Ludwig van Beethoven (1770- 1827)

Ludwig van Beethoven (1770- 1827)

   Em meio às revoluções políticas e transformações sociais do século XVIII, emergiu uma figura cuja música transcenderia as barreiras do tempo e da compreensão humana. Longe de ser apenas o gênio atormentado pela surdez ou o sublime instrumentista que todos conhecem, Beethoven foi um homem de complexidades profundas — repleto de paixões, falhas e uma visão de mundo tão singular quanto sua própria arte [1].

   Em 16 de dezembro de 1770, nasceu em Bonn, na Alemanha, Ludwig van Beethoven, filho de Johann van Beethoven, tenor da corte, com sérios problemas de alcoolismo, e de Maria Magdalena Keverich, mulher gentil e paciente que tentava manter o equilíbrio de um lar cercado por conflitos e imerso na pobreza. Johann, percebendo o talento do filho, via nele oportunidade de ascensão financeira. Obcecado em moldá-lo como um novo Mozart, submeteu-o a estudos rigorosos e, por vezes, brutais. Forçado a praticar e estudar música por horas a fio, Beethoven desenvolveu disciplina férrea e profundo amor pela música. Não foi uma escolha livre, mas um destino imposto pelas circunstâncias e alimentado por um talento inato que clamava por expressão [1, 2].

   Sua educação musical formal começou em Bonn, sob a tutela de Christian Gottlob Neefe, seu mentor, que o introduziu às obras de Bach e o ajudou a refinar suas habilidades de composição e execução. No entanto, a fase mais significativa de Beethoven teve início em 1792, quando se mudou para Viena, o efervescente centro musical da Europa. Ali, estudou com mestres como Joseph Haydn, Antonio Salieri e Johann Georg Albrechtsberger, aprimorando suas técnicas de contraponto e composição. Em Viena, Beethoven rapidamente ganhou fama como pianista. Sua música, aliada ao seu talento, passou a desafiar as convenções clássicas da época, capturando a atenção da aristocracia vienense [1, 2].

   Beethoven possuía uma visão de vida que ia muito além das partituras. Era um fervoroso defensor dos ideais do Iluminismo: liberdade, igualdade e fraternidade. Sua admiração por Napoleão Bonaparte foi intensa no início, pois via nele o líder capaz de difundir esses ideais pela Europa. A Sinfonia nº 3, “Eroica”, originalmente dedicada a Napoleão, é um testemunho dessa admiração. No entanto, quando Napoleão se coroou imperador da França, em 1804, Beethoven sentiu-se profundamente traído e rasgou a dedicatória, exclamando:

“Então ele também não é mais do que um homem comum! Agora ele também vai pisotear todos os direitos humanos e ceder apenas à sua ambição; ele vai se colocar acima de todos os outros e se tornar um tirano!”.

    Essa reação evidencia a integridade de Beethoven, que manteve seus princípios inabaláveis mesmo ao deparar-se com a verdadeira face de alguém que, a princípio, tanto admirava [2].

   No que diz respeito à vida íntima e amorosa do compositor, pode-se evocá-la pelo ditado popular “sorte no jogo, azar no amor”; no caso de Beethoven, adapta-se para “sorte na música e azar no amor”. Sua vida afetiva foi marcada por muitos impasses: paixões intensas, em grande parte, não correspondidas. Ele não se casou nem teve filhos; cartas e registros indicam afetos por mulheres de alto escalão, o que tornava inviáveis uniões estáveis devido às barreiras sociais do período. Algumas obras são frequentemente associadas a esse contexto — entre elas, a “Sonata ao Luar” (Sonata quasi una fantasia, Op. 27, n.º 2), dedicada à condessa Giulietta Guicciardi [1, 3].

   Quanto aos defeitos e infortúnios, Beethoven não era imune a eles. Sua mania de mudar constantemente de residência — estima-se que tenha vivido em mais de 60 lugares diferentes em Viena — refletia inquietude profunda e busca incessante por um ambiente compatível com sua sensibilidade. Era conhecido pelo temperamento explosivo, que o levava a conflitos com empregados, amigos e até patronos. Sua desorganização financeira, apesar do sucesso, levou-o muitas vezes à beira da falência [2, 3].

   A esses contratempos somou-se o mais grave: a perda gradual da audição, iniciada por volta dos 27 anos. No começo, eram zumbidos e ruídos; depois, a condição evoluiu para surdez quase total. Tomado pelo desespero e pela angústia diante do quadro, chegou a considerar o suicídio, mas a paixão pela arte falou mais alto e o manteve vivo: “A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos”, confessou Beethoven [2, 3].

   Após a surdez tornar-se quase completa, a vida de Beethoven mudou drasticamente. Ele se isolou socialmente, tornando-se mais recluso e amargo. Apesar do silêncio que o cercava, sua produção musical não diminuiu e, de forma quase miraculosa, ele continuou a compor e até a tocar piano, usando vibrações e a memória sonora para “ouvir” (apoiava uma bengala na caixa de ressonância do instrumento e mordia sua outra extremidade, percebendo as notas por meio das vibrações ósseas). Nesse período, surgiram algumas de suas obras mais grandiosas e inovadoras, como a monumental Nona Sinfonia (“Coral”), com seu famoso “Hino à Alegria”, e os últimos quartetos de cordas, que exploram novas fronteiras harmônicas e estruturais [1, 3].

   Beethoven faleceu em 26 de março de 1827, aos 56 anos. A causa oficial foi cirrose hepática (provavelmente agravada pelo consumo excessivo de álcool) e hidropisia (acúmulo de líquidos no corpo). Seu funeral foi um evento grandioso em Viena, com milhares de pessoas nas ruas — inclusive o poeta Franz Grillparzer escreveu seu discurso fúnebre, chamando-o de ‘o último mestre do canto sublime’ [2, 3]. Embora a morte o tenha silenciado, suas sinfonias continuam a ecoar pelo mundo afora, encantando milhares de pessoas; em cada melodia, Beethoven permanece vivo — lembrado como um dos grandes gênios da música clássica [3].

Autora: Cassandra Trentin.

Referências:

[1] MONTEIRO, E; LUCAS, M. “O espírito de Mozart pelas mãos de Haydn”: 250 anos de Ludwig van Beethoven. Estudos Avançados, São Paulo, v. 34, n. 100, p. 341–368, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-4014.2020.34100.021. Acesso em: 4 out. 2025.

[2] BARÃO, M. I. P. A genialidade de Beethoven: a ética, a arte e a consciência do gênio. 2015. Dissertação (Mestrado em Filosofia — especialização em Estética) – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa, Lisboa, 2015.

[3]LACERDA, A. Beethoven: o primeiro romântico. Porto: [s.n.], 1929.

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