{"id":358,"date":"2019-10-20T17:53:37","date_gmt":"2019-10-20T20:53:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/pethistoria\/?p=358"},"modified":"2019-10-20T18:33:23","modified_gmt":"2019-10-20T21:33:23","slug":"projeto-produzindo-historia-2019-por-marina-oliveira-couto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/pethistoria\/2019\/10\/20\/projeto-produzindo-historia-2019-por-marina-oliveira-couto\/","title":{"rendered":"Projeto &#8220;Produzindo Hist\u00f3ria&#8221; 2019 &#8211; Por Marina Oliveira Couto"},"content":{"rendered":"<p>NOSSA (VELHA) CONTEMPORANEIDADE<\/p>\n<p>Viver nessa modernidade l\u00edquida, express\u00e3o utilizada por Zygmunt Bauman (1999), para pensar a fluidez e a rapidez de transforma\u00e7\u00e3o desse cen\u00e1rio, se faz necess\u00e1rio experienciar esse universo.<\/p>\n<p>A esse respeito, no artigo publicado na revista \u00c1gora, em 2016, \u201c<em>Velho, Idoso e Terceira Idade na contemporaneidade<\/em>\u201d,de autoria de Lizete de Souza Rodrigues e Geraldo Antonio Soares, ambos historiadores, tem-se a descri\u00e7\u00e3o da contemporaneidade sob a \u00f3tica da terceira idade, ou seja, como se constitui o processo de envelhecimento no interior desse cotidiano. Assim,o texto \u00e9 constru\u00eddo a partir da perspectiva de rela\u00e7\u00e3o de poder, concep\u00e7\u00e3o que Norbert Elias (1965) apresenta em Os estabelecidos e os outsiders,colocando que os idosos(outsiders) persistem num embate \u00e0 sociedade juvenil (estabelecidos) e seus padr\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse contexto, na interpreta\u00e7\u00e3o dos autores, a velhice est\u00e1 diretamente associada \u201c\u00e0 invalidez e \u00e0 decad\u00eancia dos idosos\u201d (RODRIGUES; SOARES, 2016, p. 7), o que nos permite dizer que esses idosos constituem uma parcela inabilitada de sorte a coloc\u00e1-los na categoria de improdutivos e, portanto, autorizando o seu pr\u00f3prio abandono por parte da parcela \u201cprodutiva\u201d.Portanto, compreender o porqu\u00ea identificamos esse grupo como \u201cinv\u00e1lidos\u201d e como isso se cristaliza no imagin\u00e1rio social \u00e9 um dos primeiros passos para entender as necessidades desse grupo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o que seriam essas representa\u00e7\u00f5es capazes de estigmatizar um grupo de indiv\u00edduos? Os autores escolhem responder essa pergunta por dois te\u00f3ricos Chartiere Bourdieu. O primeiro apresenta uma representa\u00e7\u00e3o social constru\u00edda como mecanismo de imposi\u00e7\u00e3o criado por um grupo,com o intuito de disseminar a sua concep\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de mundo. Essas representa\u00e7\u00f5es s\u00e3o respons\u00e1veis por amparar o reconhecimento de uma identidade social. Bourdieu, no entendimento dos autores, permite uma an\u00e1lise na mesma linha de racioc\u00ednio, a medida que nos aponta o sistema simb\u00f3lico, capaz de hierarquizar as rela\u00e7\u00f5es humanas, respaldando representa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tomada consci\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do imagin\u00e1rio\/representa\u00e7\u00e3o social podemos identificar as mudan\u00e7as nas nomenclaturas usadas para distinguir esse grupo. Mudan\u00e7as essas que ocorrem pelo imagin\u00e1rio &#8211; n\u00e3o concreto e din\u00e2mico. Velhote, idoso eram termos pejorativos, por\u00e9m com sua pr\u00f3pria dualidade hier\u00e1rquica \u2013 quando velhote designava indigentes e idoso era para aqueles com prest\u00edgio social. Transforma-se \u00a0a representa\u00e7\u00e3o, se institui um novo termo. Foi o que ocorreu na Fran\u00e7a dos anos 60, onde uma massiva introdu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o social almejou reformas pol\u00edtico-administrativas para esse grupo. O borbulho ocasionado por essas reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na esfera social fez com que as express\u00f5es velhote\/idoso fossem gradativamente substitu\u00eddas pela express\u00e3o Terceira Idade, caracterizada por um envelhecimento ativo e independente, autogerido e integrado \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>Entretanto, uma legisla\u00e7\u00e3o pode ser mais facilmente mudada do que uma representa\u00e7\u00e3o social coletiva. A tentativa de integra\u00e7\u00e3o desse grupo via legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 um passo importante, mas n\u00e3o se bastou sozinha. Isso fica claro quando analisamos o que h\u00e1 na legisla\u00e7\u00e3o e o que escoa no pensamento coletivo e ao idoso.<\/p>\n<p>Em nosso entendimento, a pessoa no processo de envelhecimento sofre as press\u00f5es da atual sociedade midi\u00e1tica. As correntes comerciais, an\u00fancios nas ruas, jornais, bombardeiam uma imagem juvenil e junto com isso a satisfa\u00e7\u00e3o garantida. S\u00e3o milhares de tratamentos que certificam o rejuvenescimento do corpo.Esse cen\u00e1rio \u00e9 capaz de criar uma culpabilidade individual nos idosos. Guita Gin Debert (1999), chama esse processo de <em>reprivatiza\u00e7\u00e3o da velhice<\/em>, onde o papel do Estado e da sociedade ficam isentos no que se refere \u00e0 velhice e sua imagem,sendo o sujeito culpabilizado pela sua pr\u00f3pria velhice. Essa interpreta\u00e7\u00e3o, somada \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o em prol da integra\u00e7\u00e3o desses idosos, \u00e0 exemplo da disponibiliza\u00e7\u00e3o de tratamentos preferenciais, demonstra a ambiguidade do \u201cser velho\u201d nos dias de hoje.Percebe-se que o processo de envelhecimento leva a constata\u00e7\u00e3o de uma complexa rotula\u00e7\u00e3o \u2013 como observamos na atualidade com o termo Terceira Idade designando a independ\u00eancia dos idosos e a sociedade de supervaloriza\u00e7\u00e3o da juventude na contram\u00e3o caracterizando uma subjetividade de culpa nessas pessoas.<\/p>\n<p>Contudo, os autores mostram, ao longo do texto,que a concep\u00e7\u00e3o desse processo e a forma como ele \u00e9 encarado depende do sujeito social e de suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es, ou seja, h\u00e1 concep\u00e7\u00f5es distintas acerca do que ser \u00e9 idoso, a exemplo do cotidiano do campo e da cidade. S\u00e3o formas de organiza\u00e7\u00e3o social diferentes, implicando diretamente em suas representa\u00e7\u00f5es sociais e modificando algumas caracter\u00edsticas daquelas que constroem a imagem generalizada do \u201cvelho\u201d. Por fim, entende-se que o apresentado processo de envelhecimento \u2013 da imagem midi\u00e1tica depreciativa, passando do amparo legislativo ao sentimento de culpa \u2013 n\u00e3o pode ser considerado algo homog\u00eaneo. Portanto, trata-se de um fen\u00f4meno permeado pela complexidade, o que demanda uma an\u00e1lise mais apurada., levando em considera\u00e7\u00e3o o pr\u00f3prio posicionamento desses sujeitos sociais que tamb\u00e9m \u201c(&#8230;)\u00a0 conseguem se fazer ouvir, provocam sua pr\u00f3pria mudan\u00e7a e consequentemente, a quebra de preconceitos e mitos a seu respeito, viabilizando a abertura de caminhos para o resgate da sua cidadania e a conquista de seu espa\u00e7o na fam\u00edlia e na sociedade.\u201d (RODRIGUES; SOARES 2016, p. 25)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NOSSA (VELHA) CONTEMPORANEIDADE Viver nessa modernidade l\u00edquida, express\u00e3o utilizada por Zygmunt Bauman (1999), para pensar a fluidez e a rapidez de transforma\u00e7\u00e3o desse cen\u00e1rio, se faz necess\u00e1rio experienciar esse universo. 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