
Clube de Ciências articulado pela Unicentro leva saberes indígenas a encontro nacional em Brasília
Projeto integra conhecimentos tradicionais Kaingang à iniciação científica e foi selecionado para o Encontro Nacional Mais Ciência na Escola
Seja durante o ciclo do pinhão ou sob o céu estrelado da Terra Indígena de Marrecas, em Turvo, o conhecimento acadêmico se conecta à ancestralidade. No Clube de Ciências Maker Pỹn fĪfĪ, estudantes do Ensino Médio do Colégio Estadual Indígena Cacique Otávio dos Santos transformam a curiosidade em pesquisa aplicada, preservando os saberes da comunidade. Nesta semana, essa sinergia entre a cultura Kaingang e a inovação levou o grupo à capital federal para o Encontro Nacional Mais Ciência na Escola, que ocorre de 24 a 26 de março.
O nome, que se pronuncia “Pãn fin-fin” e significa cobra-coral na língua Kaingang, simboliza a identidade do clube, que realiza encontros semanais. O projeto é articulado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) por meio da Rede de Clubes de Ciência do programa Paraná Faz Ciência. Durante a programação em Brasília, promovida pelo Governo Federal e pelo CNPq, o Pỹn fĪfĪ teve a oportunidade de demonstrar como o ambiente escolar pode se tornar um polo de experimentação e protagonismo juvenil.
Segundo a articuladora institucional do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação (Napi) Rede de Clubes Paraná Faz Ciência, Marquiana de Freitas Vilas Boas Gomes, docente do Departamento de Geografia do Câmpus Cedeteg, a rede tem o objetivo de promover a educação científica de jovens da Educação Básica na perspectiva da formação cidadã. “Nesse sentido, os projetos ‘maker’ têm como particularidade a busca por envolver ações que contam com experimentações e aprendizagem prática. Então, por meio do ensino e da pesquisa os alunos desenvolvem iniciação científica”, explica.
De acordo com ela, o Clube de Ciências Maker Pỹn fĪfĪ, acompanhado pela Unicentro, tem relevância social e valoriza os saberes indígenas. “Além da produção de conhecimento, também destaca a cultura e reduz desigualdades”, ressalta a professora. A Unicentro acompanha 30 clubes de ciência da rede, sendo que cinco deles são da modalidade maker.

Representantes do Clube de Ciências Maker Pỹn fĪfĪ no Encontro Nacional Mais Ciência na Escola.
Iniciação científica
Sob a coordenação do professor da rede estadual Luan Felipe de Lima, graduado em Ciências Biológicas pela Unicentro, as atividades do Clube de Ciências Maker Pỹn fĪfĪ abrangem reforço em ciências exatas e naturais, além de aulas de STEAM (ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática). Atualmente, as frentes de pesquisa concentram-se no ciclo reprodutivo da Araucaria angustifolia, no estudo de plantas medicinais e na astronomia indígena.
A investigação sobre a araucária, por exemplo, une a observação de campo e o diálogo com os anciãos da comunidade ao rigor do método científico. Conforme explica Luan, como o pinhão é um pilar da economia extrativista local, entender sua produtividade é essencial. O professor relata que o grupo buscou compreender por que a produção oscila entre os anos. Ao consultarem os mais velhos e cruzarem os dados com estudos publicados, descobriram que o estróbilo feminino do pinheiro pode levar até 36 meses para maturar completamente. Essa constatação também permitiu que o grupo passasse a idealizar métodos de colheita mais seguros e eficientes.
“A valorização de uma visão de mundo e de conhecimento científico com um método empírico e de memória ancestral consegue demonstrar a ciência ocorrendo de todas as formas”
Luan Felipe de Lima, coordenador do Clube de Ciências Maker Pỹn fĪfĪ
A saúde entra na pauta por meio das plantas medicinais. O objetivo é registrar a sabedoria oral em vídeos e textos, garantindo que o conhecimento dos antepassados não se apague. “Um efeito muito legal desse estudo é que podemos ver em tempo real a adaptabilidade e evolução da ciência Kaingang. A valorização de uma visão de mundo e de conhecimento científico com um método empírico e de memória ancestral consegue demonstrar a ciência ocorrendo de todas as formas”, comenta o professor.
O projeto se completa com a astronomia indígena, que nasceu de atividades multidisciplinares com o desejo de interpretar as narrativas do céu. Com o auxílio de um telescópio refletor, os alunos realizam observações de eclipses, super luas e planetas. Para Luan, o objetivo é garantir que essas atividades funcionem como uma ponte para a troca de saberes entre as diferentes gerações, por meio da cosmovisão indígena.
“Comigo vieram a Brasília o professor Claudinei Pranh, representante da liderança, e os estudantes Adair e Wesley”, relata Luan. Ao todo, a Rede de Clubes Paraná Faz Ciência possui 40 clubes da modalidade maker em todo o estado, sendo que quatro deles foram selecionados para o evento nacional desta semana, destacando as atividades realizadas e a contribuição dessas iniciativas para o desenvolvimento social.
Por Scheyla Horst
Fotos: Arquivo pessoal
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