IMPLICAÇÕES METODOLÓGICAS PARA A APLICAÇÃO DA REGRA 3-30-300 NO RECIFE (PE) E A PERCEPÇÃO POPULAR E QUALIDADE DE ÁREAS VERDES URBANAS
Francisco de Assis de Lima Junior
Defesa Pública: 29 de maio de 2026.
Banca Examinadora:
Prof. Dr. José Paulo Mendes Guerra Marques Cortez, Instituto Politécnico de Bragança, Primeiro Examinador.
Profª. Dra. Angeline Martini, Universidade Federal do Paraná, Segunda Examinadora.
Prof. Dr. Rogério Bobrowski, Universidade Estadual do Centro-Oeste, Orientador e Presidente da Banca Examinadora
RESUMO:
A crescente urbanização tem intensificado a demanda por áreas verdes de qualidade, tornando a regra 3-30-300 uma referência emergente para o planejamento urbano sustentável. No entanto, sua aplicação em cidades de países em desenvolvimento ainda é baixa, especialmente quando consideradas as dimensões de qualidade ambiental, conforto térmico e justiça socioambiental. No Brasil, a desigualdade na distribuição de infraestrutura verde é estrutural, sendo mais acentuada em bairros periféricos e de baixa renda, onde a vegetação urbana é escassa e de baixa qualidade. Nesse contexto, este estudo avaliou a qualidade das áreas verdes urbanas e a justiça socioambiental de acesso na cidade do Recife (PE), integrando análises espaciais, microclimáticas e perceptivas com base nos critérios da regra 3-30-300. A avaliação espacial foi conduzida a partir de 373 lotes residenciais selecionados por amostragem sistemática proporcional em 94 bairros, com processamento em ambiente SIG (Sistema de Informação Geográfica) por meio de análise de rede viária, extração de cobertura arbórea por classificação supervisionada e cálculo de distâncias até áreas verdes. A análise microclimática foi realizada em 11 parques urbanos com área mínima de 1 hectare, utilizando sensores HOBO MX2301A para coleta simultânea de temperatura do ar e umidade relativa em condições de sol e sombra. A avaliação perceptiva compreendeu 110 questionários aplicados à população frequentadora dos parques, em escala Likert de -2 a 2, abrangendo cinco dimensões (fauna, flora, infraestrutura, social e estética), além de 11 avaliações técnicas padronizadas realizadas pelo pesquisador. As análises estatísticas incluíram, NMDS (Non-metric Multidimensional Scaling), regressão ordinal e agrupamento hierárquico pelo método de Ward. O atendimento pleno à regra 3-30-300 foi de (0,27% dos lotes), com déficits críticos nas diretrizes 30 (9,92%) e 300 (5,36%), enquanto a diretriz de 3 (66,22%) apresentou melhor desempenho relativo. As áreas dos parques com presença de dossel variaram de 17,24% no parque Caiara a 70,99% no parque Trindade, com impactos diretos na regulação térmica, parques mais arborizados, como Jaqueira e Santana, proporcionaram reduções térmicas de até -4,31°C e ganhos de umidade de até 10,46% em relação às áreas de sol, enquanto parques com predomínio de área sem dossel arbóreo, como Caiara e Macaxeira, não cumpriram sua função de amenização climática. A avaliação técnica e a percepção popular divergiram sistematicamente (ANOSIM: R = 0,47; p = 0,001), sendo a dimensão fauna a de maior dissenso (R = 0,70) e a dimensão social a de maior convergência (R = 0,23). O parque da Jaqueira destacou-se com as melhores medianas técnicas, enquanto o parque Caiara registrou os piores desempenhos populares, especialmente nas dimensões social e infraestrutura. A consistência interna do instrumento variou de α = 0,542 (estética popular) a α = 0,877 (infraestrutura popular), indicando maior heterogeneidade nas dimensões subjetivas. Conclui-se que a regra 3-30-300, embora útil como referência de planejamento, necessita de ajustes metodológicos para capturar a complexidade socioespacial e microclimática de cidades tropicais, sendo indispensável a incorporação sistemática da percepção popular e da qualidade ambiental na gestão das áreas verdes urbanas.