
Desmistificando a Radiação
Ao público em geral, em especial às pessoas que não tiveram a oportunidade de estudar a física nuclear, a palavra radiação pode parecer carregada de algo próximo de um misticismo. O que é isso que assombrou a humanidade ao final da Segunda Guerra Mundial, em Chernobyl, na década de 1980, e em Fukushima, no ano de 2011? Será que a radiação é mesmo algo com o que só temos contato nesses momentos de desastres?
O primeiro ponto a chamar a atenção é que, nesse contexto, a radiação à qual nos referimos é a radiação ionizante – aquela que tem energia suficiente para remover elétrons de átomos ou moléculas com os quais interage. Nem toda forma de radiação tem esse poder: a radiação não ionizante inclui ondas de rádio, micro-ondas, infravermelho e luz visível. A radiação ionizante é classificada em duas categorias principais de acordo com sua natureza física: a corpuscular, composta por partículas que possuem massa — como as partículas alfa (α), beta (β) e os nêutrons — e a eletromagnética, constituída por ondas de alta energia e sem massa, representadas pelos raios X e raios gama (γ).
A radiação ionizante pode ser de fonte natural ou artificial. Naturalmente, ela vem do espaço (raios cósmicos) e de radionuclídeos naturais – elementos radioativos presentes no nosso planeta (U-238, Th-232 e K-40). Artificialmente, ela pode ser encontrada em diferentes contextos. Entre os principais, estão as aplicações médicas (radiografia, tomografia e radioterapia) e a geração de energia. Esta última se refere à fissão nuclear, um processo que gera grandes quantidades de nêutrons e raios gama, além de rejeitos radioativos (materiais resultantes da operação de reatores nucleares, que permanecem ativos por longos períodos).
Neste ponto, já podemos responder à segunda pergunta feita no início deste texto. Na realidade, estamos expostos à radiação a todo momento. Não há como evitar, afinal, ela provém do espaço e do próprio solo. O principal risco associado à radiação ionizante são os danos causados às moléculas de DNA, que podem evoluir para a formação de tumores. No entanto, nossos organismos (assim como toda a vida na Terra) são o resultado de um processo evolutivo que ocorreu exatamente em um ambiente exposto à radiação. Ou seja, estamos biologicamente preparados para lidar com as doses naturais, graças à ação de enzimas que reparam falhas no DNA e ao processo de apoptose (morte celular programada) [1].
Os maiores problemas enfrentados pela humanidade em relação à radiação ocorrem em contextos artificiais. As bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki liberaram quantidades enormes de radiação ionizante em duas fases: a irradiação imediata após a fissão nuclear e a precipitação radioativa (fallout), que depositou material residual em áreas gigantescas. Os desastres de Chernobyl e de Fukushima, embora por motivos distintos, resultaram na dispersão de grandes volumes de produtos de fissão na natureza. Outro exemplo é o acidente de Goiânia em 1987. Nesse episódio, uma cápsula de Césio-137 proveniente de um equipamento de radioterapia abandonado foi violada por catadores de sucata. O desconhecimento sobre o pó radioativo levou à sua disseminação pela cidade, culminando no maior acidente radiológico urbano da história ocorrido fora de uma instalação nuclear [2].
Os desastres nucleares, sem dúvida, constituem páginas muito dolorosas da história humana, marcadas por sofrimento, perdas irreparáveis e profundas cicatrizes sociais e ambientais. Entretanto, reduzir a radiação apenas a esses episódios é ignorar um aspecto fundamental do conhecimento científico: sua neutralidade enquanto fenômeno natural. É o uso que dela fazemos que determina seus riscos e benefícios. Quando compreendida, controlada e aplicada de forma responsável, a radiação se torna uma poderosa aliada da humanidade. Na medicina, uma de suas importantes aplicações, a capacidade de diagnóstico precoce e de tratamentos oncológicos salva vidas todos os dias. Assim, desmistificar a radiação inclui reconhecer que o conhecimento científico aplicado com responsabilidade pode transformar um potencial risco em um instrumento poderoso de progresso.
Autor: Angelo Zanona Neto
Referências:
[1] NOUAILHETAS, Y. Radiações Ionizantes e a vida. Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Disponível em: <https://www.gov.br/cnen/pt-br/material-divulgacao-videos-imagens-publicacoes/publicacoes-1/radiacoesionizantes.pdf>. Acesso em: 18 de fevereiro de 2026.
[2] Césio 137: maior acidente radiológico da história aconteceu em Goiás e afetou mais de mil pessoas; relembre. Portal G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2023/07/06/cesio-137-maior-acidente-radiologico-da-historia-aconteceu-em-goias-e-afetou-mais-de-mil-pessoas-relembre.ghtml>. Acesso em: 18 de fevereiro de 2026.
[3] (Imagem) BAVERSTOCK, K. Explainer: How much radiation is harmful to health? The Jakarta Post, 2020. Disponível em: <https://www.thejakartapost.com/life/2020/02/17/explainer-how-much-radiation-is-harmful-to-health.html>. Acesso em: 18 de fevereiro de 2026.