
Pesquisa da Unicentro identifica molusco invasor em área próxima a manancial de Guarapuava
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) revelou um registro inédito e de grande relevância para o município de Guarapuava. O doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGG), Nathan Ulian de Souza, publicou em outubro, na Revista Brasileira de Geografia Física, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), um artigo que documenta a presença da espécie Corbicula fluminea, um molusco exótico invasor, no Rio das Pedras.
O trabalho, desenvolvido em coautoria com o egresso do PPGG, Alessandro Kominecki, e orientado pelos professores Leandro Redin Vestena, do Departamento de Geografia, e Ana Lucia Suriani Affonso, do Departamento de Ciências Biológicas, traz um alerta: trata-se do primeiro registro da espécie em uma área próxima às instalações da Sanepar, no Rio das Pedras. O rio é um dos principais mananciais responsáveis pelo abastecimento de água da cidade.
Nativo do leste da Ásia, o Corbicula fluminea é conhecido mundialmente por seu alto potencial de invasão. Trata-se de uma espécie assexuada, o que significa que sua reprodução ocorre sem a necessidade de machos e fêmeas. Essa característica permite que sua população aumente de forma acelerada, favorecendo a colonização de novos ambientes e causando alterações bruscas no ecossistema. Entre os riscos associados estão a competição com espécies nativas, o desequilíbrio ecológico e potenciais prejuízos às estruturas de captação de água.
Segundo o professor Leandro Redin Vestena, o comportamento filtrador do molusco tem potencial para alterar profundamente o ambiente onde se instala. “O Corbicula fluminea pode depositar grandes quantidades de matéria orgânica no fundo do leito, nos sedimentos, o que pode modificar a bioquímica do sedimento e impactar negativamente a sobrevivência de outras espécies nativas. Pode ocasionar alteração na turbidez da água e na composição química, principalmente em função da matéria orgânica depositada”, explica.
Já a professora Ana Lúcia Suriani Affonso destaca que já havia lidado com o molusco antes e que essa parceria entre as áreas de Geografia e Biologia foi fundamental para o andamento do estudo. “Quando me mostraram o molusco, me deparei com esse organismo exótico que eu já havia registrado em pesquisas no Rio Tietê, porque eu fiz o meu mestrado em represas do Rio Tietê e acabei encontrando Corbicula Fluminea por lá. Por meio de contato com especialistas, eu acabei confirmando a identificação de que se tratava do Corbicula Fluminea, essa espécie exótica e invasora”, explica.
De acordo com Nathan, as coletas realizadas mostraram que a presença do molusco na área foi surpreendentemente alta. Ele explica que a espécie praticamente não encontra resistência no ambiente local. “Esse indivíduo não tem um predador. Então, ele pode causar impacto na biodiversidade a partir do momento que ele começa a competir por espaço, por recurso e acaba afetando a cadeia alimentar dos organismos nativos”, apontou o pesquisador.
O doutorando destaca ainda que o molusco foi identificado a cerca de um quilômetro e meio da área de captação de água que abastece Guarapuava, um fato que ele considera especialmente preocupante. Nathan cita estudos internacionais que mostram que, nos Estados Unidos, mais de um bilhão de dólares são gastos anualmente na manutenção de encanamentos afetados por essa mesma espécie. Diante disso, ele alerta que a situação também representa um potencial problema econômico para a Sanepar e para o município. A pesquisa serve como ponto de partida para novos estudos e possíveis medidas de prevenção.
Por Mylena Camargo, com supervisão de Giovani Ciquelero

