Projeto coordenado pela Unicentro cria primeira infraestrutura pública de dados em saúde do país

Projeto coordenado pela Unicentro cria primeira infraestrutura pública de dados em saúde do país

 

Iniciativa coloca Guarapuava no centro de um projeto pioneiro que integra informações e fortalece pesquisas


Integrar milhões de informações para desenvolver diagnósticos mais precisos, apoiar pesquisas e fortalecer a saúde pública. Esse é o objetivo do “Sabiá: Saúde Avançada com Big Data e Inteligência Artificial”, projeto coordenado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro).

O coordenador-geral do Genomas Paraná e idealizador do projeto, David Livingstone Alves Figueiredo, explica que a proposta começou a ser desenhada há cerca de três anos, a partir de uma iniciativa voltada ao desenvolvimento da medicina de precisão no estado. “Quando criamos o Vale do Genoma, uma das propostas era justamente desenvolver a medicina de precisão. E a medicina de precisão depende de genômica e de inteligência artificial”, aponta o docente da Unicentro. A ideia evoluiu para uma parceria entre pesquisadores do Paraná e de São Paulo, permitindo que o projeto fosse implantado simultaneamente em Guarapuava e Pompeia (SP).

Segundo o coordenador técnico e professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Robson Parmezan Bonidia, embora o Brasil produza milhões de informações em hospitais, laboratórios e unidades de saúde, esses dados ficam armazenados em sistemas diferentes, que não se comunicam entre si. Isso dificulta tanto o atendimento aos pacientes quanto o desenvolvimento de pesquisas. Como consequência, muitas ferramentas de inteligência artificial utilizadas hoje na medicina são treinadas com dados de outros países, que nem sempre refletem a realidade da população brasileira. “Essa é uma das primeiras infraestruturas públicas de dados em saúde do país, que pretende integrar essas diferentes informações para criar soluções mais eficientes e representativas da população brasileira”, destaca.

No Paraná, a iniciativa conta com financiamento da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) e da Fundação Araucária. Em São Paulo, o apoio é da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

 

Como funciona o Sabiá

Na prática, o projeto está construindo um grande ambiente digital capaz de integrar, de forma segura e anônima, diferentes tipos de informações em saúde, como exames laboratoriais, imagens médicas, prontuários, dados genômicos e até informações coletadas em tempo real por smartwatches utilizados pelos participantes da pesquisa.

Essa estrutura, conhecida como data lake, é um dos principais diferenciais da iniciativa. Segundo Robson, trata-se de uma tecnologia ainda pouco conhecida e muito mais complexa do que um simples banco de dados. “Pouca gente sabe realmente o que é um data lake. Ele vai muito além de reunir informações em um único lugar: permite organizar e integrar grandes volumes de informações provenientes de diferentes sistemas para que elas possam ser utilizadas no desenvolvimento de soluções para a saúde”, explica.

Nesta primeira etapa, o projeto reúne dados da atenção primária à saúde, que somam cerca de 300 mil registros de pacientes, mais de 7 milhões de diagnósticos e 3 milhões de exames. Em uma segunda fase, a base será ampliada com dados hospitalares, além de informações genômicas de mais de 4 mil participantes, que também serão acompanhados por meio de smartwatches.

A infraestrutura computacional já foi adquirida e instalada.

Com esse conjunto de informações, será possível desenvolver soluções que ajudem gestores e profissionais de saúde a compreender melhor o perfil da população, otimizar diagnósticos e tornar o atendimento mais eficiente. “Hoje o paciente faz o mesmo exame várias vezes porque as informações não estão integradas. Com um sistema desse tipo, o médico poderá ter um histórico muito mais completo, reduzindo custos e melhorando toda a jornada do paciente”, ressalta David.

 

Resultados e perspectivas

Apesar de ter apenas seis meses de execução em Guarapuava, o Sabiá já apresenta avanços importantes. Toda a infraestrutura computacional já foi adquirida e instalada. O sistema conta com cerca de 1,2 petabyte (equivalente a mil terabytes) de armazenamento, além de servidores de alto desempenho voltados ao desenvolvimento de modelos de inteligência artificial. Também já estão em desenvolvimento os sistemas que irão monitorar participantes por meio de smartwatches, além da estrutura de segurança responsável por garantir privacidade, rastreabilidade e controle de acesso aos dados.

Entre os primeiros produtos criados estão uma ferramenta de atendimento via WhatsApp, capaz de consultar indicadores de saúde pública (como o número de casos ou quantidade de mortes registradas por dengue na cidade), e uma solução baseada em inteligência artificial para auxiliar na detecção de Alzheimer por meio da voz.

Com início em Guarapuava, a expectativa é que a metodologia seja replicada em outras cidades do Paraná e, futuramente, em todo o país, colocando o projeto na vanguarda da aplicação da inteligência artificial na saúde pública brasileira.


David Livingstone Alves Figueiredo e Robson Parmezan Bonidia lideram a iniciativa que busca integrar dados de saúde para impulsionar a medicina de precisão no Brasil.

 

Por Poliana Kovalyk


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