
Girolamo Cardano (1501 – 1576)
Infelizmente, muitas pessoas não têm o reconhecimento que merecem. Muitas vezes acabam sendo tratadas com indiferença ou até mesmo com desdém pelos outros. Sortudas são aquelas que com o tempo passam a ser reconhecidas. As injustiças que sofreram vêm à tona, e seu verdadeiro valor finalmente é revelado. Para exemplificar, contar-vos-ei sobre a vida de Girolamo Cardano: um gênio odiado pela sociedade, menosprezado pelos filhos, cujo potencial foi verdadeiramente reconhecido mais de 100 anos após sua morte. Desde a mais tenra infância, a morte acompanhou Cardano. Sua mãe, Chiara, tentou abortá-lo diversas vezes. Quando finalmente nasceu, em 1501, na cidade de Milão, Itália, após um parto que durou três dias, não chorou nem demonstrou qualquer sinal de vida. O médico lhe deu apenas uma hora de vida. Foi salvo, contudo, por uma ama de leite, que o reanimou com um banho de vinho quente. No entanto, poucos meses depois, ele e sua família contraíram a peste bubônica. A empregada da casa e seus três irmãos morreram. A renda da família vinha de seu pai, Fazio Cardano, que se tornou um médico respeitado após espalhar que era, supostamente, um parente distante do papa Celestino IV. Quando jovem, Girolamo era obrigado a acompanhá-lo, carregando os numerosos livros de medicina durante as consultas. Em um dos livros que escreveu, Girolamo relatou: “De tempos em tempos, quando caminhávamos pelas ruas, meu pai me mandava parar, abria um livro e, usando minha cabeça como apoio, lia uma longa passagem, cutucando-me o tempo todo com o pé para que eu ficasse imóvel, caso não suportasse aquele grande peso” Cansado do tratamento que recebia dos pais, Cardano decidiu, aos 15 anos, que seguiria carreira na medicina. No entanto, seu pai recusou-se a sustentá-lo, pois desejava que o filho se tornasse advogado. Para custear os estudos, Girolamo passou a dar aulas de geometria e a elaborar horóscopos. Sua principal fonte de renda, porém, vinha dos jogos de azar — atividade na qual aplicou suas primeiras ideias sobre probabilidade, que o faziam vencer com frequência. Em 1520, matriculou-se em Medicina na Universidade de Pavia, Itália. Durante a faculdade, Cardano tornou-se obstinado em deixar sua marca no mundo. Para isso, reuniu as ideias que desenvolveu na época dos jogos e escreveu o famigerado Livro dos Jogos de Azar, um dos primeiros manuais de probabilidade da história. O mais impressionante: a obra foi elaborada antes de serem introduzidos os sinais de igualdade e de fração na matemática. O livro, contudo, não alcançou popularidade. Sua carreira sofreu um duro golpe quando publicou As Opiniões Divergentes dos Médicos, ensaio em que criticava duramente seus colegas de profissão, chamando-os de charlatães. A comunidade médica passou a rejeitá-lo, impedindo-o de lecionar nas escolas de medicina. Para escapar dessa situação, Cardano comprou uma casa em Piove di Sacco, Itália, com o que restava de suas economias. Os habitantes da cidade viviam constantemente enfermos, e quase não havia médicos na região. Logo, porém, ele descobriu o motivo desta escassez: os cidadãos não confiavam na medicina, preferindo buscar cura junto a curandeiros e padres. Desesperado, Cardano chegou a recorrer a astrólogos e mágicos para livrar-se do azar, os quais chegaram a sugerir que evitasse entrar em contato com os raios da lua. No entanto, essa crise lhe proporcionou tempo para refletir e dedicar-se às áreas que mais apreciava, especialmente a matemática e à medicina. Para sobreviver, passou a atender os moradores da cidade quase de forma gratuita e voltou a participar de jogos de azar. Durante esse período, reescreveu sua crítica aos médicos, que, dessa vez, foi aceita pela academia. A partir desse ponto, a vida de Cardano mudou completamente. Seu artigo foi tão bem recebido que se tornou famoso. A escola de medicina em Pavia foi obrigada a contratá-lo, e ele acabou sendo nomeado reitor da universidade. Nesse período, escreveu vários artigos e livros. No entanto, sua ascensão foi apenas um breve momento de calmaria antes da tragédia que se aproximava. Na época, a fama e o nome eram o que mais importava para definir a carreira de alguém. Se um membro da família manchasse sua reputação, todos estariam condenados ao ostracismo. No caso de Girolamo, foi exatamente isso que aconteceu. Sua filha teve uma vida promíscua: engravidou do próprio irmão, Giovanni, e acabou abortando o feto. Logo depois, contraiu sífilis, tornando-se infértil. Giovanni, por sua vez, era mentiroso e violento. Foi forçado a casar-se com a filha de um casal de mineradores, que sabiam que ele havia assassinado um homem. Para escapar do casamento, Giovanni envenenou o bolo da noiva. Diante do escândalo, Girolamo gastou grande parte de sua fortuna tentando libertar o filho da prisão, sem que o público soubesse. No entanto, Giovanni foi sentenciado e morreu na prisão aos 26 anos. Por fim, um inimigo de longa data, terminou de decretar sua ruína: o matemático Niccolò Tartaglia, que jamais perdoara Cardano por ter revelado seu método para resolver certas equações de terceira ordem. Como vingança, Tartaglia convenceu o terceiro filho de Girolamo, Aldo, a denunciá-lo à Inquisição. Em troca, Aldo recebeu o título de torturador da própria Inquisição. O senado de Milão o expulsou da universidade, sentenciando-o por sodomia e incesto. Perdeu tudo. Em uma de suas últimas anotações, escreveu com amargura: “Reduzido, mais uma vez, aos farrapos”. Desde então, Cardano passou a perder a sanidade, mergulhando lentamente na loucura. Passou seus últimos dias em Roma. Nesse período, queimou mais de 170 manuscritos, dos quais apenas 111 foram salvos — entre eles, o célebre Livro dos Jogos de Azar, publicado quase um século após sua morte. Dessa forma, morreu em 20 de setembro de 1576, aos setenta e cinco anos, sozinho, isolado e esquecido. Autor: Gabriel Mufatto. Referências Girolamo Cardano. Disponível em: https://www.somatematica.com.br/biograf/cardano.php. Acesso em: 10 nov. 2025. Girolamo Cardano. Disponível em: https://mathshistory.st-andrews.ac.uk/Biographies/Cardan. Acesso em: 10 nov. 2025 Massimi, M. O conhecimento de si mesmo na narrativa autobiográfica de Girolamo Cardano. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 20, n. 2, p. 334-352, ago. 2014. Mlodinow, L. O andar do bêbado. São Paulo. 2009.