{"id":1222,"date":"2021-10-18T14:39:53","date_gmt":"2021-10-18T17:39:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/pethistoria\/?p=1222"},"modified":"2021-10-18T14:50:46","modified_gmt":"2021-10-18T17:50:46","slug":"projeto-produzindo-historia-2021-por-marina-couto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/pethistoria\/2021\/10\/18\/projeto-produzindo-historia-2021-por-marina-couto\/","title":{"rendered":"Projeto &#8220;Produzindo Hist\u00f3ria&#8221; 2021 por: Marina Couto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><strong>Os dois textos a seguir foram escritos no in\u00edcio da pandemia, quando seu imagin\u00e1rio<\/strong><br \/>\n<strong>ca\u00f3tico n\u00e3o chegaria nem perto do que enfrentamos. A publica\u00e7\u00e3o deles nesse momento<\/strong><br \/>\n<strong>se deu por conta de problemas t\u00e9cnicos enfrentados pelo grupo PET-Hist\u00f3ria da<\/strong><br \/>\n<strong>Unicentro. \u00c9 importante ressaltar que os autores dos textos passaram e evolu\u00edram entre<\/strong><br \/>\n<strong>o momento da escrita e o momento da publica\u00e7\u00e3o, mas que isso n\u00e3o tira a qualidade dos<\/strong><br \/>\n<strong>textos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">O PASSADO, O FUTURO E O PRESENTE<br \/>\nEm maio de 2020 o mundo testemunhou a morte brutal de George Floyd, negro<br \/>\nnorte-americano pela viol\u00eancia policial. Esse epis\u00f3dio desencadeou uma s\u00e9rie de<br \/>\nprotestos que apontavam a constante viol\u00eancia estatal sofrida pelos corpos negros e<br \/>\nreinvindicavam o direito de vida dessa popula\u00e7\u00e3o. Liderado pelo movimento \u201cVidas<br \/>\nNegras Importam\u201d (Black Lives Matter) esses protestos tomaram propor\u00e7\u00f5es imensas e<br \/>\nabriram espa\u00e7os para uma amplia\u00e7\u00e3o do debate sobre o racismo nos EUA, no Brasil e no<br \/>\nmundo.<br \/>\nA heran\u00e7a africana por muito tempo foi ensinada nas escolas somente e<br \/>\nexclusivamente sobre o aspecto da escravid\u00e3o. Uma hist\u00f3ria marcada pelo sofrimento e a<br \/>\nsubmiss\u00e3o dos povos pretos para com a elite colonial brasileira, contudo essa narrativa<br \/>\nvem sendo desconstru\u00edda pelos afrodescendentes que buscam olhar para sua descend\u00eancia<br \/>\ncom alegria e orgulho. Esse resgate cultural muito se fez poss\u00edvel ap\u00f3s as aprova\u00e7\u00f5es de<br \/>\npol\u00edticas afirmativas que abriram portas para mais pessoas pretas dentro das universidades<br \/>\nque consequentemente fizeram da sua viv\u00eancia e de seus corpos objetos de pesquisa e<br \/>\ndiscuss\u00f5es dentro do meio acad\u00eamico. \u00c9 sobre esse resgate que a s\u00e9rie\/document\u00e1rio<br \/>\n\u201cSANKOFA: a \u00c1frica que te habita\u201d aborda.<br \/>\nProduzida e financiada pela FBL Cria\u00e7\u00e3o &amp; Produ\u00e7\u00e3o e Ancine &#8211; Ag\u00eancia<br \/>\nNacional do Cinema, essa obra mostra o projeto do fot\u00f3grafo C\u00e9sar Fraga de retornar a<br \/>\n\u00c1frica em busca dos lugares de mem\u00f3ria dos seus antepassados, procurando similaridades<br \/>\nculturais entre os diversos lugares que o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico transformou. Essa viagem<br \/>\nde retorno foi feita em conjunto com o historiador e pesquisador da cultura afro-brasileira<br \/>\ne di\u00e1spora africana Maur\u00edcio Barros de Castro. A partir de um recorte hist\u00f3rico foi<br \/>\nestabelecido os pa\u00edses africanos que tiveram a presen\u00e7a do tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico portugu\u00eas<br \/>\ne que mais encaminharam negros escravizados para o Brasil at\u00e9 o fim do s\u00e9culo XIX. A<br \/>\nrota da mina, de Angola e de Mo\u00e7ambique que atualmente correspondem a Cabo Verde,<br \/>\nSenegal, Guin\u00e9 Bissau, Gana, Togo, Benin, Nig\u00e9ria, Angola e Mo\u00e7ambique, esse foi o<br \/>\nroteiro do fot\u00f3grafo e do historiador idealizado em 10 epis\u00f3dios de meia hora cada.<br \/>\nEssa viagem \u00e9 apresentada por C\u00e9sar e Maur\u00edcio o mais transparente poss\u00edvel,<br \/>\npor\u00e9m repleta de cores, formas e rostos das v\u00e1rias \u00c1fricas visitadas pelos dois. Cada<br \/>\nobst\u00e1culo vivenciado foi relatado, como por exemplo a pr\u00f3pria dificuldade de encontrar<br \/>\numa ag\u00eancia de viagens que fornecesse o roteiro desenhado por C\u00e9sar, o que fez com que<br \/>\nparte do trajeto fosse feita de carro. Muito dessa dificuldade parte pelo motivo de que<br \/>\nalguns dos pa\u00edses n\u00e3o tinham uma democracia consolidada e como o pr\u00f3prio C\u00e9sar disse,<br \/>\nn\u00e3o fazem parte da \u00c1frica Gourmet. Como a log\u00edstica, outras realidades acabaram por se<br \/>\ntornar pequenas barreiras para a conclus\u00e3o do projeto. A diversidade de l\u00ednguas e dialetos<br \/>\neram outras preocupa\u00e7\u00f5es importantes, no total 3 l\u00ednguas s\u00e3o faladas nos pa\u00edses<br \/>\nidentificados: portugu\u00eas, franc\u00eas e ingl\u00eas, sem contar com os dialetos pr\u00f3prios de cada<br \/>\ngrupo etnico que n\u00e3o partilhavam da mesma l\u00edngua do colonizador.<br \/>\nCompreender esses empecilhos \u00e9 importante a partir do momento que se deseja<br \/>\nadentrar um territ\u00f3rio como forasteiro, e tamb\u00e9m para que a breve passagem desses<br \/>\nindiv\u00edduos seja respeitosa. Ao contr\u00e1rio do que parece esse texto n\u00e3o procura fazer um<br \/>\nresumo dos epis\u00f3dios da s\u00e9rie detalhadamente, como \u00e9 uma obra audiovisual acredito que<br \/>\nnada escrito se equipare a como as imagens selecionadas para a obra atingem o<br \/>\ntelespectador. Pretendo sim destacar pontos e discursos que chamaram minha aten\u00e7\u00e3o ao<br \/>\ndecorrer da s\u00e9rie.<br \/>\nO primeiro \u00e9 algo not\u00e1vel desde do in\u00edcio ao fim, o entusiasmo nas falas de C\u00e9sar<br \/>\ne Maur\u00edcio. Os dois, claramente, tiveram prazer em fazer tal viagem e visitar esses<br \/>\ndiversos pa\u00edses, mesmo que por raz\u00f5es diferentes. Isso faz com que os dez epis\u00f3dios, que<br \/>\nmuito se assemelham com aulas de escola n\u00e3o se tornem algo desgastante, \u00e9 uma nova<br \/>\nforma de expressar conhecimento e transmiti-lo tamb\u00e9m. Outro ponto muito interessante<br \/>\n\u00e9 as narra\u00e7\u00f5es de mitos ao decorrer dos epis\u00f3dios, em cada um dos dez um mito \u00e9 narrado<br \/>\npor Zez\u00e9 Mota com direito a anima\u00e7\u00f5es; s\u00e3o pequenas hist\u00f3rias que explicam origens de<br \/>\nvariadas coisas, como o porqu\u00ea cachorros e gatos n\u00e3o se d\u00e3o bem, ou at\u00e9 mesmo o motivo<br \/>\ndos camale\u00f5es trocarem de cor. Elas s\u00e3o uma das maneiras de se adentrar na vasta cultura<br \/>\nafricana.<br \/>\nOs diversos aspectos religiosos encontrados em cada regi\u00e3o tamb\u00e9m d\u00e3o um show<br \/>\naparte; do islamismo ao vodun, os africanos transformam a religi\u00e3o em outras de arte,<br \/>\nsejam pelos seus artigos sagrados, pelos seus rituais cercados de sacrif\u00edcios, seus<br \/>\ncasamentos cheios de cores e seus funerais dan\u00e7antes. Cada passeio pelo sagrado da<br \/>\n\u00c1frica possibilitou com que narrativas preconceituosas e rasas fossem desmistificadas e<br \/>\nque as pr\u00f3prias religi\u00f5es afro brasileiras como o candombl\u00e9 encontrasse sua ra\u00edz.<br \/>\nPor\u00e9m a mem\u00f3ria mais viva do tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de negros escravizados para<br \/>\na Am\u00e9rica nos pa\u00edses da \u00c1frica s\u00e3o as portas do n\u00e3o retorno. Monumentos gigantes<br \/>\nerguidos onde antes eram localizados os portos dos navios negreiros, normalmente<br \/>\nvoltados ao oceano que representavam as portas pelas quais saiam incont\u00e1veis pessoas<br \/>\npara serem vendidas e tratadas como objetos e quase nunca retornavam, quando n\u00e3o<br \/>\nmorriam durante o percurso da viagem.<br \/>\nMuitos desses monumentos que representavam a tortura e explora\u00e7\u00e3o de corpos<br \/>\nnegros durante o per\u00edodo de escraviza\u00e7\u00e3o foram ressignificados pelos seus<br \/>\ncontempor\u00e2neos. Passam agora a lugares de celebra\u00e7\u00e3o da cultura, da vida como por<br \/>\nexemplo o pelourinho da Bahia, maior s\u00edmbolo da cultura baiana que nos tempos obscuros<br \/>\nda escravid\u00e3o era lugar de a\u00e7oitamentos e torturas de negros que n\u00e3o aceitavam a vida<br \/>\nescrava. O final da s\u00e9rie \u00e9 momento de reflex\u00e3o, de compreens\u00e3o de como a hist\u00f3ria<br \/>\nafricana e afro brasileira vem sendo contada e como ela pode ser abordada sem que a<br \/>\nviol\u00eancia, tortura e explora\u00e7\u00e3o sejam o \u00fanico meio de se representar. Essa s\u00e9rie \u00e9<br \/>\nfundamental para aqueles que buscam sobre seus antepassados e sobre sua hist\u00f3ria. A<br \/>\ndist\u00e2ncia do Brasil e \u00c1frica \u00e9 muito mais geogr\u00e1fica do que ver\u00eddica, a similitude entre<br \/>\nnossos povos \u00e9 quase incontest\u00e1vel e nos mostra toda a \u00c1frica que habita em n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os dois textos a seguir foram escritos no in\u00edcio da pandemia, quando seu imagin\u00e1rio ca\u00f3tico n\u00e3o chegaria nem perto do que enfrentamos. 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