{"id":1536,"date":"2024-06-02T20:14:55","date_gmt":"2024-06-02T23:14:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/?p=1536"},"modified":"2024-06-02T20:15:17","modified_gmt":"2024-06-02T23:15:17","slug":"pegadas-nos-ervais-a-luta-pelo-sustento-nas-terras-do-parana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/2024\/06\/02\/pegadas-nos-ervais-a-luta-pelo-sustento-nas-terras-do-parana\/","title":{"rendered":"Pegadas nos Ervais: a luta pelo sustento nas Terras do Paran\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"font-weight: 400\">Um fotodocument\u00e1rio por: Emily Fran\u00e7a\u00a0<\/span><\/em><\/p>\n<p>A colheita da erva-mate nos dias de hoje representa muito mais do que uma atividade tradicional ou uma simples atividade agr\u00edcola. O Paran\u00e1 se destaca como o maior produtor de erva-mate do Brasil, com 87,4% da produ\u00e7\u00e3o nacional, segundo dados de 2021 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Para muitas pessoas que vivem nas regi\u00f5es produtoras, essa \u00e9 a principal forma de trabalho e sua subsist\u00eancia, garantindo seu sustento e o de suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 importante ressaltar que essa realidade da depend\u00eancia da erva-mate, muitas vezes se limita apenas aos dias de colheita, deixando-os dependentes da safra para sobreviver durante o resto do ano. Acontece que a safra ideal, em que \u00e9 poss\u00edvel produzir &#8211; e consequentemente colher mais &#8211; ocorre apenas no inverno.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas dessas regi\u00f5es paranaenses s\u00e3o afetadas diretamente pela sazonalidade da colheita da erva-mate. Durante o per\u00edodo de colheita, as fam\u00edlias se mobilizam para trabalhar nas planta\u00e7\u00f5es, realizando a colheita manual e o processamento da erva. Esse \u00e9 um trabalho \u00e1rduo e exaustivo, que demanda muito esfor\u00e7o f\u00edsico e dedica\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, \u00e9 o per\u00edodo em que haver\u00e1 pagamento pelo servi\u00e7o prestado.<\/p>\n<p>Quando a safra acaba e a colheita se torna escassa, essas fam\u00edlias enfrentam grandes desafios para manter o sustento. A falta de op\u00e7\u00f5es de emprego e a falta de investimentos em outras atividades econ\u00f4micas fazem com que moradores da microrregi\u00e3o de Guarapuava fiquem praticamente sem trabalho e vivam de forma prec\u00e1ria durante o restante do ano. A realidade contribui para a perpetua\u00e7\u00e3o da pobreza na regi\u00e3o, colocando-a entre as mais pobres do cintur\u00e3o da pobreza paranaense. Prova disso \u00e9 que, de acordo com o IBGE, em 2010, 46.3% da popula\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio do Pinh\u00e3o tem rendimento nominal mensal per capita de at\u00e9 1\/2 sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>A remunera\u00e7\u00e3o da colheita \u00e9 pouca e cada centavo que aumenta no pre\u00e7o da arroba \u00e9 uma conquista para os trabalhadores da erva-mate. Ao ser questionado sobre quanto recebiam, o ervateiro Erizor da Silva expressou sua satisfa\u00e7\u00e3o com o aumento recente. &#8220;Aumentou o valor do arroba essa semana! Eu at\u00e9 marquei: subiu 20 centavos. Foi de R$2,50 pra R$2,70&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>A renda das fam\u00edlias ervateiras tamb\u00e9m sofre outros impactos. Varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e problemas agr\u00edcolas impactam diretamente no sustento das fam\u00edlias. Isso porque, se houver uma redu\u00e7\u00e3o na quantidade de chuvas, por exemplo, a produ\u00e7\u00e3o da erva mate pode ser completamente afetada, resultando em rendimentos menores e, consequentemente, menos recursos dispon\u00edveis para essas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Em contrapartida, se houver um aumento dr\u00e1stico na quantidade de chuvas, o problema ser\u00e1 na locomo\u00e7\u00e3o dos ervateiros das suas resid\u00eancias at\u00e9 os ervais, j\u00e1 que a planta fica localizada em mata fechada, com estradas de terra de dif\u00edcil acesso, que pioram com a chuva. &#8220;Na chuva, por causa do barro que faz nas estradas, o caminh\u00e3o do patr\u00e3o n\u00e3o chega nos ervais, ficamos sem ter como trabalhar&#8221;, lamenta Erizor da Silva.<\/p>\n<p>Como explica o t\u00e9cnico de seguran\u00e7a Leandro Fran\u00e7a, al\u00e9m da m\u00e1-remunera\u00e7\u00e3o e dos desafios clim\u00e1ticos, outro grande problema que os ervateiros enfrentam s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de trabalho prec\u00e1rias. &#8220;As situa\u00e7\u00f5es de trabalho dos ervateiros \u00e9 algo que deve ser mudado, isso porque eles n\u00e3o possuem carteira assinada. Sem carteira assinada, n\u00e3o possuem seguro-desemprego, f\u00e9rias e nem t\u00e3o pouco aux\u00edlio doen\u00e7a caso sofram algum acidente de trabalho&#8221;.<\/p>\n<p>Ao ser questionada sobre os perigos da colheita, a ervateira Aline Borges afirma que j\u00e1 se machucou enquanto trabalhava. &#8220;\u00c0s vezes acontece da gente se cortar com o fac\u00e3o, mas a\u00ed n\u00e3o tem o que fazer, ficamos em casa sem poder trabalhar&#8221;.<\/p>\n<p>Sem alternativas de trabalho e sem acesso a outras formas de renda, essas comunidades ficam presas em um ciclo vicioso de pobreza e depend\u00eancia da colheita da erva-mate, e \u00e9 nos ervais onde as hist\u00f3rias dos ervateiros se entrela\u00e7am.<br \/>\nEntre elas est\u00e1 a de Jacira Gon\u00e7alves. Uma mulher corajosa de 45 anos, natural no munic\u00edpio de Pinh\u00e3o e que carrega consigo os la\u00e7os e as lembran\u00e7as da sua terra natal. H\u00e1 vinte anos, Jacira decidiu buscar uma vida melhor, longe dos ervais em que trabalhava, e foi em Santa Catarina que construiu sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ap\u00f3s enfrentar dificuldades no casamento e se divorciar de seu marido, Jacira percebeu que precisava voltar para o Paran\u00e1 para estar mais pr\u00f3xima de seus pais j\u00e1 idosos, que enfrentam problemas de sa\u00fade. Ao retornar, Jacira se deparou com uma realidade desafiadora que conhecia muito bem. A falta de alternativas de trabalho levou Jacira novamente aos ervais em busca de uma renda para sustentar sua fam\u00edlia. &#8220;O dinheiro da erva-mate n\u00e3o \u00e9 muito, mas \u00e9 o trabalho que tem aqui no Pinh\u00e3o. O que me motiva \u00e9 que estou perto dos meus pais que est\u00e3o velhinhos&#8221;,<\/p>\n<p>Jacira e seu namorado que ela conheceu na colheita, fecham um bag de erva-mate que encheram juntos. Esse processo faz parte da colheita da planta, que ap\u00f3s ser colhida \u00e9 armazenada em bags para facilitar o transporte. Apesar das dificuldades e do cansativo trabalho, ela carrega um sorriso no rosto enquanto est\u00e1 quebrando a erva.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Jacira, outra mulher que tamb\u00e9m luta por seu sustento nos campos de erva-mate \u00e9 Rosa Taquara, de 40 anos. Desde crian\u00e7a, aprendeu os passos do trabalho com seu pai e, assim como ele, nunca trabalhou com outra coisa al\u00e9m da colheita. No entanto, o que realmente motiva Rosa a continuar na colheita \u00e9 mudar a vida da filha de 10 anos, quebrando o ciclo de pobreza de gera\u00e7\u00f5es. Seu sonho \u00e9 que a pequena seja veterin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Rosa Taquara com um fac\u00e3o em sua m\u00e3o utilizado para quebrar a erva-mate, perto do seu corpo est\u00e1 um bag que ela est\u00e1 enchendo junto com seu marido Lauro, ele n\u00e3o aparece na foto mas Rosa sorri em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com esse objetivo em mente, Rosa dedica-se \u00e0 colheita da erva-mate. Ela trabalha incansavelmente, conhecendo cada detalhe desse of\u00edcio.<\/p>\n<p>Homens e mulheres dividem os espa\u00e7os e fun\u00e7\u00f5es nos ervais. Lauro Taquara, 50 anos, desempenha um papel fundamental na pesagem do bag de erva-mate. Com a ajuda de uma balan\u00e7a e uma alavanca de madeira, segurada pelos ervateiros homens, ele executa a tarefa de pesagem dos bags de erva. Lauro \u00e9 casado com Rosa Taquara, e eles se conheceram quando ainda eram jovens, trabalhando juntos na colheita da erva-mate.<\/p>\n<p>Lauro lembra-se com gratid\u00e3o dos tempos em que eles receberam o trabalho dos &#8220;Libras&#8221;, a fam\u00edlia respons\u00e1vel pela planta\u00e7\u00e3o de erva-mate. Na \u00e9poca, ele ficou extremamente feliz por ter sido contratado para trabalhar nas terras dos Libras. No entanto, com o passar dos anos, percebeu uma realidade amarga: enquanto os donos dos ervais prosperavam e enriqueceram, os ervateiros continuavam vivendo na pobreza. &#8220;Trabalhei a vida inteira para os Libras, mas hoje eles est\u00e3o ricos e a gente continua pobre&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um fotodocument\u00e1rio por: Emily Fran\u00e7a\u00a0 A colheita da erva-mate nos dias de hoje representa muito mais do que uma atividade tradicional ou uma simples atividade agr\u00edcola. 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