{"id":1002,"date":"2023-03-09T10:08:50","date_gmt":"2023-03-09T13:08:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/?p=1002"},"modified":"2023-03-16T17:26:30","modified_gmt":"2023-03-16T20:26:30","slug":"cemiterio-ha-vagas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/colmeia\/2023\/03\/09\/cemiterio-ha-vagas\/","title":{"rendered":"Cemit\u00e9rio: H\u00e1 vagas!"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 14pt\">Benjamin Franklin uma vez disse: \u201cNada \u00e9 mais certo nesse mundo do que a morte e os impostos\u201d. Adentrar um cemit\u00e9rio \u00e9 atestar essa realidade. Pensamos que a morte \u00e9 um fator universal. Um denominador comum que racionaliza todos os homens, independente do que eram quando vivos. Em termos metaf\u00edsicos, talvez estamos certos. N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia cient\u00edfica para constatar diferentes destinos no p\u00f3s-morte. \u00c0 parte de cren\u00e7as religiosas, \u00e9 claro. Quanto ao mundano, sempre conseguimos segregar a morte. Outrora, fara\u00f3s eram mumificados e sepultados em pir\u00e2mides e zigurates, enquanto hebreus eram jogados em valas comunit\u00e1rias para servirem de alicerces.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Hoje, \u00e9 o capitalismo que dita o \u201cpost mortem\u201d. A banaliza\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos naturais alcan\u00e7ou at\u00e9 o mais definitivo. \u00c9 imposs\u00edvel organizar um funeral \u2014 uma atividade desagrad\u00e1vel por natureza \u2014 sem se dar conta da burocracia e do custo. Cada prova de afeto \u00e9 correspondida por um gasto adicional. Um bom terno, para acompanhar o corpo embalsamado, por exemplo. Ningu\u00e9m pode ir mal vestido a um vel\u00f3rio, nem mesmo o homenageado. E antes um palet\u00f3 de madeira a um de poli\u00e9ster.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Ao caminhar pela cal\u00e7ada esburacada desse cemit\u00e9rio, mesmo o olhar mais despretensioso consegue diferenciar os bem afortunados dos mais humildes. N\u00e3o que haja verdadeiro luxo no lugar, nem mesmo os vivos s\u00e3o tratados com muita gentileza. Uma vi\u00fava poderia logo se juntar ao marido apenas com o trope\u00e7ar dos p\u00e9s. Um f\u00eamur partido ou uma bacia quebrada, n\u00e3o precisa de muito. S\u00f3 caberia aos filhos e netos escolherem o mais almofadado caix\u00e3o e santu\u00e1rio. Caso n\u00e3o cabe no or\u00e7amento \u2014 ou a velha n\u00e3o tenha sido bem-quista \u2014 \u00e9 s\u00f3 reservar o lote.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Para os pobres bem-amados, ficam as l\u00e1grimas dos parentes e a beleza que tiveram em vida, pois n\u00e3o ter\u00e3o nenhuma na morte.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">\u00c9 importante compreender a natureza monet\u00e1ria dos cemit\u00e9rios, ou o relato a seguir n\u00e3o ter\u00e1 l\u00f3gica. O objeto de estudo, em particular, est\u00e1 localizado no Bairro Santa Cruz de Guarapuava. Conta com uma avalia\u00e7\u00e3o de 4,5 estrelas no Google. Mas n\u00e3o h\u00e1 como garantir que os vivos tenham sido imparciais na decis\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, sob uma \u00f3tica s\u00ednica e racionalista, \u00e9 no m\u00ednimo decepcionante. Os \u201cmoradores\u201d s\u00e3o cercados por um muro, o qual h\u00e1 anos precisa de uma dem\u00e3o de tinta, expondo tijolos na argamassa como as costelas de um cad\u00e1ver. Para as visitas, \u00e9 necess\u00e1rio atravessar o arco gradeado que chamam de port\u00e3o, nada convidativo. \u00c0 primeira vista, o local \u00e9 desolador, opini\u00e3o que s\u00f3 se fortalece conforme a explora\u00e7\u00e3o. Qualquer beleza ou aura s\u00e3o apenas sustentadas por no\u00e7\u00f5es do sagrado ou profano. Se a natureza do local fosse outra sen\u00e3o a preserva\u00e7\u00e3o dos mortos, haveria queixas na prefeitura. Um pedido formal de demoli\u00e7\u00e3o n\u00e3o demoraria a ser ratificado.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">A menos que voc\u00ea seja um cultista ou membro da fam\u00edlia Addams, h\u00e1 pouco o que fazer em um cemit\u00e9rio caso n\u00e3o tenha ningu\u00e9m familiar para visitar. Os mortos eram configurados sem padr\u00e3o ou raz\u00e3o aparente, pessoas de diferentes d\u00e9cadas ou s\u00e9culos amontoadas lado a lado, cada sarc\u00f3fago de concreto disputando espa\u00e7o no ch\u00e3o irregular. Os espa\u00e7os entre os \u201cvizinhos\u201d se tornavam cada vez menores, imagino que afunilaria visitas em uma linha indiana. Parentes dedicados o suficiente para aguentar o corredor claustrof\u00f3bico, poderiam deixar suas flores e ora\u00e7\u00f5es. Isso, se houvesse algu\u00e9m al\u00e9m de alunos curiosos e trabalhadores cansados.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">O cemit\u00e9rio permanecia resoluto, os passos no ch\u00e3o de pedra e o risinho involunt\u00e1rio ao encontrar um nome engra\u00e7ado nas gravuras faziam pouco para preencher o sil\u00eancio. N\u00e3o estou falando da total \u2014 ou parcial \u2014 aus\u00eancia de som. O fen\u00f4meno f\u00edsico, o transporte de ondas sonoras pelo ar, \u00e9 s\u00f3 parte do \u201ctodo\u201d, da atmosfera que depositamos em lugares como aquele. Cren\u00e7as individuais, como a psican\u00e1lise pode explicar, s\u00e3o contagiosas sob circunst\u00e2ncias espec\u00edficas. N\u00e3o \u00e9 a evangeliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o afirmo que um cemit\u00e9rio possa converter um ateu, pelo contr\u00e1rio, pode refor\u00e7ar a descren\u00e7a em um Deus absoluto. Refiro-me ao mais primitivo elo espiritual, das mitologias de outrora que hoje nos divertem pelo absurdo. Na maior parte, desagrad\u00e1veis.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">\u201cMemento mori\u201d. Ningu\u00e9m gosta de ser lembrado da morte, ainda assim, todos sabem que v\u00e3o morrer. \u00c9 inexpugn\u00e1vel, t\u00e3o certo quanto o imposto de renda e igualmente tr\u00e1gico. Imagino se no leito de morte, todos n\u00f3s nos imaginamos como a exce\u00e7\u00e3o. Um novo milagre. Ser\u00e1 que ainda temos ambi\u00e7\u00f5es f\u00fanebres ap\u00f3s isso? Se dada a escolha, preferimos um marco austero ao ch\u00e3o de terra batida?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Imposs\u00edvel imaginar que algu\u00e9m ao meu horizonte gostaria de, em vida, estar ali. N\u00e3o \u00e9 apenas uma discord\u00e2ncia est\u00e9tica, como os azulejos coloridos que vemos em cat\u00e1logos para banheiro adornando a cama do descanso eterno. Ou os cart\u00f5es plastificados com fotos e dizeres porcamente diagramados. Nem mesmo aos caix\u00f5es erguidos um acima do outro, como edif\u00edcios m\u00f3rbidos. \u00c9 a forma com que cada um \u00e9 lembrado, a riqueza que define se somos mais que uma vala sem nome. Quanto tempo deve levar para que a imagem de um pai d\u00ea lugar a um dos frios mon\u00f3litos de concreto? E dentro do padr\u00e3o, isso ainda \u00e9 um privil\u00e9gio.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Esses s\u00e3o os casos dos cidad\u00e3os de apre\u00e7o. Das pessoas que se transformam na paisagem. E quanto aos p\u00e1rias e esquecidos, talvez ainda consigam um lugar naquele ch\u00e3o esburacado. Um pouco de pedra para cobrir a terra, quem sabe? Ou mesmo uma identifica\u00e7\u00e3o. Em morte conseguiriam pertencer \u00e0 sociedade que n\u00e3o os quiseram em vida?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Ap\u00f3s desbravar as vias em uma viagem no tempo, conhecendo o recorte das eras de Guarapuava, deparei-me com a curiosa presen\u00e7a de um casal de cruzes brancas. N\u00e3o havia nome ou qualquer forma de reconhecer quem ali parecia. Na verdade, n\u00e3o era poss\u00edvel nem deduzir quando foram sepultadas. Seguindo a linearidade do racioc\u00ednio, a primeira suposi\u00e7\u00e3o foi a de g\u00eameos natimortos. As dimens\u00f5es eram as mesmas, id\u00eanticas e uma ao lado da outra. Talvez a falta de nome fosse decorr\u00eancia da morte prematura.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Por\u00e9m, a verdade era outra. Aquele era um marco ainda mais triste. Talvez a mais tr\u00e1gica forma de pertencer a um cemit\u00e9rio. Eram aqueles dois leprosos, pobres de corpo e dinheiro. Algu\u00e9m que desconhecesse a hist\u00f3ria da hansen\u00edase no Brasil poderia tomar aquilo como um absurdo. Para alguns, era a enfermidade que Jesus expulsava e nada mais. N\u00e3o sabiam da constru\u00e7\u00e3o de cemit\u00e9rios particulares, onde os que sucumbiam \u00e0 doen\u00e7a eram jogados.\u00a0 Dos pobres, mais vulner\u00e1veis \u00e0 doen\u00e7a, que eram despersonalizados. Ap\u00f3s dias ou semanas afastados de seus familiares, n\u00e3o podiam se encontrar nem mesmo em morte.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">A raz\u00e3o para n\u00e3o haver nomes \u00e9 simples, ningu\u00e9m mais os conhece. Lepros\u00e1rios amontoavam pacientes, pobres moribundos em uma longa e dolorosa caminhada at\u00e9 a morte. Eram n\u00fameros em uma tabela, ao m\u00e1ximo. As ossadas, imagino, foram transportadas ao cemit\u00e9rio local recentemente, como uma forma de retrata\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Se isso \u00e9 um alento para as duas v\u00edtimas, n\u00e3o h\u00e1 como saber nesse mundo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Em um cl\u00e1ssico exerc\u00edcio de observa\u00e7\u00e3o, fil\u00f3sofos ponderam: \u201c&#8221;Se uma \u00e1rvore cai em uma floresta e ningu\u00e9m est\u00e1 por perto para ouvir, ela faz barulho?&#8221;<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">O questionamento parte do princ\u00edpio l\u00f3gico de que os fen\u00f4menos como conhecemos s\u00e3o as interpreta\u00e7\u00f5es de referenciais. Sem eles, como poder\u00edamos estar ciente dos fantasmas do mundo. Quando lemos uma inscri\u00e7\u00e3o, mesmo que no mais vagabundo dos cart\u00f5es: \u201cpai\u201d, \u201cfilho\u201d ou \u201camigo\u201d, realizamos que houve algo al\u00e9m da mat\u00e9ria em um espec\u00edfico corpo. Mas quando n\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m que se lembra para escrever seu nome no t\u00famulo, ser\u00e1 que voc\u00ea realmente existiu?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 14pt\">Ser parte da necr\u00f3pole em anonimato, ainda assim, \u00e9 o mais otimista prospecto para alguns.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Texto:\u00a0<\/strong>Daniel S. Simon<\/p>\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong>Maria Isabela Andrade<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Benjamin Franklin uma vez disse: \u201cNada \u00e9 mais certo nesse mundo do que a morte e os impostos\u201d. Adentrar um cemit\u00e9rio \u00e9 atestar essa realidade. Pensamos que a morte \u00e9 um fator universal. Um denominador comum que racionaliza todos os homens, independente do que eram quando vivos. Em termos metaf\u00edsicos, talvez estamos certos. 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