Adnilson José da Silva: “Nosso legado é manter o propósito de uma educação de qualidade e inclusiva”

Adnilson José da Silva: “Nosso legado é manter o propósito de uma educação de qualidade e inclusiva”

 

Neste ano, o curso de Pedagogia de Guarapuava celebra seu cinquentenário e o docente discute nesta entrevista alguns aspectos dessa trajetória


Por Scheyla Horst

 

Adnilson José da Silva é professor do Departamento de Pedagogia do Câmpus Santa Cruz da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) há 25 anos. Pedagogo e psicólogo, possui mestrado e doutorado em Educação. Este ano, o curso celebra seu cinquentenário e o docente discute nesta entrevista alguns aspectos dessa trajetória.


minha história com a Unicentro e com o curso de Pedagogia do Câmpus Santa Cruz começou em 1993, quando ingressei como estudante da graduação. Mesmo após concluir o curso, nunca me desliguei da universidade. Iniciei uma especialização em Supervisão Escolar, Planejamento, Ensino e Avaliação e, em determinado momento, abriu um teste seletivo. Entrei como docente colaborador em 2001. No ano seguinte, realizei o concurso público. Naquela época, os concursos admitiam professores especialistas, pois mestres e doutores eram raros. Passei na seleção e, enquanto aguardava a nomeação, dediquei-me ao mestrado, seguido pelo doutorado e pós-doutorado. O tempo passou e hoje somo 25 anos como docente no curso de Pedagogia. Nesse tempo experimentei a docência e a gestão universitária, tendo respondido por funções desde o Departamento de Pedagogia até assessorias e diretorias vinculadas às pró-reitorias de Ensino e de Planejamento.

 

Como sua trajetória profissional se entrelaça com a evolução do curso de Pedagogia do Câmpus Santa Cruz?


Quando comecei a cursar Pedagogia, a graduação ainda era estruturada sob a lei 5.692/1971, uma legislação do período da ditadura militar. Era um curso com características verticalizadas, que previa uma organização escolar e atuação do pedagogo em um ambiente hierarquizado, com foco em supervisão e controle, dentro do espírito tecnicista da época. Quando ingressei, já havíamos passado pela abertura democrática e tínhamos a Constituição Federal de 1988, mas ainda faltava uma lei nacional de educação. O curso e a universidade já possuíam uma característica democrática. A Fafig, inclusive, foi um local de resistência ao regime militar e de cultivo do espírito democrático. Na metade do meu curso, foi promulgada a lei 9.394/1996, a atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. O curso foi remodelado com base nela, tornando-se mais horizontal e atento à diversidade, à inclusão e aos direitos humanos. Comecei a ver uma nova mentalidade florescer, valorizando a educação especial. Minha formação como pedagogo e psicólogo foi norteada pela mesma trajetória do curso. É uma relação dialética positiva entre este trabalhador e seu trabalho.

 

Chegar aos 50 anos do curso de Pedagogia em Guarapuava é um marco de maturidade institucional. Na sua visão, qual é o principal legado e o impacto desse curso na formação docente regional?


Comemorar o 50º aniversário é um momento para refletir. Entendo que nosso principal legado é manter o propósito de uma educação de qualidade, inclusiva e de promoção do acesso ao ensino superior público e gratuito, mesmo diante de adversidades. Resistimos a diversas ondas e propostas teóricas passageiras, mantendo o debate baseado nos clássicos e com uma perspectiva voltada para o aluno trabalhador e suas necessidades reais. Nosso curso é politizado, algo necessário para promover com sinceridade as bandeiras da inclusão e da democratização. Um exemplo recente de nossa força foi o período pandêmico. Enquanto muitos espaços sociais e econômicos estagnaram, nós avançamos. Além das ofertas no Câmpus Santa Cruz e nos câmpus avançados de Chopinzinho, Pitanga e Laranjeiras do Sul, iniciamos a oferta em Coronel Vivida, ofertamos Pedagogia Indígena na Terra Indígena Rio das Cobras e também Pedagogia do Campo, atendendo alunos ligados à vida campesina em regime de alternância. O legado é este: reunir forças para ampliar nosso serviço, independentemente do cenário.

 

“O curso de Pedagogia de Guarapuava terá formado mais de 4 mil profissionais em seus 50 anos de existência. É um número expressivo que demonstra a nossa contribuição para a educação regional”

 

Quais são os principais desafios para formar um(a) pedagogo(a) diante das rápidas transformações tecnológicas?


Pauto-me pela perspectiva de Antonio Gramsci: “pessimismo na análise, otimismo na ação”. O primeiro grande desafio é a desvalorização do magistério, um fenômeno mundial que gera a diminuição da procura pelas licenciaturas. O segundo é a mudança na relação com o conhecimento. Vivemos um tempo de consumo rápido de informações e entretenimento, enquanto o conhecimento sólido exige tempo e esforço, algo que as novas gerações às vezes percebem como penoso. O terceiro ponto é a mudança no status do professor. Muitas vezes, o que se ouve em aplicativos de mensagens é tratado como verdade absoluta, dificultando um debate qualificado e didático. Não há culpados; é uma questão histórica, e precisamos nos posicionar. Apesar disso, sinto satisfação ao ver que nossos alunos ainda saem da universidade com o desejo de mudar o mundo, assim como eu saí muitos anos atrás. Um dos desafios mais atuais é usar a tecnologia, que é fruto do trabalho humano, a nosso favor.

 

O que diferencia o egresso da Pedagogia da Unicentro?


Primeiro, o fato de nossas relações serem presenciais e pessoais. Os professores se colocam diante dos alunos de forma plena e ativa. Com o tempo, desenvolvemos capacidades para perceber a demanda de cada estudante e oferecer um atendimento diferenciado. Contamos com o apoio de órgãos institucionais, como a Pró-Reitoria de Apoio aos Estudantes (Proae), para acolher esses alunos reais e historicamente situados. Além disso, trabalhamos com a ciência e o conhecimento laico. Muitos docentes do departamento são vinculados a grupos nacionais que refletem sobre a salvaguarda da Pedagogia no Brasil. Não formamos para um mercado de trabalho restrito, mas para o mundo do trabalho, que é uma dimensão muito mais ampla. É gratificante ver que as prefeituras parceiras nos câmpus avançados não desistem do curso, pois sabem que esses profissionais fazem a diferença na ponta.

 

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Qual a importância dos projetos desenvolvidos com a comunidade na formação profissional?


A extensão agora é componente curricular, um sinal de maturidade das universidades. Nossa presença nas comunidades cresce porque retornamos com propostas mais adequadas às demandas sociais. No entanto, temos uma preocupação: a resolução atual para a formação de professores determina que as ações de extensão devem ocorrer exclusivamente nas escolas. Defendemos que a educação acontece em muitos outros lugares, como Cras, Creas, Caps e grupos comunitários. A terceira idade, por exemplo, tem demandado muito a presença de pedagogos para entender o mundo contemporâneo e a educação dos jovens. Experimentar essas possibilidades fora do ambiente escolar tem sido muito enriquecedor para docentes e estudantes.

 

Por fim, quais são algumas das atividades planejadas pelo departamento para este ano comemorativo?


O nosso curso possui laboratórios ativos, grupos de estudo consolidados e professores que são referências internacionais. Todos estamos engajados nestas comemorações. Nossa Semana de Pedagogia, no mês de setembro, será voltada ao cinquentenário. Teremos a presença de um nome de destaque da educação nacional para uma retrospectiva de meio século da área no Brasil, abordando os desafios da educação. Faremos também um evento comemorativo para homenagear os(as) professores(as) que atuaram nesses 50 anos. Além disso, planejamos a divulgação de depoimentos de egressos em diferentes mídias e o lançamento de um livro sobre as conquistas e desafios do curso. A partir de um levantamento que realizamos, constatamos que já formamos 3.950 pedagogos(as). Com as turmas de 2026, ano do cinquentenário, vamos ultrapassar a marca de 4 mil profissionais graduados apenas neste curso de Guarapuava, sem contar os egressos do curso do Câmpus de Irati, que ampliam a contribuição da Unicentro para a nossa região e profissão. É um número expressivo que demonstra o alcance da nossa atuação na educação infantil, gestão da educação nas escolas e em outros espaços e educação especial e inclusiva – e nossa contribuição para a educação paranaense.

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