
Doces ou Travessuras? A História do Halloween
O Halloween é uma celebração típica de países de origem anglo-saxônica, como o Reino Unido, a Irlanda, a Austrália e os Estados Unidos. É inegável a fama que este último país conquistou mundialmente ao longo dos anos ao se transformar em um verdadeiro cenário temático. Lá, casas, ruas e comércios exibem decorações arrepiantes, criando o clima perfeito para o grande dia: 31 de outubro. Nesse dia, milhões de crianças vestem as mais diversas fantasias — desde criaturas assustadoras como vampiros, zumbis, fantasmas e lobisomens, até personagens de contos de fadas, as bruxas — e saem às ruas. A tradição é bater de porta em porta, dizendo a famosa frase: “Doces ou Travessuras?”, em busca da recompensa mais valiosa: os doces [1]. Além disso, a maneira como os Estados Unidos retratam o Halloween em produções cinematográficas e literárias contribuiu para difundir a ideia de que sua origem estaria ligada à América do Norte. Mas não se enganem! Como diz o velho ditado popular, “nem tudo o que parece é”. A verdade é que o berço dessa celebração é muito mais antigo: trata-se de uma festividade de origem celta [2]. Para esse povo ancestral, o ano novo não começava em janeiro, mas sim no Samhain, celebrado na noite de 31 de outubro [2]. A crença central era que a barreira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos se tornava tênue. Acreditava-se que os espíritos dos falecidos retornavam à Terra para visitar suas famílias, e que seres mágicos e até malignos também podiam transitar entre os reinos. Era um momento de honrar os ancestrais, mas também de se proteger de entidades indesejadas. Para isso fogueiras eram acesas para guiar os espíritos bons e afastar os maus [1, 2]. Esse festival marcava o fim da colheita e o início da estação escura e fria, e é justamente nessa transição que surgem as cores que remetem ao Halloween [2]. O preto, por exemplo, representa o fim do verão, a escuridão do inverno que se aproxima, a morte e o mistério da noite de Samhain [1, 2]. Já o laranja, em contraste vibrante com o preto, simboliza a colheita farta do outono, o calor das fogueiras, e a própria vitalidade da vida e da terra. É a cor da abundância e da esperança em meio à escuridão [2, 3]. Ao longo dos anos, a Igreja Católica expandiu sua influência pela Europa, buscando ressignificar e suprimir as celebrações pagãs como o Samhain. Foi assim que o termo Halloween ganhou vida, vindo da expressão em inglês “All Hallow’s Eve”, que significa “Véspera de Todos os Santos”. Isso porque a comemoração acontece um dia antes do Dia de Todos os Santos, celebrado em 1º de novembro. E dessa forma, a celebração que antes era pagã passou a ser a véspera de uma festa religiosa [2, 3]. No entanto, essa cristianização não eliminou totalmente as raízes místicas e as associações com o mundo sobrenatural. Pelo contrário, com o tempo, a Igreja e a sociedade da Idade Média passaram a associar essas práticas antigas a figuras consideradas malignas: as bruxas. Esse período foi marcado pela terrível e injusta caça às bruxas, em que mulheres que possuíam conhecimentos de medicina natural, parteiras e conhecedoras de ervas — muitas vezes figuras sábias e respeitadas em suas comunidades — foram brutalmente perseguidas, acusadas de pactos demoníacos e, infelizmente, queimadas vivas em fogueiras. Por essa herança histórica tão dolorosa e pela persistência do elo entre o sobrenatural do Samhain e a imagem demoníaca da bruxa, em muitos países — principalmente nos Estados Unidos —, o Halloween é popularmente conhecido como Dia das Bruxas [3]. Mas como sabemos, não são as bruxas as protagonistas do Halloween, e sim uma abóbora esculpida e iluminada, carinhosamente chamada de Jack-o’-Lantern. Sua história vem de uma antiga lenda irlandesa sobre um trapaceiro chamado Stingy Jack [3, 4]. A lenda conta que Jack conseguiu enganar o Diabo algumas vezes. Como resultado, quando morreu, foi recusado tanto no céu quanto no inferno. Condenado a vagar pela escuridão eterna, o Diabo, em um último ato de escárnio, jogou-lhe uma brasa do inferno, que Jack colocou dentro de um nabo oco para iluminar seu caminho solitário [4]. Quando os imigrantes irlandeses levaram essa lenda e o costume de esculpir vegetais para a América do Norte, eles descobriram que as abóboras eram muito mais abundantes, fáceis de esculpir e, convenhamos, muito mais imponentes do que os nabos ou batatas que usavam na Irlanda. Assim, a abóbora rapidamente se tornou o “vegetal” preferido para criar as famosas Jack-o’-Lanterns [2, 4]. Originalmente, essas lanternas eram colocadas nas janelas ou portas das casas para afastar espíritos malignos e outras entidades sobrenaturais na noite de Halloween, servindo como um guardião luminoso contra as ameaças do mundo espiritual [1, 4]. Hoje, ela é o centro das decorações e representa a face divertida e um pouco assustadora da festa. Mas a verdade é que, além da icônica abóbora, são as cores vibrantes e uma galeria de personagens assustadores que, juntos, teceram – e continuam a tecer – a atmosfera misteriosa e inesquecível do Halloween [4]. Autora: Cassandra Trentin. Referências: [2] COSTA, C. M. Halloween do Saci: proposta para o resgate do folclore brasileiro. 2021. Trabalho de Graduação (Tecnologia em Eventos) – Faculdade de Tecnologia de Jundiaí “Deputado Ary Fossen”, Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, Jundiaí, 2021. [3] DIAS, B. V. K.; CABREIRA, R. H. U. A imagem da bruxa: da antiguidade histórica às representações fílmicas contemporâneas. Ilha do Desterro, Florianópolis, v. 72, n. 1, p. 175-196, 2019. [4] NASCIMENTO, M. E. De monstros a metáforas: o papel dos personagens assustadores no Halloween. Revista Transversal, São Paulo, v. 19, n. 1, p. 99-102, jan./jun. 2024.
[1] LEANDRO, F. R. S. Halloween e Día de los Muertos: um passeio multicultural entre abóboras e caveiras no Instituto Federal de Educação do Amazonas – Campus Manacapuru. In: TEIXEIRA, W. B.; HEUFEMANN, F. M. C.; FERREIRA, C. J. (org.). Ensinando Espanhol no Amazonas: experimentando, integrando e resistindo. Manaus: EDUA, 2021. p. 123-127.
Excelente texto, Cassandra! Parabéns.