{"id":14164,"date":"2024-06-05T08:14:23","date_gmt":"2024-06-05T11:14:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/petfisica\/?p=14164"},"modified":"2024-06-02T11:18:24","modified_gmt":"2024-06-02T14:18:24","slug":"memorias-do-subsolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/petfisica\/2024\/06\/05\/memorias-do-subsolo\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias do Subsolo"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\"><strong>Autor:<\/strong> Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\"><strong>Ano de publica\u00e7\u00e3o:<\/strong> 2000<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\"><strong>G\u00eanero:<\/strong> Drama; filosofia<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\">\u00a0 \u00a0Creio, caro leitor, que, infelizmente, nunca haver\u00e1 um idioma que expresse com perfei\u00e7\u00e3o a complexidade desta obra singular. Sendo franco, n\u00e3o poder\u00edamos esperar algo diferente. Enquanto escrevia, Dostoi\u00e9vski presenciava os momentos finais de sua esposa, enferma de tuberculose. Lamentavelmente, essa n\u00e3o foi a primeira vez que teve proximidade com a morte. Quando crian\u00e7a, tinha contato frequente com pessoas doentes ao acompanhar o trabalho de seu pai no hospital. Al\u00e9m disso, ainda na inf\u00e2ncia, perdeu seus pais: sua m\u00e3e faleceu quando ele era jovem, e seu pai foi assassinado pouco tempo depois. Anos mais tarde, Dostoi\u00e9vski foi poupado de uma senten\u00e7a de morte minutos antes do pelot\u00e3o atirar; sua execu\u00e7\u00e3o foi revogada \u00e0s custas de seu trabalho for\u00e7ado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\">\u00a0 \u00a0Portanto, n\u00e3o h\u00e1 surpresa do \u00a0\u00a0protagonista da obra, cujo nome nem sequer \u00e9 revelado, carregar tamanha carga emocional e ps\u00edquica. Ali\u00e1s, seu nome n\u00e3o \u00e9 mencionado porque os textos escritos no livro s\u00e3o suas mem\u00f3rias, redigidas para si pr\u00f3prio. E, nas primeiras palavras da sua autobiografia, lemos: \u201cSou um homem doente&#8230;Um homem mau. Um homem desagrad\u00e1vel\u201d. Ao longo da leitura, entendemos que n\u00e3o \u00e9 adversidades como sua pobreza, doen\u00e7a no f\u00edgado, c\u00f3lera ou del\u00edrios que definem sua personalidade, mas a busca pela liberdade o fez assim.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\">\u00a0 \u00a0Em s\u00edntese de seus argumentos: n\u00e3o h\u00e1 o porqu\u00ea um cidad\u00e3o, em s\u00e3 consci\u00eancia, realizar uma a\u00e7\u00e3o que lhe prejudique. Desde que guiado pela raz\u00e3o e pela ci\u00eancia, todos h\u00e3o de saber qual atitude tomar para alcan\u00e7ar alguma vantagem. O custo dessa vantagem \u00e9 ser guiado pelo caminho definido pela ci\u00eancia e raz\u00e3o. A pr\u00f3pria liberdade de escolha \u00e9 perdida.\u00a0 A \u00fanica forma de recuperar essa liberdade, pela qual alguns estariam dispostos a morrer, \u00e9 indo contra as leis da raz\u00e3o: buscando o ruim, a auto deprava\u00e7\u00e3o, o desagrad\u00e1vel, a maldade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\">\u00a0 \u00a0Segundo o Eu l\u00edrico, os infelizes que s\u00e3o dotados de uma consci\u00eancia hipertrofiada, capazes de perceber a liberdade sendo gradualmente perdida, est\u00e3o fadados a sucumbir ante a lei da natureza: a in\u00e9rcia.\u00a0 Ao conhecer os reais motivos de suas vontades, o homem \u00e9 tomado por d\u00favidas, inc\u00f3gnitas, que, no decorrer de uma a\u00e7\u00e3o, o impedem de agir. Assim, diante dessa in\u00e9rcia, resta ao homem apenas a ang\u00fastia. O Eu l\u00edrico alude:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\">\u00a0 \u00a0\u201cO infeliz camundongo j\u00e1 conseguiu acumular, em torno de si, al\u00e9m da torpeza inicial, uma infinidade de outras torpezas, em forma de interroga\u00e7\u00f5es e d\u00favidas [&#8230;] se acumulando ao redor dele certo l\u00edquido repugnante e fat\u00eddico, certa lama f\u00e9tida [&#8230;]. Ali, no seu ign\u00f3bil e f\u00e9tido subsolo, o nosso camundongo, ofendido, machucado, coberto de zombarias, imerge logo num rancor fr\u00edgido, envenenado e, sobretudo sempiterno. \u201d<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\">\u00a0 \u00a0De forma intensa e recorrente, o protagonista \u00e9 engolido por essa imund\u00edcie; vivendo no subsolo. Certa vez, a exemplo, na primeira de suas mem\u00f3rias narradas, um policial arredou sua cadeira, num bar, de tal forma a ignor\u00e1-lo. Embriagado pelo desgosto, rancor e raiva, em sua mente, o protagonista elabora in\u00fameras formas de retribuir (em suas palavras) seu novo inimigo por tamanha humilha\u00e7\u00e3o que sentiu ter sofrido. Ap\u00f3s segui-lo e espion\u00e1-lo por diversos dias, enfim encontra uma forma de realizar sua vingan\u00e7a: n\u00e3o lhe ceder passagem na rua.\u00a0 Por\u00e9m, mergulhado no subsolo, a in\u00e9rcia o capturou por dias, e, num ato de desespero, realizou seu plano no \u00faltimo momento. Ap\u00f3s seu plano ser bem-sucedido, acreditava ter mostrado a todos sua igual import\u00e2ncia social em rela\u00e7\u00e3o ao policial.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\">\u00a0 \u00a0Estar na pobreza, viver na mis\u00e9ria, e trabalhar como um simples empregado, o consumiam at\u00e9 a alma, pois, em sua mente, isso degradava sua moral. N\u00e3o \u00e9 de se surpreender que ao participar da despedida de um colega, que n\u00e3o nutria qualquer empatia, ao tentar se vangloriar de suas faculdades mentais, tenha sentindo-se humilhado quando falaram de sua posi\u00e7\u00e3o social. Embriagado pelo vinho, whisky, raiva e rancor, somado a febre e ins\u00f4nia, alimentou seus del\u00edrios, desejando esbofetear seus amigos, nem que lhe custasse a liberdade. No entanto, no \u00e1pice da loucura e insanidade, quando estava decidido a agredir seu colega que se dirigiu \u00e0 um bordel, encontrou Liza, a prostituta.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\">\u00a0 \u00a0Ap\u00f3s uma noite de amor, paix\u00e3o e del\u00edrios, o personagem se v\u00ea a s\u00f3s com Liza, iluminada pela penumbra de uma vela. Atordoado, embriagado e apaixonado, ele convida Liza a abandonar seu local de trabalho para ficar na casa dele. Ap\u00f3s dias de tormento auto infligido, noites sem dormir e angustiado, no meio de uma discuss\u00e3o fervorosa com seu empregado, o protagonista v\u00ea Liza entrando em sua casa. Perturbado por ser flagrado em meio a c\u00f3lera, por ser visto em sua casa, simples e modesta, por ter sido visto na pobreza, chorou e amaldi\u00e7oado Liza de v\u00ea-lo nessas condi\u00e7\u00f5es, mandando-a embora, em dire\u00e7\u00e3o a sua antiga casa, mesmo ap\u00f3s oferecer seu amor. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\">\u00a0 \u00a0Em meio a tantas crises, surtos<span style=\"text-decoration: line-through\">,<\/span> del\u00edrios, c\u00f3lera, podemos concluir, com certo grau de confian\u00e7a, que o Eu l\u00edrico, o protagonista da obra, \u00e9, na realidade, perturbado. Apesar de enganar-se com a auta percep\u00e7\u00e3o de sua elevada intelig\u00eancia e se considerar um homem de moral, percebemos que, no fundo, trata-se de um homem paranoico que busca, de todas as formas, aten\u00e7\u00e3o, para enfim n\u00e3o ser visto no subsolo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"font-family: 'times new roman', times, serif;font-size: 12pt\">Autor da resenha: Gabriel Vinicius Mufatto.<\/span><\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_facebook][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] Autor: Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski; Ano de publica\u00e7\u00e3o: 2000 G\u00eanero: Drama; filosofia \u00a0 \u00a0Creio, caro leitor, que, infelizmente, nunca haver\u00e1 um idioma que expresse com perfei\u00e7\u00e3o a complexidade desta obra singular. Sendo franco, n\u00e3o poder\u00edamos esperar algo diferente. 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