{"id":218,"date":"2019-05-13T17:19:25","date_gmt":"2019-05-13T20:19:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/pethistoria\/?p=218"},"modified":"2019-10-20T18:42:52","modified_gmt":"2019-10-20T21:42:52","slug":"projeto-produzindo-historia-2019-por-matheus-sibioni-berti-bastos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/pethistoria\/2019\/05\/13\/projeto-produzindo-historia-2019-por-matheus-sibioni-berti-bastos\/","title":{"rendered":"Projeto &#8220;Produzindo Hist\u00f3ria&#8221; 2019 &#8211; Por Matheus Sibioni Berti Bastos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><strong>A Not\u00edcia da Aboli\u00e7\u00e3o na Cidade de Guarapuava<\/strong><\/p>\n<p>Para iniciarmos esse novo projeto do Grupo PET Hist\u00f3ria \u2013 Unicentro chamado \u201cProduzindo Hist\u00f3ria\u201d n\u00e3o teria data mais apropriada. Hoje faz 131 anos que a Lei \u00c1urea foi assinada, lei essa que libertou os escravos no Brasil. Este pequeno ensaio busca mostrar como essa lei foi recebida no Paran\u00e1, e tamb\u00e9m na cidade de Guarapuava.<\/p>\n<p>No dia 13 de maio de 1888 foi assinada a chamada Lei \u00c1urea pelas m\u00e3os da princesa Isabel, filha do Imperador D. Pedro II, \u00faltimo imperador do Brasil. Isabel ganhou, a partir da\u00ed, uma fama de pessoa bondosa, por ter \u201cpresenteado\u201d os escravos com a liberdade, o que n\u00e3o \u00e9 verdade, pois se deve ter em mente que a aboli\u00e7\u00e3o contou com o papel dos abolicionistas e dos pr\u00f3prios escravos, que depois de tanto lutarem e criarem estrat\u00e9gias para a aboli\u00e7\u00e3o, conseguiram conquistar o almejado, ap\u00f3s o imperador ter feito de tudo para atrasar a liberta\u00e7\u00e3o. Agora a aboli\u00e7\u00e3o estava instaurada, n\u00e3o havia exig\u00eancia de idade ou sexo para conseguir sua liberdade, por\u00e9m, depois de livres, o que tinham os escravos al\u00e9m de sua for\u00e7a de trabalho?<\/p>\n<p>A not\u00edcia falando sobre a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil \u00e9 passada atrav\u00e9s de tel\u00e9grafo para as cidades. Ent\u00e3o, ainda no dia 13 de maio a not\u00edcia chega em Guarapuava e \u00e9 recebida com grande festa como descrita em uma carta enviada ao jornal Gazeta Paranaense e publicada entre os dias 2 de junho e 8 de junho de 1888. A correspond\u00eancia foi enviada no dia 17 do mesmo m\u00eas e n\u00e3o consta quem a escreveu. Nela podemos observar alguns aspectos da festa feita pelo acontecimento \u201cDurante esse dia, centenares de foguetes que partiam de todos os pontos da cidade fendiam os ares e annunciavam ao pobre captivo que lhe havia raiado o sol da liberdade\u201d (GAZETA PARANAENSE, p. 2, 1888) A recep\u00e7\u00e3o da festa aconteceu no Hotel Redemp\u00e7\u00e3o, que era de posse de Belmiro Sebasti\u00e3o de Miranda, agora ex-escravizado e conhecido abolicionista da cidade, a quem o autor da correspond\u00eancia faz muitos elogios ao final da mesma.<\/p>\n<p>A festa continuou pelos dias seguintes at\u00e9 a escrita da carta, sendo somente interrompida pela chuva que ca\u00eda na cidade. Apesar de o autor fazer parecer que todos acataram a decis\u00e3o, ele tamb\u00e9m mostra um caso de um dono de escravo que n\u00e3o libertou seus escravos:<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt\">As pessoas que possuiam escravos, n\u2019esta cidade, teem largado m\u00e3o d\u2019elles; s\u00f3 um teimoso escravagista ainda segura 3 d\u2019esses infelizes que tiveram a dupla desgra\u00e7a de serem escravos e escravos d\u2019esse abutre, que, gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o \u00e9 Brazileiro. Mas n\u00f3s n\u00e3o o perderemos de vista e sem receio de duas amea\u00e7as, com as quaes j\u00e1 estamos habituados, lhe mostraremos se largar\u00e1 ou n\u00e3o a parte dessa torpe heran\u00e7a que nos foi deixada pela velha metr\u00f3pole. (GAZETA PARANAENSE, p. 1, 1888)<\/span><\/p>\n<p>Esse ponto nos mostra como a quest\u00e3o da nacionalidade ficou muito aparente nesse momento. Dava-se gra\u00e7as pelo fato de o cidad\u00e3o n\u00e3o ser brasileiro, por\u00e9m, adiante na mesma carta se agradecia \u00e0 comunidade italiana da cidade pelo apoio \u00e0 causa abolicionista, evidenciando o paradoxo das \u201cnacionalidades\u201d em fun\u00e7\u00e3o das posturas \u00e0 quest\u00e3o da liberta\u00e7\u00e3o dos escravos e considerava agora o Brasil um pa\u00eds civilizado pelo fato de ter libertado seus escravos, nos colocando em sintonia com os pa\u00edses considerados evolu\u00eddos.<\/p>\n<p>A correspond\u00eancia oficial sobre a aboli\u00e7\u00e3o foi enviada no dia 22 de maio de 1888 pelo presidente da prov\u00edncia, Sr. Jos\u00e9 Ces\u00e1rio de Miranda Ribeiro. Cada cidade da prov\u00edncia recebeu uma correspond\u00eancia dessas, que continha muito mais informa\u00e7\u00e3o do que os simples dois par\u00e1grafos da lei assinada no dia 13:<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt\">Transmitindo a V. S\u00aa Lei n\u00ba3353 de 13 do corrente, que declara extinta a escravid\u00e3o no Brazil, bem como o aviso circular do minist\u00e9rio da agricultura da mesma data, recomendando a sua pronta execu\u00e7\u00e3o, conv\u00e9m que vossa senhoria conforme consta do citado artigo, fa\u00e7a sentir a popula\u00e7\u00e3o que, pelo uso \u00fatil da liberdade espera o Governo que os rec\u00e9m libertos se mostrem dignos da condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os a que acabam de ser chamados, e que a liberdade, a troca dos direitos que confere, imp\u00f5e deveres necess\u00e1rios a boa ordem social que a melhor de todas as aplica\u00e7\u00f5es que os novos cidad\u00e3os podem fazer a sua atual condi\u00e7\u00e3o e o emprego da sua atividade, legitimamente retribu\u00edda, ou diretamente pelo trabalho em si mesmo ou por meio de acordos livremente celebrados. (MIRANDA, p. 1. 1888)<\/span><\/p>\n<p>Esse documento que hoje est\u00e1 no Centro de Documenta\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica em Guarapuava mostra-nos que mesmo o escravo trabalhando toda a sua vida de forma for\u00e7ada, agora s\u00f3 seriam \u201cdignos da condi\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3o\u201d, atrav\u00e9s do trabalho. Tamb\u00e9m outro ponto que pode ser questionado \u00e9 sobre os acordos livremente celebrados entre patr\u00e3o e empregado, algo que resultava muitas vezes em trabalhos an\u00e1logos \u00e0 escravid\u00e3o. Esse processo n\u00e3o levou muito em conta o futuro desses escravizados.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o muitos dos agora ex-escravizados continuaram trabalhando para seus ex-donos, em um regime parecido com o anterior, ou at\u00e9 mesmo de maior explora\u00e7\u00e3o, dado ao fato que muitos deles, mesmo exercendo alguma fun\u00e7\u00e3o por toda a sua vida, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o foram considerados sem profiss\u00e3o, algo que mostra a marginaliza\u00e7\u00e3o que essas pessoas sofreram mesmo libertas, alguns chegaram a serem presos por serem considerados vadios. Na comarca de Guarapuava encontramos dois processos crimes de mulheres que nos primeiros anos ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o foram presas sob acusa\u00e7\u00e3o de vadiagem por estarem lavando roupas em um rio, algo que talvez fosse uma das poucas chance de trabalho e sobreviv\u00eancia em um Brasil que legalmente n\u00e3o poderia mais explorar essas pessoas e que, de um jeito ou de outro, foram abandonadas. Outros foram para alguns quilombos pr\u00f3ximos, esses quilombos, que antes foram ref\u00fagio para os escravos fugidos e que tornam-se um local de resist\u00eancia de sua cultura, que neste ponto j\u00e1 estava muito sincretizada com a brasileira.<\/p>\n<p>131 anos da escravid\u00e3o abolida n\u00e3o s\u00e3o quase nada comparados aos 300 anos de escravid\u00e3o que o Brasil teve. \u00c9 importante sempre lembrarmos a participa\u00e7\u00e3o negra nesse evento, que muitas vezes \u00e9 s\u00f3 lembrada pela figura da Princesa Isabel, trazermos esses indiv\u00edduos para a hist\u00f3ria ao debatermos sobre eles.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong><\/p>\n<p>MIRANDA, J. C. Carta \u00e0 comarca de Guarapuava sobre a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. 22 maio 1888. Guarapuava: Cetro de Documenta\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica CEDOC\/G.<\/p>\n<p>Correspond\u00eancia Guarapuava 17 de maio de 1888 Gazeta Paranaense: Orgam do Partido Conservador. Ano XII,\u00b0 123,p.1, 7 jun 1888. Dispon\u00edvel em:\u00a0<a href=\"http:\/\/memoria.bn.br\/DocReader\/242896\/2693\">&lt;http:\/\/memoria.bn.br\/DocReader\/242896\/2693&gt;<\/a>. Acesso em 17 out 2018<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Not\u00edcia da Aboli\u00e7\u00e3o na Cidade de Guarapuava Para iniciarmos esse novo projeto do Grupo PET Hist\u00f3ria \u2013 Unicentro chamado \u201cProduzindo Hist\u00f3ria\u201d n\u00e3o teria data mais apropriada. Hoje faz 131 anos que a Lei \u00c1urea foi assinada, lei essa que libertou os escravos no Brasil. 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