
Exposição marca encerramento da 6ª edição da Residência Artística em Guarapuava
Com quatro anos de existência, residência artística reúne todos que se interessam por arte para trocas, produção e conhecimento sobre o processo artístico
A Residência Artística – Territórios Híbridos realizou, na última quarta-feira (3), a abertura da exposição que marca o encerramento de sua sexta edição. A mostra, instalada no Centro de Artes Iracema Trinco Ribeiro, reúne trabalhos desenvolvidos pelos participantes durante quatro meses de atividades e integra a programação comemorativa dos 36 anos da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). A visitação segue aberta ao público até 26 de junho.
O projeto, que é viabilizado com recursos públicos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e do Governo Federal, conta com uma equipe de sete pessoas, desde direção metodológica até curadoria das artes que serão expostas. André Marchesi é egresso do curso de Arte da Unicentro e trabalha com ação educativa e gamificação dentro da residência. “Quando a gente chega nesse ‘resultado final’, a gente vê um pouco de todo esse esforço e todos esses meses de trabalho que eles ficam empenhados realizando. Seja lidando com materiais ou com as pessoas, porque é um espaço de trabalho coletivo, essas pessoas estão lá conversando umas com as outras e dando ‘pitaco’ no que está acontecendo e isso é muito interessante”, comenta sobre o sentimento de ver seu trabalho se concretizando na exposição. “Aqui a gente chega e vê a culminação de tudo isso, de todas essas influências e interferências que as pessoas têm no processo criativo um dos outros, mas também no processo criativo subjetivo deles mesmos, e isso é muito interessante de se ver”, destaca.
Segundo a coordenadora-geral e produtora executiva da Residência, Eli Zanedim, o diferencial desta edição está na profundidade da entrega dos participantes. Eli ressalta que, embora o programa não ofereça auxílio financeiro direto aos artistas, a dedicação é palpável. “A presença deles sempre parte de um desejo muito genuíno de criar, pesquisar, trocar experiências e desenvolver seus trabalhos. Nesta edição, percebi muitos artistas chegando com ideias que vinham sendo cultivadas há bastante tempo e aproveitando a residência como uma oportunidade para finalmente colocá-las em prática. Ver os artistas desenvolvendo suas pesquisas, compartilhando experiências e criando conexões é algo muito especial”, afirma a coordenadora, destacando que a residência cria encontros e transforma tanto quem participa quanto quem acompanha o processo.
Eli foi uma das pessoas impactadas pela residência artística, porque por mais que sempre gostasse de produzir, foram nos primeiros encontros em 2022 que a arte ocupou de vez seu coração. “A arte sempre fez parte da minha vida. Desde criança eu gostava de desenhar, criar e inventar meus próprios mundos. Mas um momento muito importante foi em 2022, quando participei da residência como artista. Desde aquele primeiro contato, eu já acreditava muito no potencial do programa e na importância que ele tinha para os artistas”. Agora, como coordenadora, ela enxerga inteiramente a importância social do projeto. “Hoje, estar na coordenação e acompanhar tudo isso de perto é algo que me deixa muito feliz. O que mais me encanta é poder conhecer tantas pessoas, acompanhar ideias surgindo, pesquisas acontecendo e ver os trabalhos tomando forma. Acho que estar em contato com tantos processos criativos diferentes acabam nos inspirando também. Isso me dá ainda mais vontade de continuar trabalhando com arte e seguir produzindo como artista”.
As obras são um retrato do que os artistas sentem e vivem, como a obra de Joyce Tesseroli que une bordado livre com registros visuais. “Aqui você vai ver fotografias de mulheres que fazem parte da arte têxtil, e do lado, algumas obras delas. É uma forma de eu homenagear essas mulheres, junto comigo, junto com essa conexão que eu tenho com elas”. Joyce borda desde os oito anos e realiza oficinas para mulheres, e quis colocar na sua arte um pedaço de sua vida. A artista reforça que a obra também foi uma forma de valorizar o trabalho e carinho das bordadeiras, que para ela também são artistas. “Por que não trazer a fotografia delas, trazer as mãos, que fazem, que tecem. Normalmente, quando entregam uma peça, tem muito ali sobre elas, sobre o sentimento, sobre o afeto, sobre a forma de rentabilizar. Então, cada uma tem a sua forma de entregar para o mundo a sua arte”, comenta.
Joyce também fala sobre a importância dos encontros da residência artística, influenciando no resultado de sua arte devido ao contraste na metodologia de criação de cada artista. “Eu me encontrava em cada encontro. Teve coisas que eu coloquei a partir do encontro com os artistas e fui me moldando. A residência artística é um momento muito rico de troca e de aprendizado “, relata.
O artista e arte-educador Márcio Ramos também ressalta que os encontros criam um senso de responsabilidade e disciplina com sua arte, já que toda semana precisavam se encontrar e dar andamento às obras de alguma forma, “A residência tem dia, hora e local marcado, então ela obriga a gente a trabalhar e a desenvolver a nossa criatividade naquele momento. Então foi interessante ter um tempo mais certo para criar e não só um tempo aleatório”.
O artista fala também sobre como a arte permeia todos os âmbitos da sua vida. “Para mim a arte é uma espécie de ritual. Ela é o mais próximo do ritual na minha vida. Eu costumo dizer que ela é o mais próximo que eu tenho de uma religião. Então, como ela é o meu ganha-pão, né? Eu sou professor e depois eu ainda trabalho como artista, ela é financeiramente, criativamente, afetivamente…faz parte da minha vida. Ela é uma vivência concreta minha”, afirma Márcio.
Kamai Silva também é artista, mas estava presente na exposição para visitar os trabalhos dos amigos que participaram da residência. Para ele, estar ali é uma troca, pois os amigos sempre apoiaram sua arte e isso faz parte do apoio no cenário artístico de Guarapuava. O artista também comentou como a arte faz parte da sua vida, “Ser artista, pra mim é tudo. Porque desde fazer uma maquiagem, desde poder expressar o que eu penso, das mais diversas formas, seja desenhando, pintando, cantando, tocando instrumentos, eu não poderia viver sem arte”.
Ao abrir as portas para o público, a exposição cumpre o papel de aproximar a comunidade de Guarapuava dos bastidores da criação artística regional. Os trabalhos expostos refletem o suporte técnico e a infraestrutura oferecidos no Mezanino do Barracão de Artes da Unicentro durante o ciclo prático. O encerramento desta edição consolida o programa como um polo gerador de cultura e abre espaço para o planejamento de futuras chamadas voltadas ao fortalecimento de novos produtores visuais e cênicos na região.
Confira as fotos da abertura do evento no Banco de Imagens da Unicentro.
Por Luiza Lobo, com supervisão de Giovani Ciquelero
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