{"id":984,"date":"2023-03-02T10:11:41","date_gmt":"2023-03-02T13:11:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/?p=984"},"modified":"2023-03-16T09:11:04","modified_gmt":"2023-03-16T12:11:04","slug":"transcender-espacos-transformar-ambientes-transmutar-trans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/2023\/03\/02\/transcender-espacos-transformar-ambientes-transmutar-trans\/","title":{"rendered":"Transcender espa\u00e7os, transformar ambientes, transmutar, trans"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\"><a href=\"https:\/\/antrabrasil.org\/\">Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)<\/a>, em pesquisas do ano de 2021, estima-se que 90% da popula\u00e7\u00e3o trans brasileira tem a prostitui\u00e7\u00e3o como principal fonte de renda e \u00fanica possibilidade de subsist\u00eancia. De acordo com informa\u00e7\u00f5es do Projeto Al\u00e9m do Arco-\u00cdris\/Afro Reggae, do mesmo ano, em m\u00e9dia, as pessoas deste grupo s\u00e3o expulsas de casa aos 13 anos de idade durante o processo de reconhecimento e transi\u00e7\u00e3o. Os \u00edndices do projeto ainda apontam que apenas 0,02% est\u00e3o na universidade, 72% n\u00e3o possui o ensino m\u00e9dio e 56% terminaram o ensino fundamental.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Esses dados s\u00e3o os efeitos causados pela dificuldade que essa comunidade tem para se inserir no mercado formal de trabalho, bem como pela defici\u00eancia na qualifica\u00e7\u00e3o profissional, quest\u00f5es ocasionadas pela exclus\u00e3o social, familiar e escolar. Nesse sentido, as mulheres trans representam a maioria massacrante dos \u00edndices. Segundo o professor de hist\u00f3ria da Unespar e antrop\u00f3logo Jos\u00e9 Ronaldo Fassheber, a necessidade de buscar o sustento \u00e9 uma das maiores motiva\u00e7\u00f5es para essas mulheres adentrarem o meio. <\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">\u201cA prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, mas uma falta dela para as mulheres trans no mercado de trabalho, pois sobra para elas profiss\u00f5es ligadas ao sexo ou salvos casos, a \u00e1rea de est\u00e9tica e beleza. Sendo assim o pr\u00f3prio corpo torna-se um instrumento de trabalho, corpo esse que n\u00e3o \u00e9 aceito pela sociedade\u201d, relata o antrop\u00f3logo.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">O Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Incoerentemente \u00e9 tamb\u00e9m o lugar onde mais se consome pornografia deste grupo. A estimativa segundo a Antra, \u00e9 que a cada 48h uma pessoa trans seja assassinada em terras brasileiras. A idade m\u00e9dia da v\u00edtima \u00e9 de 27 anos. E \u00e9 na prostitui\u00e7\u00e3o que se encontra a maioria esmagadora: 70% dos assassinados foram direcionados \u00e0s profissionais do sexo, sendo destas, 55% aconteceram nas ruas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\"><span style=\"font-weight: 400\">Num cen\u00e1rio como esse a participa\u00e7\u00e3o da comunidade trans em espa\u00e7os pol\u00edticos, sociais e art\u00edsticos torna-se extremamente importante por conta da representatividade que traduz. A ex-bbb <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/ariadnaarantes\/\">Ariadna Arantes<\/a> \u00e9 maquiadora e foi a primeira participante trans na hist\u00f3ria do reality show <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Big Brother Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> entrando na 11\u00aa edi\u00e7\u00e3o do programa. Exatamente 10 anos depois, neste ano de 2020, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/linndaquebrada\/\">Linn da Quebrada<\/a> que \u00e9 cantora, compositora e atriz, comp\u00f5e o elenco do BBB em sua 22\u00aa edi\u00e7\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Segundo Patrycia Fiuza (24), mulher trans, guarapuavana e seguidora destas personalidades, a participa\u00e7\u00e3o destas mulheres na programa\u00e7\u00e3o da Rede Globo \u00e9 de extrema import\u00e2ncia social. <\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">\u201c\u00c9 maravilhoso se enxergar na televis\u00e3o, nas novelas, nos filmes. Quando me entendi trans n\u00e3o havia nada que me representasse, pelo contr\u00e1rio, a normatividade julgava e julga ainda mulheres como eu\u201d, conta Patrycia.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Linn da Quebrada tem tatuado o pronome \u201cela\u201d na testa, sobre a sobrancelha esquerda e relatou na programa\u00e7\u00e3o ao vivo do BBB que realizou a marca para que sua m\u00e3e sempre lembrasse de como devia trat\u00e1-la, j\u00e1 que mesmo apresentando um corpo feminino, as pessoas continuavam a chamando pelos pronomes masculinos. Situa\u00e7\u00f5es que a artista enfrentou tamb\u00e9m com os companheiros de confinamento. <\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Nesse sentido, Patrycia revela: <\/span><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">\u201co que Linn da Quebrada est\u00e1 fazendo no BBB \u00e9 mais uma contribui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do que entretenimento porque mostra algo latente e encoraja as mulheres da minha comunidade\u201d, e relembra: \u201ccomecei a me prostituir com 14 anos de idade porque era nas avenidas de Guarapuava que eu encontrava mulheres iguais a mim\u201d.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Vit\u00f3ria Bucheneki (22), tamb\u00e9m \u00e9 guarapuavana e como influencer digital participa de diversos espa\u00e7os pol\u00edticos e sociais na cidade, podendo falar sobre sua realidade e hist\u00f3ria. Atrav\u00e9s do Pod Cast Agita Guarapuava, ao dar uma entrevista sofreu diversos ataques em suas redes sociais.<\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\"> \u201cTeve muita gente me parabenizando pela entrevista, mas por outro lado diversas amea\u00e7as, inclusive de ex-parceiros. Estamos tentando falar, nos matam, nos calam, mas n\u00e3o desistimos jamais e passo por isso por ser trans pois nunca estive na prostitui\u00e7\u00e3o, sempre trabalhei de forma aut\u00f4noma com as redes sociais\u201d, considera a influencer.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">A dentista Simone Pontes (30), atende no posto de sa\u00fade do bairro Vila Carli em Guarapuava e tem v\u00e1rias pacientes transg\u00eanero. Simone relata que nenhuma possui o documento com nome social, ou seja, s\u00e3o chamadas pelo nome masculino, gerando constrangimento. <\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">\u201cElas chegam no consult\u00f3rio e percebo que a enfermaria tem prazer em nome\u00e1-las pelo nome que est\u00e1 no cart\u00e3o sus, ainda que eu j\u00e1 tenha colocado observa\u00e7\u00f5es no cadastro de cada uma. Os demais pacientes riem, bem como os servidores e isso me entristece, afinal de contas n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil se dirigir \u00e0 uma mulher com os pronomes femininos, \u00e9 natural\u201d. <\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Segundo o antrop\u00f3logo Jos\u00e9 Ronaldo Fassheber o que impede muitas mulheres trans de requerer o direito ao nome social \u00e9 a falta de acesso, de politiza\u00e7\u00e3o, anseio da fam\u00edlia ou ainda casos de n\u00e3o entender como necess\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Como vereadoras, deputadas, ministras, pouco a pouco as mulheres trans por todo mundo ocupam espa\u00e7os na fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica propondo iniciativas de uma governan\u00e7a igualit\u00e1ria e propostas que defendam os direitos da comunidade <a href=\"https:\/\/nosmulheresdaperiferia.com.br\/lgbtqiap-conheca-o-significado-da-sigla\/\">LGBTQIA+<\/a> principalmente no que se refere a letra T da sigla, que representa a popula\u00e7\u00e3o trans e travesti.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Em 2020, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/hilton_erika\/?hl=pt\">\u00c9rica Hilton<\/a> foi a vereadora mais bem votada nas elei\u00e7\u00f5es municipais para a C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo, contabilizando mais de 50 mil votos. \u00c9rica \u00e9 a primeira trans eleita para o mandato, bem como a pioneira em coordenar um parlamento no Brasil, al\u00e9m de presidir a Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara Municipal paulista.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Em Minas Gerais, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/duda_salabert\/\">Duda Salabert<\/a> bateu recorde de votos na C\u00e2mara Municipal de Belo Horizonte contando com mais de 37 mil eleitores em 2020. Duda foi a mulher trans mais votada da hist\u00f3ria do estado, bem como a primeira transexual do Brasil a efetivar o direito de licen\u00e7a-maternidade por 120 dias pelo INSS, al\u00e9m de disputar o cargo de senadora, ainda que n\u00e3o tenha sido eleita, recebeu mais de 351 mil votos em 2018.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Com isso, segundo dados da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), as elei\u00e7\u00f5es municipais tiveram um recorde de candidaturas e pessoas trans eleitas. Foram 294 inscri\u00e7\u00f5es pelo Brasil, destas, 30 candidaturas coletivas, 2 para prefeitura e 1 para vice prefeitura, representando um aumento de 226% em rela\u00e7\u00e3o a 2016, quando foram apenas 89 candidaturas no total. Em 2020, o n\u00famero de pessoas trans eleitas quadriplicou, j\u00e1 que s\u00e3o 34 contra 6 eleitas em 2016. Esse \u00edndice pode ser ainda maior, pois \u00e9 atualizado continuamente pela Antra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">A ga\u00facha Kely Braga (29), \u00e9 militante trans e t\u00eam o sonho de disputar as elei\u00e7\u00f5es municipais da cidade de Pelotas, onde reside, j\u00e1 que participa ativamente dos debates sobre os direitos humanos da comunidade. <\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">\u201cComecei a me prostituir aos 15 anos de idade por n\u00e3o encontrar minha identidade trans em outros lugares, mas ainda que eu estivesse naquela realidade sempre questionei onde estariam minhas irm\u00e3s e o porque n\u00e3o estavam nos cargos mais altos da sociedade, dessa forma passei a conhecer a pol\u00edtica para poder ocupar esses espa\u00e7os. Iniciei atrav\u00e9s de coletivos feministas e hoje oriento outras meninas que passam o que passei, pretendo um dia representa-las na c\u00e2mara\u201d, relata Kely.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">Renata Oliveira (38), professora de matem\u00e1tica da rede p\u00fablica de Ponta Grossa, \u00e9 a primeira mulher trans servidora da escola em que trabalha e em 2021 disputou a elei\u00e7\u00e3o para diretora do col\u00e9gio. <\/span><\/p>\n<blockquote><p><span style=\"font-weight: 400;font-size: 14pt\">\u201cFui bem recebida pelos pais dos alunos quando fiz a campanha, percebi at\u00e9 algum estranhamento, ainda que n\u00e3o tenha conseguido adentrar a diretoria foi uma experi\u00eancia muito bacana para mim e com certeza para a comunidade que perten\u00e7o tamb\u00e9m. N\u00e3o desisti e com certeza na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o estarei novamente me candidatando\u201d, conta a professora.<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acesse a galeria de fotos da reportagem: https:\/\/flic.kr\/s\/aHBqjAu9t7<\/p>\n<p>Grande reportagem (2021) de Aline Koslinski e editado para Colmeia (2022). Fotos: Aline Koslinski.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em pesquisas do ano de 2021, estima-se que 90% da popula\u00e7\u00e3o trans brasileira tem a prostitui\u00e7\u00e3o como principal fonte de renda e \u00fanica possibilidade de subsist\u00eancia. 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