tenha sido o pensamento predominante de Marcelo após o acidente. Inicialmente, suas preocupações envolviam voltar a tocar violão e frequentar a universidade. Com o tempo, essas metas se tornaram secundárias diante de objetivos mais urgentes: mexer os braços e mãos, conseguir se sentar e controlar a cadeira de rodas sozinho.
A narração estende-se até dezembro de 1980, quando o autor já estava em casa há meses, conseguia ficar sentado sem colete ortopédico, efetuar pequenas locomoções sozinho com a cadeira de rodas e até mesmo utilizar uma máquina de escrever. Nesse meio tempo foi necessária uma cirurgia na vértebra lesionada, e quando a narrativa acaba, Marcelo estava ainda em aceitação de sua nova condição:
“Hoje em dia, me pergunto se preferiria estar morto. Não sei nem quero saber. Só sei que, nas noites em que tenho insônia, lembro de um garoto normal que subiu numa pedra e gritou: – Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado.” (p. 267).
Trata-se de uma leitura muito interessante, principalmente quando o leitor percebe que a situação poderia acontecer com qualquer um. Os sentimentos do autor – nem sempre bons e inspiradores, mas reais – são transmitidos de maneira fiel com a utilização de uma linguagem direta e humor cortante. A situação conturbada do país também está presente na obra, especialmente nas lembranças que Marcelo tem de seu pai. O desaparecimento de Rubens Paiva e as consequências disso para a família são retratados de forma dolorosa e crítica. Atualmente, Marcelo Rubens Paiva continua atuando como escritor, jornalista e dramaturgo, sendo uma voz importante na cena cultural brasileira. Feliz Ano Velho permanece atual e é uma leitura que emociona, provoca reflexões e merece ser conhecida por quem se interessa por histórias de vida autênticas e transformadoras.
Autor: Angelo Zanona Neto