Professora Terezinha Saldanha era chamada carinhosamente, e a seu gosto, de tia Tere, e assim seus alunos, geração após geração, a chamaram. Foi uma professora enérgica e exigente, bem como corajosa ao pesquisar, quando ainda ninguém se aventurava por esses caminhos no interior do Paraná, sobre prostituição. Para suas pesquisas, com a finalidade de recolher depoimentos, foi às casas de tolerância e entrevistou mulheres que a sociedade considerava descartáveis. Escreveu sobre subalternas mulheres e uma história que não deveria ser contada para os padrões da sociedade em que viveu desde a infância. Depois escreveu sobre violência sexual buscando o que não se buscava, estudando quem e o que não se deveria estudar.
Tia Tere tinha inúmeras paixões. Sua família biológica com seus sobrinhos netos que lhe faziam a vida mais leve, as mulheres invisíveis a quem dedicou suas pesquisas e lutas políticas, os alunos e alunas que acolhia em sua casa e que de lá ninguém mais saía sem deixar um pouquinho de si e retornar com o muito dela.
Mas a paixão a que mais dedicou seu tempo foi, sem dúvida, o Arquivo Histórico Municipal e Centro de Documentação em Memória de Guarapuava, os quais receberam merecidamente seu nome, passando a ser nomeado “Centro de Documentação e Memória Professora Doutora Terezinha Saldanha”. Tia Tere viu esse arquivo nascer no espaço de uma sala de aula, ser transferido para um cantinho escuro e abafado ao lado do Departamento de História da Unicentro e finalmente receber o merecido reconhecimento ao ter sua sede própria. De entusiasta passou a Diretora e o Arquivo passou a ser, muito antes da sua nomeação oficial, o Arquivo da Tia Tere. Se buscávamos por ela era certo todos os dias encontrá-la por lá a trabalhar, ensinar, acolher e ter longas conversas quando saia porta afora para degustas mais uma de suas paixões, o cigarro que não abandonava. Entrando no Arquivo vinha ela perguntar: “já assinou o livro de visitas?”, “já viu como os meninos estão organizando esse material?”, “sabe que encontrei um processo criminal do ano tal que fala sobre a história tal?”. Também contava sobre os materiais que tinha comprado para preservar a documentação, muitas vezes com recursos próprios, e como estava ensinando outros a conservar, sobre o congelamento profundo que havia realizado, os fundos que estava recebendo para preservação, os projetos que se sucediam.
Participava de bancas avaliativas que utilizavam fontes documentais do Arquivo e as quais conhecia cada pormenor. Uma vida dedicada a preservar esses pequenos fragmentos da história do Paraná e do Brasil. Resistia à aposentadoria porque queria encontrar o ou a substituta perfeita para entregar a tarefa de conservação. Tere e Arquivo eram sinônimos. O Centro de Documentação era sua grande bandeira.
Era uma professora generosa e apresentava essa generosidade a seus alunos e orientandos de modo muito intenso, sendo incansável no processo de ensino mesmo depois de encontrar seus alunos já formados. Ensinou a estudar mulheres invisíveis, mesmo quando em afastamento para doutorado, sendo subversiva a ele porque amava o que fazia e amava ensinar. Abria as portas de sua casa para realizar orientações, fazendo dela uma continuidade da universidade. Ela puxava os livros da estante de sua biblioteca e dizia “Leia esse, você vai gostar” e assim acompanhou muitos estudantes em suas pesquisas sempre os aconselhando, especialmente quando trabalhavam com
documentação criminal. Nos acompanhava na vida acadêmica e nos conquistava, permanecendo em nossas vidas. Mais que professora e orientadora, tornava-se amiga. Foi independente quando todos buscavam que se enquadrasse. Foi forte, afrontando os estereótipos produzidos socialmente para mulheres. Foi competente e generosa e foi feliz, assim como trouxe felicidade a muitos, mesmo àqueles em cuja face batia a porta da sala quando interrompida numa explicação ou debate. Foi também curiosa e essa curiosidade, depois de doutora em história, a fez iniciar os estudos em direito, pois queria dominar melhor o “juridiquês”. Era incansável, meticulosa, teimosa. Foi e continua
sendo exemplo. Via em seus alunos a superação dela própria e lhes dizia isso com autêntico orgulho. Num universo acadêmico competitivo, marcado por egos, somente mentes generosas e humildes, diante de suas grandezas, se consideram superados, mesmo que não o tenham sido.
Tere nasceu em 09 de fevereiro de 1955. Graduou-se em 1985 ainda na extinta FAFIG. Concluiu seu mestrado em 1998 e seu doutorado em 2008 pela Unesp-Assis. Começou a trabalhar na FAFIG (que depois se tornou Unicentro), ainda em 1985 e em agosto de 2025 completaria 40 anos dedicados à ciência e ensino superior público do Estado do Paraná. Quando faleceu, em 22 de maio de 2025, estava preparando sua
comemoração.
Ofertou dezenas de oficinas de conservação documental, formou centenas de historiadores e historiadoras. Participou ativamente da criação da Rede Paranaense de Arquivos e Centros de Documentação Histórica. Pouco publicou, dadas as muitas horas de trabalho prático exercido, mas o que publicou foi potente e recomendamos sua leitura, especialmente do livro “O comércio do Prazer”.
Dia 22 de maio de 2025 foi de tristeza, muita, mas também de comemorar a vida e a obra dessa mulher. Obra que, parafraseando o que diziam antigos integrantes do famoso IHGB, não se fizeram apenas pela pena. Que sigamos comemorando sua vida e obra e que as instituições de guarda e conservação de documentação histórica tenham sempre uma “Tia Tere” à sua frente. Que sua história e dedicação continuem a inspirar gerações futuras a dar voz aos invisíveis e aos marginalizados e a preservar os fragmentos de suas existências. Foi-se o corpo velho, permaneceram as ideias inovadoras.
Essa é uma pequena homenagem a quem foi gigante. Seu nome merece ser lembrado assim como permitiu que muitos outros nomes assim o fossem, mesmo que subalternos. Ela é parte fundamental da história dessa instituição arquivística e de memória e isso não deve jamais ser esquecido, afinal esse Centro de Documentação só existe porque essa mulher dedicou sua vida a construí-lo. Ele é seu principal legado.
Muita ciência só foi e é possível graças aos seus esforços.

Profa. Dra. Kety Carla de March (UNESPAR – Paranaguá)