{"id":1014,"date":"2023-02-09T11:08:38","date_gmt":"2023-02-09T14:08:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/?p=1014"},"modified":"2023-03-16T17:30:50","modified_gmt":"2023-03-16T20:30:50","slug":"atencao-identidade-artistica-nacional-em-crise-acao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/2023\/02\/09\/atencao-identidade-artistica-nacional-em-crise-acao\/","title":{"rendered":"Aten\u00e7\u00e3o: identidade art\u00edstica nacional em crise. A\u00e7\u00e3o!"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 14pt\"><em>A desvaloriza\u00e7\u00e3o do cinema nacional amea\u00e7a a economia e o patrim\u00f4nio cultural do Brasil.<\/em><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Em 1964, o p\u00fablico assistia uma atriz, desesperada, ser escalada por uma tar\u00e2ntula.\u00a0 Chegava aos cinemas brasileiros \u201cA Meia Noite Levarei sua Alma\u201d. Era a estreia de Z\u00e9 do Caix\u00e3o.\u00a0 O primeiro sucesso de Jos\u00e9 Mojica Marins \u00e9 um marco, n\u00e3o s\u00f3 do g\u00eanero de terror, mas de toda a dramaturgia brasileira.\u00a0 <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Autodidata, o diretor, ator e roteirista \u00e9 ainda um dos maiores expoentes do cinema nacional. Seus filmes, macabros e soturnos, eram frutos de uma mente inventiva, dada a t\u00e9cnicas pouco ortodoxas.\u00a0 Como deixar amarrada \u00e0 cama a personagem, sem avisar a int\u00e9rprete da participa\u00e7\u00e3o do aracnoideo. Afinal, poderia tamanho medo ser replicado de outra maneira?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Ao longo da carreira, Mojica dirigiu e atuou em v\u00e1rios projetos. Por vezes reprisando sua mais c\u00e9lebre personagem, o coveiro em busca da parceira ideal. At\u00e9 2020, ano de sua morte,\u00a0 havia contabilizado mais de 40 entradas em sua filmografia.\u00a0 Pol\u00eamico e carism\u00e1tico, o diretor paulista \u00e9 retrato fidedigno do cinema brasileiro. Esnobado pelos programas de apoio cultural da \u00e9poca, Embrafilmes, migrou para o cinema popular. Para sobreviver, abandonou a capa e os rituais sat\u00e2nicos pela nudez e erotismo das pornochanchadas. Ainda convencido que poderia contribuir para a arte, voltou-se para a pornografia. Em \u201c24 Horas de Sexo explicito\u201d gravou a primeira cena de bestialismo do cinema brasileiro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Ainda assim, se n\u00e3o fosse o apoio de leais admiradores, Mojica poderia ter ca\u00eddo no total anonimato. Este \u00e9 o cruel destino de in\u00fameros cineastas brasileiros: esquecidos no tempo. Com sorte, alguns ainda conseguem se preservar na miragem de hist\u00f3rias e personagens, mas sem tra\u00e7os dos artistas que eram. Z\u00e9 do Caix\u00e3o sem Mojica. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Hoje, o cinema \u00e9 uma ind\u00fastria bilion\u00e1ria, com bilheterias compar\u00e1veis ao PIB de pequenos pa\u00edses. Pela densa popula\u00e7\u00e3o, o Brasil \u00e9 um mercado consumidor significativo, atraindo at\u00e9 mesmo eventos de promo\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, como as <em>ComicCon.<\/em> Entretanto, o cinema nacional n\u00e3o acompanha o acelerado desempenho das produ\u00e7\u00f5es internacionais, nem mesmo no pr\u00f3prio pa\u00eds. Uma desvaloriza\u00e7\u00e3o que impacta tanto econ\u00f4mica quanto culturalmente o Brasil.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">\u00c9 dif\u00edcil imaginar que os irm\u00e3os Lumi\u00e8re tivessem compreens\u00e3o das mudan\u00e7as que a introdu\u00e7\u00e3o do cinemat\u00f3grafo teria na sociedade contempor\u00e2nea, todos os desdobramentos pol\u00edticos e econ\u00f4micos da s\u00e9tima arte. Filmes, desde ent\u00e3o, serviram v\u00e1rios distintos prop\u00f3sitos \u2014 por interesse monet\u00e1rio ou ideol\u00f3gico \u2014 de instru\u00e7\u00f5es educativas ou hist\u00f3ricas \u00e0s propagandas sovi\u00e9ticas e de Goebbels. Ainda assim, a finalidade principal do cinema continua a ser o entretenimento, com demais aprofundamentos art\u00edsticos oriundos do interesse de est\u00fadios e diretores. Acima de tudo, \u00e9 o alicerce de toda uma in\u00e9dita dimens\u00e3o da ind\u00fastria: a produ\u00e7\u00e3o do escapismo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Mais de um s\u00e9culo depois, a singela audi\u00eancia assustada dos Lumi\u00e8re \u2014 que pulava de seus assentos na imin\u00eancia de um trem projetado na parede \u2014 deu lugar a uma clientela fervorosa e o <em>\u00c9den-Th\u00e9\u00e2tre<\/em> de Paris foi substitu\u00eddo por in\u00fameras salas de cinema ao redor do mundo. O entretenimento, agora, \u00e9 t\u00e3o valioso quanto commodities ou ind\u00fastrias de base. Evid\u00eancias constam que a primeira exibi\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica no Brasil ocorreu em 1896, um ano ap\u00f3s a inven\u00e7\u00e3o do equipamento, no Rio de Janeiro. Nos anos seguintes, salas foram inauguradas em metr\u00f3poles do sudeste. Era uma \u00e9poca de produ\u00e7\u00f5es nacionais de baixo n\u00edvel t\u00e9cnico e pouco or\u00e7amento, ainda assim, exibi\u00e7\u00f5es se tornaram parte da vida noturna local.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Foi a partir de 1910 que o Brasil come\u00e7ou a receber um fluxo de obras norte-americanas. As pol\u00edticas de aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos nos anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial vieram a car\u00e1ter das fantasias Hollywoodianas. Isso n\u00e3o s\u00f3 representou o sufocamento do cinema nacional, como vinculou o Brasil em uma depend\u00eancia de entretenimento similar \u00e0 necessidade de capital estrangeiro da \u00e9poca. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">D\u00e9cadas depois, a intr\u00ednseca conex\u00e3o com Hollywood montou na cabe\u00e7a do brasileiro, como uma conven\u00e7\u00e3o social, o estigma das produ\u00e7\u00f5es nacionais. Simultaneamente, o pa\u00eds se sujeitou aos caprichos e censuras estrangeiras. Com a ascens\u00e3o do Macarthismo em 1950, movimento de extrema persegui\u00e7\u00e3o aos comunistas dentro dos Estados Unidos, houve maior exerc\u00edcio do C\u00f3digo Hays, censura.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Esse r\u00edgido conjunto de normas aos grandes est\u00fadios ditava quais elementos eram condizentes com as produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas. Condutas consideradas subversivas eram pass\u00edveis de acusa\u00e7\u00e3o de trai\u00e7\u00e3o. Entre as infra\u00e7\u00f5es, referenciar casais inter-raciais. J\u00e1 naquela \u00e9poca, o porcentual demogr\u00e1fico de negros e pardos era muito expressivo no Brasil. Comprometer-se com a ind\u00fastria do entretenimento, ent\u00e3o, foi acatar com a pol\u00edtica segregadora dentro da grande tela. Ademais, inundava espectadores de uma falsa imagem de uma sociedade quase ut\u00f3pica. Era mais que o <em>\u201cAmerican Way of Life\u201d<\/em>, significava a subjuga\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria cultura em detrimento da meritocracia de James Stewart e o estoicismo de John Wayne.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Atacou, tamb\u00e9m, a est\u00e9tica e a moda. As caracter\u00edsticas da mulher brasileira s\u00e3o esnobadas pelo \u201cbranqueamento\u201d nos filmes, criando ideias de beleza \u00e0 imagem de mulheres como Marilyn Monroe. A &#8220;<em>americaniza\u00e7\u00e3o<\/em>&#8221; agravou-se ainda mais com a queda do governo democr\u00e1tico pelo golpe militar de 1964. O regime, inflex\u00edvel e conhecido pela viol\u00eancia contra as liberdades individuais, foi respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os estatais de censura, como o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). Por vezes, at\u00e9 impedindo a entrada de filmes estrangeiros que os censores n\u00e3o considerassem apropriados.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Laranja mec\u00e2nica (Kubrick), que questionava o sistema punitivo, e \u00daltimo Tango em Paris\u00a0 (Bertolucci), com contexto sexual, foram impedidos de passar nos cinemas do pa\u00eds. Filmes brasileiros n\u00e3o eram imunes ao tratamento r\u00edgido do governo. \u201cPra Frente, Brasil\u201d, obra de Roberto Farias sobre a ditadura militar, tamb\u00e9m foi alvo de censura. Sob essa \u00f3tica, de tortura e atos inconstitucionais, o cinema brasileiro reemergiu em uma encarna\u00e7\u00e3o mais socialmente ativa. Exclusivo do Brasil, o chamado <em>Cinema Novo<\/em> se desenvolveu ao longo da Ditadura, em contraponto aos materiais ufanistas que a junta militar buscava circular. Ainda eram produ\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, sem investimentos, mas que buscavam, pelos princ\u00edpios mais simples do audiovisual, comentar a sociedade e combater a depend\u00eancia dos filmes estrangeiros.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Tamb\u00e9m era a \u00e9poca das pornochanchadas. Os \u201csoft porn\u201d, por vezes adapta\u00e7\u00f5es de Nelson Rodrigues por Neville de Almeida, foram fundamentais para o abrandamento da censura. O desempenho popular desses filmes, com plots vagos como intervalo para a pr\u00f3xima cena de nudez, for\u00e7aram os limites da toler\u00e2ncia dos militares, que buscavam n\u00e3o interferir. Com o fim dos anos de chumbo e posse de um presidente civil, o Brasil tamb\u00e9m daria origem a uma nova vertente da arte, o Cinema de Retomada.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Do final da d\u00e9cada de noventa ao in\u00edcio dos anos dois mil, esse conjunto de filmes revigorou a dramaturgia nacional. Tamb\u00e9m conhecido como Cinema Marginal, eram obras de car\u00e1ter social que exploravam distintas realidades do Brasil, fora do <em>glamour <\/em>das telenovelas. Central do Brasil, de Walter Salles, \u00e9 um dos exemplos. Elogiado n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, como no exterior.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Ent\u00e3o, mesmo com a import\u00e2ncia s\u00f3cio-pol\u00edtica do cinema nacional, por que o estigma persevera? Em uma pesquisa realizada pelo Datafolha e o Ita\u00fa Cultura, foi constatado que at\u00e9 um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o sente avers\u00e3o ou resist\u00eancia a filmes nacionais. S\u00e3o raros os participantes que afirmam ver com frequ\u00eancia produ\u00e7\u00f5es brasileiras, apenas 24%. Dados os quais reverberam no desempenho de bilheteria, muito menor do que os estrangeiros. Por\u00e9m, n\u00e3o se cabe pensar no audiovisual brasileiro como um mercado economicamente morto, pelo contr\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">A ind\u00fastria cultural brasileira \u00e9 uma pot\u00eancia em hiberna\u00e7\u00e3o, sendo as pol\u00edticas internas para a produ\u00e7\u00e3o de filmes respons\u00e1vel pela pr\u00f3pria crise. Em um estudo, a Spcine \u2014 Empresa estatal de cinema do Estado de S\u00e3o Paulo \u2014 constatou que 1 real investido na produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica do estado significa um retorno de 20 reais na economia local. \u00c9 o quinto setor mais relevante da economia nacional, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica\u00a0 (IBGE).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Quanto \u00e0 receita, o Brasil movimenta mais de 25 bilh\u00f5es de reais ao ano, seja com produ\u00e7\u00e3o ou bilheteria. \u00c9 o equivalente a 0,46% de todo o PIB nacional. \u00c0 parte do p\u00fablico e dos investidores, a ind\u00fastria emprega funcion\u00e1rios e viabiliza os cinemas, independentes ou de grandes companhias, que tamb\u00e9m integram a vida econ\u00f4mica de muitas pessoas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Pegue-se o caso de \u201cCemit\u00e9rio das Almas Perdidas\u201d. O filme de terror de Rodrigo Arag\u00e3o \u00e9 o mais recente gravado em Guarapari, cidade natal do diretor. Foram mais de 200 vagas de empregos geradas pela produ\u00e7\u00e3o, um investimento direto na economia local. Rodrigo, que j\u00e1 afirmou o cinema nacional como \u201cum bom neg\u00f3cio\u201d, \u00e9 um de seus grandes defensores. N\u00e3o se trata apenas de figura\u00e7\u00e3o ou pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, ao transformar o litoral do Esp\u00edrito Santo em sua Hollywood, Rodrigo beneficiou o com\u00e9rcio, hotelaria e demais setores econ\u00f4micos da cidade. S\u00e3o essas as pessoas beneficiadas indiretamente pela produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">N\u00e3o que o intuito financeiro deva ser o \u00fanico referente ao cinema. Mesmo na era da reprodutibilidade t\u00e9cnica, \u00e9 uma forma de express\u00e3o e arte. Nesse contexto, encontramos os cineastas independentes. Artistas que disputam editais para financiar seus filmes, mas que, na maior parte das vezes, dependem de produtores para conseguir investimento. Nas raras ocasi\u00f5es em que \u00e9 poss\u00edvel bancar totalmente os custos de produ\u00e7\u00e3o, um cineasta pode lan\u00e7ar filmes em diversas salas no pa\u00eds. Por\u00e9m, como observado, o retorno de bilheteria n\u00e3o \u00e9 o adequado, em vista da prefer\u00eancia do grande p\u00fablico por produ\u00e7\u00f5es hollywoodianas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Segundo a doutora em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o,\u00a0 Alessandra Meleiro, no livro &#8220;Ind\u00fastria Cinematogr\u00e1fica e Audiovisual Brasileira Vol. 2\u201d a maior participa\u00e7\u00e3o popular no cinema vem atrav\u00e9s dos \u201cblockbusters\u201d. Tubar\u00e3o, de Steven Spielberg, \u00e9 conhecido como o primeiro filme da categoria: produ\u00e7\u00f5es B que fomentam maior apelo popular, por vezes apelando para efeitos visuais. Essas obras investem em campanhas de marketing que conquistam o p\u00fablico antes mesmo de entrar em cartaz. Ambos os aspectos s\u00e3o ignorados pelo Estado, o que leva ao \u00eaxodo de profissionais para o exterior e filmes obscurecidos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Com a crise atual no setor cultural, tanto a Ancine quanto a Condecine, ambos \u00f3rg\u00e3os importantes para investimento no cinema, est\u00e3o amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. Editais se tornam mais raros e cada vez menos produ\u00e7\u00f5es deixam o papel. Isso \u00e9 ainda mais grave no que diz respeito a filmes de g\u00eanero. O diretor, produtor e roteirista independente Joel Caetano \u00e9 um contribuidor do acervo nacional do cinema fant\u00e1stico. Seu primeiro filme, \u201cMinha noiva \u00e9 um zumbi\u201d foi extremamente bem recebido pelo p\u00fablico no Cinefantasy de S\u00e3o Paulo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">\u201cEu n\u00e3o achava que meus projetos caberiam em um edital. Como eu explicaria o filme de um gato falante que faz um cara matar a esposa e colocar a cabe\u00e7a dela na geladeira\u201d. Produzir um filme significava trabalhar dentro das pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es. Abra\u00e7ando o Trash, Joel conquistou seu p\u00fablico, j\u00e1 amante do terror-com\u00e9dia e do <em>\u201ccamp\u201d<\/em>. A estreia n\u00e3o foi o \u00fanico sucesso em festivais, nos anos seguintes seus curtas \u2014 como &#8220;<em>Gato<\/em>&#8221; (2009) \u2014 tiveram \u00f3timo desempenho n\u00e3o s\u00f3 nacional como internacional. Descobriu assim a import\u00e2ncia dos festivais: uma chance de construir um portf\u00f3lio vis\u00edvel para futuros colaboradores e investidores.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Mesmo com as dificuldades dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds, a identidade brasileira vem se destacando dentro do cinema mundial.\u00a0\u00a0 Aquarius, de 2016, estrelado por S\u00f4nia Braga, foi um dos principais concorrentes \u00e0 Palma de Ouro do Festival de Cannes. At\u00e9 hoje, foi o \u00fanico longa-metragem latino-americano j\u00e1 indicado \u00e0 categoria de melhor filme. Foi vitorioso nos festivais de Sidney, Lima e Amsterd\u00e3.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">\u00c9 um equ\u00edvoco pensar que filmes s\u00e3o s\u00f3 relevantes para o pa\u00eds de produ\u00e7\u00e3o. Realidades se repetem independente do local. Bong Joon-ho, primeiro diretor a ganhar o Oscar de Melhor Filme por uma obra n\u00e3o em ingl\u00eas, se disse incr\u00e9dulo quanto ao sucesso de seu trabalho, \u201cParasita\u201d (2019). Acreditava que os temas gerais eram muito \u00fanicos da Coreia do Sul. Por\u00e9m, a for\u00e7a que o filme conquistou cr\u00edtica e popularmente \u00e9 evid\u00eancia que obras de diferentes pontos do mundo podem concorrer diretamente com Hollywood, e vencer.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Um importante salto para os cineastas \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o para o trabalho. Assim como qualquer jovem que conta aos pais o desejo de seguir carreira no cinema brasileiro, Joel experimentou da incredulidade e do estigma. Filmes nacionais n\u00e3o tinham espa\u00e7o, fosse na grande ou pequena tela. \u201cFomos bombardeados de produ\u00e7\u00f5es norte-americanas. Isso n\u00e3o \u00e9 algo ruim, mas era um monop\u00f3lio (de Hollywood), n\u00e3o tinha filme nacional passando na T.V.\u201d.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Al\u00e9m de hoje trabalhar com cinema, Joel, j\u00e1 h\u00e1 10 anos, oferece oficinas na \u00e1rea. S\u00e3o de cinco a dez oficinas ao ano. Com a integra\u00e7\u00e3o de novas tecnologias, o que antes s\u00f3 poderia ser alcan\u00e7ado com uma c\u00e2mera profissional, est\u00e1 \u00e0 dist\u00e2ncia de um clique no celular. 2023 marcar\u00e1 a estreia de seu novo filme, uma anima\u00e7\u00e3o<em> Stop-Motion<\/em>, in\u00e9dito ao diretor. Gradualmente, cineastas como Rodrigo Arag\u00e3o e Joel Caetano tornam o cinema de g\u00eanero cada vez mais presente na cinematografia nacional.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Maior do que o prest\u00edgio dos \u00faltimos anos. Joel tem como maior tesouro seu encontro com Mojica. A amizade em um festival o levou ao cargo de assistente de diretor no \u00faltimo filme do lend\u00e1rio cineasta. \u201cAs F\u00e1bulas Negras\u201d, lan\u00e7ado em 2015, \u00e9 um compilado de antologias de terror. Por\u00e9m, ainda mais, \u00e9 uma viagem no tempo. A chance de gera\u00e7\u00f5es do cinema fant\u00e1stico brasileiro se encontrarem sob uma mesma obra. Aficionados, Rodrigo Arag\u00e3o e Joel Caetano dirigem dois dos segmentos do longa. Enquanto Mojica toma as r\u00e9deas na primeira hist\u00f3ria.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Era a \u00faltima vez como diretor e ator. Joel vira colegas de elenco se emocionarem com os serm\u00f5es de Mojica, na pele de um pastor, ou se assustarem quando o diretor gritava o in\u00edcio das filmagens. \u201cEle era realmente um maestro, a forma com que ele falava \u2018a\u00e7\u00e3o\u2019, j\u00e1 dava todo o ritmo para o ator\u201d. Na realidade, Jos\u00e9 Mojica Marins n\u00e3o era um coveiro dedicado ao nascimento do anticristo, embora muitos esque\u00e7am. O diretor era um artista dedicado que seguia a paix\u00e3o pelo cinema mesmo quando brasileiros se mantiveram alienados por Hollywood.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Cinco anos ap\u00f3s o \u00faltimo filme, Mojica faleceu aos 83 anos. E, embora eternamente ferido, o cinema nacional n\u00e3o parte com ele. At\u00e9 o dia em que receba os merecedores recursos, cair\u00e1 sobre os ombros da atual gera\u00e7\u00e3o de cineastas zelar pelo legado dos antigos artistas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">\u00a0Corta.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Texto:\u00a0<\/strong>Daniel S. Simon<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o:<\/strong> Maria Isabela Andrade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o do cinema nacional amea\u00e7a a economia e o patrim\u00f4nio cultural do Brasil. &nbsp; Em 1964, o p\u00fablico assistia uma atriz, desesperada, ser escalada por uma tar\u00e2ntula.\u00a0 Chegava aos cinemas brasileiros \u201cA Meia Noite Levarei sua Alma\u201d. Era a estreia de Z\u00e9 do Caix\u00e3o.\u00a0 O primeiro sucesso de Jos\u00e9 Mojica Marins \u00e9 um marco, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":568,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[10,11],"tags":[],"class_list":["post-1014","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cotidiano","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1014","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/568"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1014"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1014\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1014"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1014"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1014"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}