{"id":1127,"date":"2023-03-16T17:31:48","date_gmt":"2023-03-16T20:31:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/?p=1127"},"modified":"2023-03-16T17:48:45","modified_gmt":"2023-03-16T20:48:45","slug":"alem-de-fatos-e-dados-apenas-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/2023\/03\/16\/alem-de-fatos-e-dados-apenas-a-historia\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m de fatos e dados: apenas a hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\">Um homem ouve gritos vindos de um caminh\u00e3o abandonado em San Antonio, no estado americano do Texas. O que n\u00e3o esperava era se deparar com uma cena de terror. Cinquenta e tr\u00eas corpos empilhados. Mexicanos, hondurenhos e guatemaltecos, migrantes ilegais em territ\u00f3rio norte-americano, mortos sufocados. A not\u00edcia que chocou o mundo parece in\u00e9dita, mas n\u00e3o \u00e9. Anos antes, 71 imigrantes do Oriente M\u00e9dio foram encontrados sem vida em um caminh\u00e3o rumo \u00e0 Alemanha, o fato marcou o in\u00edcio da crise dos refugiados na Europa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\">Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), at\u00e9 maio de 2022, 100 milh\u00f5es de pessoas se viram for\u00e7adas a deixar suas terras devido a desastres naturais, pobreza extrema, viol\u00eancia e conflitos que assolam o mundo. Enquanto esses indiv\u00edduos buscam por uma vida melhor, o momento \u00e9 marcado pela ascens\u00e3o do nacionalismo em pa\u00edses desenvolvidos. O sofrimento dos grupos que partem de sua terra para uma vida melhor vem alarmando a comunidade internacional. Em meio a uma crise imigrat\u00f3ria, seja o venezuelano, o afeg\u00e3o, o congol\u00eas ou o ucraniano, todos s\u00e3o apenas pe\u00e7as em um jogo de xadrez pol\u00edtico. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria de duas mulheres. Vidas que recome\u00e7aram em Guarapuava, um lugar muito distante da sua casa. Um conto do presente e do passado de pessoas que partiram de seus pa\u00edses em rumo a um futuro digno, acolhidas em uma cidadezinha no interior do Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\"><span style=\"font-weight: 400\"><strong>Venezuela, 1979<\/strong>. Assim que abre seus olhos, uma garota se depara com um c\u00e9u azul. \u00c9 mais um dia em T\u00e1chira, um estado no oeste da na\u00e7\u00e3o sul-americano. A pequena <\/span><b>Dimara Galue<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> de Villegas desejava nunca crescer, queria que viagens com sua fam\u00edlia nunca tivessem fim, seja aquelas em que bebiam chocolate quente nas frias montanhas de El Zumbador, ou naquelas que passeavam pelas praias ao norte do pa\u00eds.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\">Os aromas adocicados e florais da Venezuela, as m\u00fasicas animadas, as belas paisagens naturais e os costumes. Dimara amava aquilo. Amava os p\u00e3ezinhos feitos de milho &#8211; as arepas, e esperava ansiosamente para comer as hallacas e o hervido do res, uma massa de fub\u00e1 recheada envolvida por folhas de bananeira e um cozido de carnes e legumes, respectivamente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\">Filha de um casal apaixonado, a mo\u00e7a de olhos castanhos, tinha oito irm\u00e3os. Seu pai era um homem trabalhador, dono de uma empresa que levava o leite das fazendas para as f\u00e1bricas de processamento. A garota levava uma boa vida. Quando as festas de fim de ano chegavam, sua fam\u00edlia recebia os parentes de outras cidades. Era naquela casa em que morava, que passava todos os anos novos, compartilhando momentos com sua grande fam\u00edlia, esperando que os sorrisos fossem eternos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\"><strong>Venezuela, 1999<\/strong>. O pa\u00eds rico das minas de petr\u00f3leo quebrou. Uma crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica na na\u00e7\u00e3o hispano-americano abalou uma s\u00e9rie de quest\u00f5es internacionais. O governo que n\u00e3o investiu em outros recursos econ\u00f4micos, n\u00e3o esperava que, do dia para a noite, o pre\u00e7o do petr\u00f3leo despencasse e rapidamente uma crise humanit\u00e1ria se instaurasse no pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\">Independente de tudo, Dimara, agora adulta, ainda tinha esperan\u00e7a de que sua Venezuela superasse a crise, acreditou ano ap\u00f3s ano, mas a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 piorava. A mulher que trabalhava em um banco viu seu filho mais velho ser preso devido \u00e0 sua atividade pol\u00edtica. Foi nesse momento que decidiu sair da Venezuela, aquele lugar que marcou sua pele, agora teria que deix\u00e1-lo. Com uma mala s\u00f3, Dimara, seu marido e seus quatro filhos partiram em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Col\u00f4mbia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\"><strong>Afeganist\u00e3o, 1998<\/strong>. Na prov\u00edncia de Maidan Wardak, dois pais brincam com sua filha, um beb\u00ea que mal tinha um ano. Em meio a domina\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds pelo grupo fundamentalista\u00a0 isl\u00e2mico, o talib\u00e3, um jardineiro e uma cozinheira de uma ag\u00eancia do governo lutam para dar para seus tr\u00eas filhos uma vida melhor. Pouco tempo depois de Mina Mizard nascer, os Estados Unidos invadiram o pa\u00eds, era o in\u00edcio de uma das mais longas guerras civis que o mundo j\u00e1 presenciou. Apesar dos pesares, era ali que a hist\u00f3ria da fam\u00edlia seria escrita. Aquela beb\u00ea, a qual se chamava Mina, cresceu com uma vida simples, morava em uma pequena casa com seus pais e seus irm\u00e3os. E por mais que a educa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds fosse sucateada, al\u00e9m do dif\u00edcil acesso, a garota que tinha grandes sonhos, amava<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\">estudar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\">O pa\u00eds de um povo gentil e hospitaleiro, na\u00e7\u00e3o das altas colinas do sul da \u00c1sia e do Buzkashi, um dos esportes mais praticados no territ\u00f3rio, surpreendia os pr\u00f3prios locais. \u00c0 medida que Mina crescia, se encantava cada vez mais. As milhares de receitas de Kabuli Pulao, iguaria do pa\u00eds que consiste em arroz com carne de cordeiro e uvas-passas, um prato que todos no pa\u00eds sabem fazer e cada fam\u00edlia afeg\u00e3 tem seu pr\u00f3prio modo de preparo. A garota passava horas e horas esperando para comer Aushak, a iguaria celebrativa afeg\u00e3, um bolinho recheado de molho de tomate e cebolinha ou alho-por\u00f3. Aquela garota com um grande cora\u00e7\u00e3o cresceu em meio a uma guerra civil, mas os parques verdes nos fins de semana, o sol radiante e o c\u00e9u azul, os anivers\u00e1rios com seus amigos e as brigas bobas com seu irm\u00e3o tiravam dela sorrisos genu\u00ednos. A vida era boa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\"><strong>Afeganist\u00e3o, 2021<\/strong>. Vinte anos depois do in\u00edcio de uma guerra civil, o mundo se chocava novamente, o Talib\u00e3 reassumia a lideran\u00e7a do pa\u00eds. Foi pouco tempo at\u00e9 o caos ser instalado na regi\u00e3o. Os quatro cantos da terra presenciavam imagens assustadoras, afeg\u00e3os se pendurando em avi\u00f5es em movimento e os cidad\u00e3os desesperados para fugir de um regime que oprime, machuca e mata. As possibilidades futuras revelavam um sentimento de terror. Mina pensou em seu pa\u00eds, pensou em seu povo. Seu cora\u00e7\u00e3o estava assustado, a vida que um dia levou estava perto de ser apenas mais uma lembran\u00e7a. O medo tomou conta de sua fam\u00edlia, n\u00e3o haveria outra escolha. Era hora de partir.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\"><strong>Brasil, 2023<\/strong>. Dimara olha pela janela, o c\u00e9u tamb\u00e9m \u00e9 azul, assim como o de T\u00e1chira. H\u00e1 tr\u00eas anos, deixou a Col\u00f4mbia e foi acolhida no Brasil. A l\u00edngua se tornou uma barreira, mas a venezuelana de 43 anos se reergueu em Guarapuava, conheceu pessoas maravilhosas que a ajudaram nesse processo e hoje \u00e9 dona de uma empresa de delivery de comida asi\u00e1tica na cidade. Ainda que longe, as lembran\u00e7as de seu pa\u00eds aquecem seu cora\u00e7\u00e3o. \u201cMinha Venezuela era uma terra m\u00e1gica onde t\u00ednhamos tudo\u201d, lembra Dimara.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\"><span style=\"font-weight: 400\">Mina pensa na sua nova casa. Tudo \u00e9 diferente, a l\u00edngua, o povo, a cultura. Nove meses atr\u00e1s, a garota de 24 anos chegou no Brasil e, apesar das dificuldades, vem se sentindo acolhida no pa\u00eds latino-americano. Olhando para tr\u00e1s, Mina se lembra do Afeganist\u00e3o, s\u00e3o mais de 13 mil quil\u00f4metros at\u00e9 seu pa\u00eds natal, lembran\u00e7as de uma vida feliz que ela imaginava ser eterna viajam entre seus pensamentos. Em Guarapuava, ela recome\u00e7ou, por\u00e9m, seja onde for sua nova casa, o sangue que corre em suas veias sempre ser\u00e1 afeg\u00e3o. \u201cO Afeganist\u00e3o era um belo pa\u00eds onde as pessoas viviam no territ\u00f3rio com diferentes culturas e idiomas.\u201d, diz a nova residente do Paran\u00e1, <\/span><b>Mina Mizard<\/b><span style=\"font-weight: 400\">.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-weight: 400;font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\">O drama que assusta tamb\u00e9m \u00e9 um recome\u00e7o. S\u00e3o duas hist\u00f3rias. Mulheres que n\u00e3o tinham nada em comum, exceto que n\u00e3o tiveram medo de recome\u00e7ar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 14pt\"><b>Dimara Galue de Villegas <\/b><span style=\"font-weight: 400\">e <\/span><b>Mina Mizard,<\/b><span style=\"font-weight: 400\"> os milhares de quil\u00f4metros n\u00e3o foram capazes de faz\u00ea-las desistir, ent\u00e3o elas lutaram. Lutaram por suas vidas, lutaram por seu povo.<\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt;font-family: georgia, palatino, serif\">Curtiu o texto? O Colmeia tem uma s\u00e9rie de reportagens sobre a vida do imigrante no Paran\u00e1, clique aqui para ouvir<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/drive\/folders\/165KEmx9_DtFWHHyIvNBaQr65vTiKQpuF\"> I<strong>migrantes: Sonhadores do Mundo<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 12pt\">Texto:\u00a0 Heloisa Zolinger Polak<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: georgia, palatino, serif;font-size: 12pt\">Edi\u00e7\u00e3o: Millena Ricardo<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um homem ouve gritos vindos de um caminh\u00e3o abandonado em San Antonio, no estado americano do Texas. O que n\u00e3o esperava era se deparar com uma cena de terror. Cinquenta e tr\u00eas corpos empilhados. Mexicanos, hondurenhos e guatemaltecos, migrantes ilegais em territ\u00f3rio norte-americano, mortos sufocados. 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