{"id":1009,"date":"2023-02-02T10:33:39","date_gmt":"2023-02-02T13:33:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/?p=1009"},"modified":"2023-03-09T10:34:00","modified_gmt":"2023-03-09T13:34:00","slug":"historias-alem-dos-numeros-relatos-e-memorias-de-pessoas-que-perderam-familiares-para-o-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/2023\/02\/02\/historias-alem-dos-numeros-relatos-e-memorias-de-pessoas-que-perderam-familiares-para-o-covid-19\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias al\u00e9m dos n\u00fameros: relatos e mem\u00f3rias de pessoas que perderam familiares para o Covid-19"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 14pt\">A pandemia que teve in\u00edcio no final de 2019 ocasionou a morte de quase 15 milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS). No Brasil, a \u00faltima atualiza\u00e7\u00e3o realizada dia 24 de janeiro de 2023, pelo Reposit\u00f3rio de Dados de Covid-19 do Centro de Ci\u00eancia e Engenharia de Sistemas (CSSE) da Universidade Johns Hopkins, mostra que 696 mil pessoas morreram de Covid no pa\u00eds. Cada uma delas tinha uma fam\u00edlia, um amigo, um filho. Eram importantes para algu\u00e9m e tornaram-se parte do n\u00famero de v\u00edtimas do coronav\u00edrus.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Segundo um estudo realizado pela Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), a Covid-19 deixou 12.211 mil \u00f3rf\u00e3os de at\u00e9 6 anos no pa\u00eds. E ainda segundo o Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), pelo menos 130 mil crian\u00e7as e adolescentes perderam pai e m\u00e3e na pandemia. Outra pesquisa realizada entre mar\u00e7o de 2020 e abril de 2021, publicada pela revista The Lancet mostra que em 21 pa\u00edses, mais de 1,1 milh\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes perderam um dos pais ou dos cuidadores prim\u00e1rios em decorr\u00eancia da doen\u00e7a. At\u00e9 o momento esses n\u00fameros representam apenas pessoas com menos de 17 anos de idade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Isabela Maximowski, de 26 anos, faz parte do n\u00famero daqueles que perderam familiares para a Covid-19. O pai, Albari Maximowski, de 54 anos, morador da cidade de Guarapuava-PR, foi acometido pelo v\u00edrus no ano de 2021. Maximowski era vendedor em uma loja de m\u00f3veis e fazia parte do grupo de risco. Por esse motivo, com o in\u00edcio dos casos de coronav\u00edrus, afastou-se por 51 dias do trabalho. A filha relata que, durante a pandemia, o pai sofria muito com a dist\u00e2ncia que tinha que manter dos familiares, pois a fam\u00edlia tinha como costume reunir-se nos finais de semana.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Na primeira semana em que Maximowski retornou ao emprego, teve contato com um colega que estava com Covid-19. Nesse per\u00edodo, a esposa e a filha tamb\u00e9m contra\u00edram o v\u00edrus e os tr\u00eas ficaram isolados em casa. Ele come\u00e7ou a mostrar sintomas, dor de cabe\u00e7a, febre, dor no corpo e falta de ar. O estado de sa\u00fade come\u00e7ou a agravar-se e com isso foi levado ao hospital, no per\u00edodo em que ele contraiu o v\u00edrus, o pa\u00eds como um todo estava registrando milhares de casos todos os dias e a falta de leitos nos hospitais era frequente. Por n\u00e3o encontrar de imediato uma vaga no hospital, o caso de Maximowski agravou-se. \u201cDepois do momento que ele entrou no hospital, eu e minha m\u00e3e n\u00e3o o vimos mais. Um dos enfermeiros avisou a gente de que talvez mandassem informa\u00e7\u00f5es sobre o estado dele, e que o m\u00e9dico normalmente informava as fam\u00edlias, mas que isso n\u00e3o acontecia todos os dias\u201d, relata a filha.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Ap\u00f3s sete dias entubado no hospital, Maximowski come\u00e7ou a ter perda do funcionamento do rim, e no d\u00e9cimo terceiro dia de internamento, veio a \u00f3bito. A filha conta sobre o medo que o pai tinha de hospitais e principalmente de contrair Covid-19. \u201cNosso medo era do meu pai acordar entubado, sozinho e dentro do hospital, ele tinha muito medo de pegar covid\u201d. Devido \u00e0s restri\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, a fam\u00edlia n\u00e3o pode ver o ente durante o vel\u00f3rio, para a filha o fato de n\u00e3o poder ver e ter contato f\u00edsico com o pai faz com que ela e a m\u00e3e tenham a sensa\u00e7\u00e3o de que a qualquer momento eler\u00e1 entrar em casa depois de um dia de trabalho. Isabela ainda comenta que o pai cuidava das finan\u00e7as da casa e a perda dele fez com a m\u00e3e trabalhasse mais e que ela adquirisse um emprego. Albari Maximowski faleceu em maio de 2021 e no dia em que contraiu a doen\u00e7a, ele receberia a primeira dose da vacina contra o Coronav\u00edrus.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><span style=\"font-size: 14pt\"><strong>Quantas mortes seriam evit\u00e1veis?<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), juntamente com a Secretaria Municipal de Sa\u00fade de Londrina, e a Faculdade de Medicina Albert Einstein dos Estados Unidos, mostrou que 75% das mortes por Covid-19 registradas nos dez primeiros meses de 2021 poderiam ter sido evitadas se as pessoas tivessem acesso a vacina. O relat\u00f3rio tamb\u00e9m mostra que idosos n\u00e3o vacinados morreram quase tr\u00eas vezes mais do que os imunizados.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Mais das 500 mil mortes registradas poderiam ser evit\u00e1veis caso o governo federal tivesse adotado medidas de precau\u00e7\u00e3o, cuidado e tratamento devido ao coronav\u00edrus. Al\u00e9m de negacionistas e pessoas que realizavam aglomera\u00e7\u00f5es, mesmo sabendo que o pa\u00eds registrava todos os dias milhares de mortes. Do outro lado, pessoas que pegavam \u00f4nibus e metr\u00f4s lotados todos os dias para garantir o emprego e sustento da fam\u00edlia, arriscando-se e desejando n\u00e3o terem que sair na rua em meio a pandemia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Joacir Fabris, 46 anos, morador de Coronel Vivida, PR, foi uma das pessoas que trabalhavam diariamente durante a pandemia. Ele atuava na \u00e1rea de panifica\u00e7\u00e3o no mercado da cidade e afastou-se do trabalho somente quando o n\u00famero de casos de Covid-19 come\u00e7ou a aumentar demasiadamente na cidade em que morava.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Fabris havia realizado uma cirurgia de transplante de pulm\u00e3o no in\u00edcio do ano 2000, e por isso fazia parte do grupo de risco. Ele era uma das milhares de pessoas que tamb\u00e9m tinham medo de contrair a doen\u00e7a, por isso tomava todos os tipos de rem\u00e9dios que recomendavam. \u201cEle teve contato com uma pessoa que estava positivada e nesse momento fez mais de cinco testes para saber se tinha Covid, o m\u00e9dico come\u00e7ou a tratar ele como paciente com Covid Psicol\u00f3gica, pois at\u00e9 o momento ele n\u00e3o estava contaminado, mas tinha todos os sintomas\u201d, comenta Joc\u00e1cia, filha de Fabris.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">A Covid Psicol\u00f3gica, tamb\u00e9m conhecida entre m\u00e9dicos como somatiza\u00e7\u00e3o, se d\u00e1 quando o quadro cl\u00ednico n\u00e3o \u00e9 causado pelo v\u00edrus, mas por um estado de ansiedade e preocupa\u00e7\u00e3o. \u00c9 quando o medo de se contaminar \u00e9 t\u00e3o grande que a pessoa passa a ter todos os sintomas da Covid-19, como febre, tosse seca, mal-estar e dificuldade para respirar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Esse foi o caso de Joacir Fabris, os sintomas iniciais dele eram, febre, tosse, mal-estar, dores no corpo e ap\u00f3s alguns dias, o medo de contrair Covid-19 foi tanto que passou mal, tendo falta de ar e precisou ir para o hospital. No per\u00edodo, os casos da doen\u00e7a na cidade ainda eram baixos em compara\u00e7\u00e3o aos anos seguintes. Assim, Joacir teve que ser encaminhado para a cidade vizinha onde havia equipamentos e cuidados avan\u00e7ados para pacientes com coronav\u00edrus. Ficou hospitalizado por dois dias, e foi nesse momento que acabou contraindo o v\u00edrus. O que at\u00e9 o momento era psicol\u00f3gico passou a ser real e agravou-se rapidamente devido ao hist\u00f3rico de sa\u00fade que possu\u00eda.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">A fam\u00edlia de Fabris s\u00f3 recebia informa\u00e7\u00f5es pelos m\u00e9dicos e enfermeiros, Jocacia relata que eram raros os dias que informavam e que todas as liga\u00e7\u00f5es faziam com que ela e a fam\u00edlia ficassem com medo de atender o celular. \u201cAlguns dias antes dele falecer ele teve uma melhora e foi quando todos n\u00f3s conseguimos entrar no quarto para uma visita, mesmo sedado a gente conversava com ele\u201d, relata a filha.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Dias depois, Joacir veio a \u00f3bito. A fam\u00edlia n\u00e3o teve contato com o corpo do familiar. Ele foi uma das primeiras pessoas na cidade que faleceu devido a Covid-19. Como as medidas de restri\u00e7\u00f5es ainda eram r\u00edgidas por n\u00e3o se compreender muito sobre o v\u00edrus na \u00e9poca, a fam\u00edlia n\u00e3o pode nem chegar perto do caix\u00e3o. Mesmo lacrado, todos tiveram que manter dist\u00e2ncia e n\u00e3o podiam ultrapassar a faixa de seguran\u00e7a que havia no local. \u201cA gente n\u00e3o p\u00f4de nem chegar perto do caix\u00e3o, a \u00fanica pessoa que viu ele antes do vel\u00f3rio foi meu irm\u00e3o quando foi fazer o reconhecimento do corpo no hospital\u201d, contou Joc\u00e1cia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<h3><span style=\"font-size: 14pt\"><strong>Redes de apoio: luto em tempos de Covid-19<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">O n\u00e3o contato com o familiar faz com que o luto seja um momento mais longo que o normal, afinal, al\u00e9m da perda de algu\u00e9m a pessoa tamb\u00e9m passa pela falta de uma despedida. Nesse momento, ter amigos, familiares ou grupos de apoio \u00e9 essencial. \u201cNosso grupo de apoio foi a igreja e amigos e mesmo ap\u00f3s tr\u00eas anos essas pessoas ainda auxiliam muito minha fam\u00edlia\u201d, relata Joc\u00e1cia.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Para auxiliar as pessoas que perderam familiares durante a pandemia, um grupo de profissionais criou a Rede de Apoio \u00e0s Fam\u00edlias e Amigos de V\u00edtimas Fatais de Covid-19 no Brasil. A rede de apoio conta com cidad\u00e3os, profissionais de diversas \u00e1reas, organiza\u00e7\u00f5es sociais, pesquisadores e demais pessoas solid\u00e1rias \u00e0s fam\u00edlias e amigos das v\u00edtimas do Coronav\u00edrus. O objetivo desta rede \u00e9 oferecer amparo \u00e0s fam\u00edlias em v\u00e1rias \u00e1reas, desde contribuir para o resgate e preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria dos mortos em um espa\u00e7o p\u00fablico at\u00e9 o oferecimento de um conjunto de medidas concretas imediatas para amenizar o sofrimento. Al\u00e9m de oferecer orienta\u00e7\u00e3o, contatos e conhecimentos de outras experi\u00eancias, garantindo apoio, sobretudo profissional e humano.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">A rede cont\u00e9m diversos volunt\u00e1rios e profissionais dispostos a atender de forma online e presencial. S\u00e3o iniciativas como essas que auxiliam e fazem com que os enlutados tenham mais esperan\u00e7a ap\u00f3s verem tantas mortes durante a pandemia, afinal n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 pessoas que perderam familiares que foram afetadas pela pandemia de Covid-19.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">A esposa de Joacir Fabris, Carla Teles, perdeu 15% da vis\u00e3o devido ao trauma da perda do marido, e em momentos de estresse a vis\u00e3o acaba piorando. \u201cN\u00f3s evit\u00e1vamos falar sobre meu pai, na hora do almo\u00e7o quando nos reun\u00edamos, ningu\u00e9m conversava, era uma casa silenciosa. N\u00e3o quer\u00edamos falar sobre para n\u00e3o deixar minha m\u00e3e pior, foi nos grupos de apoio que eu podia conversar, me abria, desabafava meus sentimentos e todas as ang\u00fastias que eu estava passando\u201d. Relatou Joc\u00e1cia<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Texto:<\/strong>\u00a0Emely Cardoso<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>Maria Isabela Andrade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pandemia que teve in\u00edcio no final de 2019 ocasionou a morte de quase 15 milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS). 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