Pesquisadores da Unicentro investigam drosofilídeos, família de moscas que atua como chave para estudos ambientais

Pesquisadores da Unicentro investigam drosofilídeos, família de moscas que atua como chave para estudos ambientais

 

De 3 a 6 de novembro, o Câmpus Cedeteg sedia o 13º Simpósio de Ecologia, Genética e Evolução de Drosophila


No coração da Mata Atlântica, um pequeno inseto tornou-se essencial para compreender os complexos efeitos das mudanças ambientais. Liderado pelos professores Rogério Pincela Mateus e Luciana Paes de Barros Machado, do Departamento de Ciências Biológicas e do Programa de Pós-Graduação em Biologia Evolutiva (PPGBioEvol) do Câmpus Cedeteg da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), um novo projeto pretende investigar como a biodiversidade e a genética de drosofilídeos, moscas que são afetadas por alterações climáticas e ações humanas. O trabalho recebeu o financiamento da Chamada Universal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e ganha destaque no momento em que a instituição se prepara para sediar, de 3 a 6 de novembro, o 13º Simpósio de Ecologia, Genética e Evolução de Drosophila.

Drosophila ornatifrons Nativa.

Os drosofilídeos são importantes para a ciência, especialmente a espécie Drosophila melanogaster, que serve como modelo de pesquisa há mais de um século. Com apenas dois a três milímetros de comprimento, essa mosquinha frequentemente encontrada rondando frutas maduras nas residências é um organismo ectotérmico, o que a torna altamente sensível a variações de temperatura. Essa característica, aliada ao seu ciclo de vida curto e à facilidade de manejo em laboratório, faz dela um bioindicador importante para estudos ambientais.

O professor Rogério explica que os drosofilídeos se alimentam de microrganismos presentes em vegetais em decomposição, como as frutas na sua casa. Essa interação com a matéria orgânica em putrefação as coloca na base da cadeia alimentar, transferindo energia para outros organismos e desempenhando um papel importante nos serviços ecossistêmicos. 

“A diversidade de espécies dentro da família Drosophilidae é vasta, e muitas são especializadas em diferentes tipos de decomposição, a exemplo de frutos, fungos ou cactos. Essa especificidade revela informações sobre a qualidade e o estado de conservação do ambiente. Algumas espécies neotropicais são bioindicadoras de áreas preservadas, enquanto outras indicam ambientes severamente impactados pela ação humana”, explicou o pesquisador.

A relevância da Drosophila transcende a ecologia. A semelhança genética entre essas moscas e os humanos é notável: cerca de 60% dos genes relacionados a condições como o Alzheimer também estão presentes no inseto. Essa similaridade já rendeu seis prêmios Nobel na área de Medicina e Fisiologia a pesquisas envolvendo drosófilas. No Laboratório de Genética e Evolução (LaGEv) da Unicentro, a espécie é utilizada até mesmo para testar a toxicidade de produtos desenvolvidos em nanotecnologia e de complexos químicos, em uma colaboração interdisciplinar com pesquisadores da Química, Física e Farmácia.

 

Atividade de coleta realizada em 2008 pelos pesquisadores Luciana e Rogério.


Décadas de investigação

O atual projeto aprovado pelo CNPq coroa décadas de investigação. A trajetória de Rogério com as drosófilas começou ainda na graduação, em 1994, e rendeu frutos relevantes, como a identificação precoce da Zaprionus indianus na Mata Atlântica em 1999, uma espécie invasora que mais tarde causaria grandes prejuízos às plantações de figo no interior paulista. Após fundar o LaGEv na Unicentro em 2004, ao lado da professora Luciana, o laboratório consolidou-se como um polo nacional de estudos sobre a ecologia e a evolução de espécies neotropicais.

Intercâmbio do professor Rogério na França, na Universidade Paris-Saclay .

Agora, a equipe propõe um olhar comparativo inédito. O objetivo é revisitar áreas da Mata Atlântica onde levantamentos e análises genéticas de drosofilídeos foram feitos há mais de uma década. Os pesquisadores vão realizar comparação entre a composição da fauna e a variabilidade genética em quatro fragmentos florestais: dois na Floresta Ombrófila Mista, em Guarapuava, e dois na Floresta Estacional Semidecidual, na região de Ribeirão Preto, em São Paulo.

A importância desse mapeamento está na possibilidade de verificar os impactos provocados pelo crescimento urbano e pelo aumento de pelo menos um grau Celsius na temperatura média dessas regiões. Com duração prevista de três anos, a iniciativa envolve estudantes de graduação e pós-graduação, além de pesquisadoras da Unesp e da USP, alinhando a produção científica da Unicentro ao Objetivo 15 de Desenvolvimento Sustentável da ONU, focado na preservação da vida terrestre.

Os avanços e debates gerados por pesquisas dessa magnitude terão um palco próprio em Guarapuava. Pela primeira vez, a Unicentro sediará o Simpósio de Ecologia, Genética e Evolução de Drosophila (SEGED). O encontro é organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia Evolutiva (PPGBioEvol) e pelo LaGEv, reunindo pesquisadores de diversas universidades para trocar conhecimentos essenciais à preservação da biodiversidade. Detalhes sobre a programação e inscrições estão disponíveis aqui.

 

 

Por Scheyla Horst

 

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