{"id":1540,"date":"2024-06-02T20:18:16","date_gmt":"2024-06-02T23:18:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/?p=1540"},"modified":"2024-06-02T20:18:16","modified_gmt":"2024-06-02T23:18:16","slug":"maos-que-curam-a-fe-que-se-conecta-a-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/2024\/06\/02\/maos-que-curam-a-fe-que-se-conecta-a-natureza\/","title":{"rendered":"M\u00e3os que curam: a f\u00e9 que se conecta a natureza"},"content":{"rendered":"<p><em>Um fotodocument\u00e1rio por: Giovana H\u00f6ssel<\/em><\/p>\n<p>Nascida no dia sete de fevereiro de 1945, no munic\u00edpio de Rebou\u00e7as, interior do Paran\u00e1, Agda de Andrade Cavalheiro, benzedeira e cozedeira, teve contato desde pequena com a pr\u00e1tica das benzeduras. Durante sua inf\u00e2ncia, seu pai, tamb\u00e9m benzedor, era quem recebia com todo carinho as pessoas da comunidade que iam at\u00e9 sua casa em busca de ajuda. Desde cedo, portanto, ela tinha um interesse particular em rela\u00e7\u00e3o ao benzimento, diferente de suas irm\u00e3s. Sempre atenta \u00e0s ora\u00e7\u00f5es e ervas que seu pai usava para cada tipo de benze\u00e7\u00e3o, logo ela aprendeu o que usar para cada tipo de problema e como preparar os medicamentos.<\/p>\n<p>Apesar do contato precoce com a pr\u00e1tica, Agda come\u00e7ou a benzer depois que completou 30 anos, quando permitiu outras benzedeiras mais experientes a ensinarem suas pr\u00e1ticas de cura. Gostando cada vez mais da experi\u00eancia, come\u00e7ou a ir em todos os benzedores que conhecia para aprender novos benzimentos.<\/p>\n<p>Mais tarde, entrou para o Movimento Aprendizes da Sabedoria (MASA), Grupo de benzedeiras e benzedores que tem polos no Brasil inteiro e que se re\u00fane para compartilhar suas experi\u00eancias e trocar informa\u00e7\u00f5es. No grupo, aprendeu ainda mais coisas e decidiu se dedicar totalmente a isso. Lutando contra o preconceito que as benzedeiras sofriam para realizar suas pr\u00e1ticas, ela assumiu a coordena\u00e7\u00e3o do movimento e come\u00e7ou a lutar para que o grupo conseguisse um reconhecimento do em forma de lei, que garantisse a pr\u00e1tica como algo real.<\/p>\n<p>Ao relatar sobre os preconceitos que sofreu, conta um epis\u00f3dio marcante. Durante uma reuni\u00e3o do movimento, um padre invadiu o local onde o encontro estava sendo realizado e expulsou as pessoas presentes com insultos, argumentando que o que estavam fazendo estava em desacordo com as cren\u00e7as religiosas, declarando que n\u00e3o era algo alinhado com os princ\u00edpios divinos. &#8220;O padre queria surrar as Benzedeiras, atropelou do Pavilh\u00e3o da igreja, onde era realizado os encontros&#8221;, disse .<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o momento de incredulidade, o movimento intensificou seus esfor\u00e7os para buscar uma lei que os protegesse. Em 2010, o munic\u00edpio de Rebou\u00e7as reconheceu os conhecimentos tradicionais exercidos pelos Detentores dos Of\u00edcios Tradicionais de sa\u00fade popular, os benzedores, por meio da cria\u00e7\u00e3o da lei n\u00famero 1401\/2010.<\/p>\n<p>Antes de come\u00e7ar a benzer o homem que a esperava, dona Agda foi buscar o seu principal instrumento, seu ros\u00e1rio. O objeto posto junto aos santos em seu altar simboliza a conex\u00e3o entre ela e Deus, que \u00e9 o respons\u00e1vel por curar as pessoas, segundo ela.<\/p>\n<p>&#8220;Quem cura \u00e9 Deus, a gente s\u00f3 faz o pedido e ele d\u00e1 a gra\u00e7a \u00e9 por isso que n\u00e3o podemos cobrar para fazer isso&#8221;.<\/p>\n<p>Do outro lado da pequena cidade, com apenas cerca de 15 mil habitantes, Ana Maria dos Santos compartilha sua rotina cansativa, intercalando sua vida pessoal com o cargo de presidente das benzedeiras do munic\u00edpio. Sempre viajando para palestrar e ensinar outras pessoas sobre sua experi\u00eancia, seu trabalho como dona de casa \u00e9 deixado de lado, pois para ela o movimento \u00e9 mais importante, e somente passando essa tradi\u00e7\u00e3o para a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel manter todo o conhecimento adquirido ao longo de s\u00e9culos ainda vivo.<\/p>\n<p>A benzedeira de 57 anos demonstra preocupa\u00e7\u00e3o quanto ao futuro do movimento no munic\u00edpio. A falta de interesse dos jovens em aprender as pr\u00e1ticas causam uma desesperan\u00e7a na mulher, que \u00e9 a mais jovem participante do grupo na cidade. Buscando entender o problema, ela cita a tecnologia como principal causa para o afastamento dos jovens. &#8220;Precisa fazer cursos pra conseguir aprender tudo que \u00e9 preciso, pra que serve cada rem\u00e9dio, cada ora\u00e7\u00e3o! N\u00f3s precisamos passar credibilidade pras pessoas, se n\u00e3o elas deixam de nos procurar. Mas os jovens n\u00e3o t\u00eam interesse, preferem ficar no celular&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos benzimentos que realiza e dos compromissos como presidente do movimento, Ana Maria tamb\u00e9m tem a fun\u00e7\u00e3o de protetora da natureza. Ela luta pela preserva\u00e7\u00e3o das nascentes de \u00e1gua do munic\u00edpio, principalmente os olhos D&#8217; \u00c1gua do monge S\u00e3o Jo\u00e3o Maria. Essas nascentes s\u00e3o consideradas sagradas pelas benzedeiras. Tradicionalmente, o monge que passou pela regi\u00e3o entre os s\u00e9culos XIX e XX tamb\u00e9m fazia pr\u00e1ticas de cura e utilizava a \u00e1gua das nascentes para benzer. Quando ele seguia seu caminho a \u00e1gua desse local continuava com poder de cura e at\u00e9 os dias atuais as pessoas bebem dessa \u00e1gua que popularmente tem um poder curativo e as benzedeiras a utilizam para fazer seus benzimentos.<\/p>\n<p>No ano de 2017 junto ao movimento, Ana conseguiu a cria\u00e7\u00e3o de um parque ambiental que leva o nome do monge pela Lei n\u00ba 2042\/2017 do munic\u00edpio de Rebou\u00e7as que reconhece o parque ambiental S\u00e3o Jo\u00e3o Maria como \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o. &#8220;Na natureza \u00e9 onde est\u00e1 o maior poder de cura. Se voc\u00ea estiver nervoso ou ansioso, pode caminhar um pouco no mato! Abra\u00e7ar uma \u00e1rvore com f\u00e9 e pedir a Deus por cura. Quando voc\u00ea sair de l\u00e1, j\u00e1 se sentir\u00e1 melhor.&#8221; A benzedeira explica que a mata possui uma energia com um poder calmante. \u00c9 de l\u00e1 que v\u00eam as ervas medicinais que ela utiliza e faz quest\u00e3o de passear sempre que pode no local para renovar suas energias.<\/p>\n<p>Para chamar a aten\u00e7\u00e3o dos jovens para essa heran\u00e7a cultural, Ana comp\u00f5e m\u00fasicas que contam a hist\u00f3ria das benzedeiras e como a natureza faz parte dessa cultura, destacando a import\u00e2ncia de preservar essa tradi\u00e7\u00e3o. &#8220;N\u00f3s trabalhamos para resgatar a cultura de f\u00e9. Antigamente, as pessoas faziam o terno, participavam de prociss\u00f5es e tinham igrejas espalhadas nas comunidades, e as pessoas acreditavam. Agora, as pessoas n\u00e3o pedem nem a ben\u00e7\u00e3o dos pais e av\u00f3s mais&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;A import\u00e2ncia das benzedeiras \u00e9 que a gente faz o bem pras pessoas&#8221; A frase dita pela benzedeira Gl\u00f3ria revela um dos maiores motivos do grupo continuar com a pr\u00e1tica: fazer o bem!<\/p>\n<p>Iniciando aos 25 anos, ela carrega consigo um tesouro cultural. Retratando a pr\u00e1tica da benzedura como algo divino em sua vida, a idosa revela que, enquanto tiver condi\u00e7\u00f5es, continuar\u00e1 a ajudar as pessoas com seu dom. Praticamente todos os dias, ela recebe em sua casa pessoas de outras cidades que a procuram pelos mais diversos motivos. Ela revela que os benzimentos que mais faz s\u00e3o para crian\u00e7as com vermes, casos de susto e costurar lacera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os rem\u00e9dios que oferece a seus pacientes s\u00e3o retirados de sua pr\u00f3pria horta e n\u00e3o t\u00eam custo algum. A senhora afirma que recusa qualquer pagamento em dinheiro e que a \u00fanica coisa que pede em troca \u00e9 que as pessoas rezem por ela, para que ela viva bastante e consiga continuar a benzer.<\/p>\n<p>Apesar de todos os desafios que ainda enfrentam, essas mulheres lutam com todas as suas for\u00e7as para manter suas tradi\u00e7\u00f5es e ajudar uma comunidade onde o acesso a m\u00e9dicos ainda \u00e9 limitado. Hoje, com todas as mudan\u00e7as sociais, as benzedeiras, em sua maioria idosas, continuam a sentir medo de que suas tradi\u00e7\u00f5es se percam em um futuro pr\u00f3ximo. Sem incentivo por parte do governo ou da m\u00eddia, as pr\u00e1ticas est\u00e3o se tornando cada vez mais escassas, sendo quase inexistentes nas grandes cidades, enquanto em munic\u00edpios como Rebou\u00e7as, elas resistem ao m\u00e1ximo que conseguem.<\/p>\n<p>A persist\u00eancia delas \u00e9 admir\u00e1vel, pois elas desempenham um papel vital na sa\u00fade e bem-estar de suas comunidades, fornecendo cuidados quando as op\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas convencionais s\u00e3o limitadas ou n\u00e3o t\u00eam o efeito esperado. O munic\u00edpio de Rebou\u00e7as tem hoje aproximadamente 170 benzedeiras registradas, por\u00e9m Ana Maria acredita que menos de 100 ainda realizam a pr\u00e1tica, n\u00famero que diminuiu muito nos \u00faltimos anos. As causas dessa diminui\u00e7\u00e3o foram a morte de muitas benzedeiras que j\u00e1 eram idosas e tamb\u00e9m o abandono da pr\u00e1tica por causa da sua desvaloriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dona Gl\u00f3ria explica a diferen\u00e7a dos benzedores para os curadores. &#8220;Os curadores geralmente cobram por seus servi\u00e7os, pois utilizam rem\u00e9dios comprados, como pomadas e outros medicamentos. Al\u00e9m disso, utilizam a pr\u00e1tica como profiss\u00e3o e n\u00e3o s\u00e3o amparados pela Lei. J\u00e1 n\u00f3s benzedeiras n\u00e3o devemos cobrar pelos benzimentos, pois quem cura n\u00e3o somos n\u00f3s e sim Deus e por isso a lei fala que n\u00e3o devemos cobrar, ent\u00e3o fazemos isso porque \u00e9 um dom e gostamos&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um fotodocument\u00e1rio por: Giovana H\u00f6ssel Nascida no dia sete de fevereiro de 1945, no munic\u00edpio de Rebou\u00e7as, interior do Paran\u00e1, Agda de Andrade Cavalheiro, benzedeira e cozedeira, teve contato desde pequena com a pr\u00e1tica das benzeduras. Durante sua inf\u00e2ncia, seu pai, tamb\u00e9m benzedor, era quem recebia com todo carinho as pessoas da comunidade que iam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":560,"featured_media":1541,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1540","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1540","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/560"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1540"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1540\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1542,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1540\/revisions\/1542"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1541"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1540"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1540"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1540"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}