{"id":108,"date":"2025-08-10T16:11:24","date_gmt":"2025-08-10T19:11:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www3.unicentro.br\/cedocg\/?page_id=108"},"modified":"2026-08-27T15:53:43","modified_gmt":"2026-08-27T18:53:43","slug":"in-memoriam","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www3.unicentro.br\/cedocg\/in-memoriam\/","title":{"rendered":"In Memoriam"},"content":{"rendered":"<p>Professora Terezinha Saldanha era chamada carinhosamente, e a seu gosto, de tia Tere, e assim seus alunos, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, a chamaram. Foi uma professora en\u00e9rgica e exigente, bem como corajosa ao pesquisar, quando ainda ningu\u00e9m se aventurava por esses caminhos no interior do Paran\u00e1, sobre prostitui\u00e7\u00e3o. Para suas pesquisas, com a finalidade de recolher depoimentos, foi \u00e0s casas de toler\u00e2ncia e entrevistou mulheres que a sociedade considerava descart\u00e1veis. Escreveu sobre subalternas mulheres e uma hist\u00f3ria que n\u00e3o deveria ser contada para os padr\u00f5es da sociedade em que viveu desde a inf\u00e2ncia. Depois escreveu sobre viol\u00eancia sexual buscando o que n\u00e3o se buscava, estudando quem e o que n\u00e3o se deveria estudar.<br \/>\nTia Tere tinha in\u00fameras paix\u00f5es. Sua fam\u00edlia biol\u00f3gica com seus sobrinhos netos que lhe faziam a vida mais leve, as mulheres invis\u00edveis a quem dedicou suas pesquisas e lutas pol\u00edticas, os alunos e alunas que acolhia em sua casa e que de l\u00e1 ningu\u00e9m mais sa\u00eda sem deixar um pouquinho de si e retornar com o muito dela.<br \/>\nMas a paix\u00e3o a que mais dedicou seu tempo foi, sem d\u00favida, o Arquivo Hist\u00f3rico Municipal e Centro de Documenta\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3ria de Guarapuava, os quais receberam merecidamente seu nome, passando a ser nomeado \u201cCentro de Documenta\u00e7\u00e3o e Mem\u00f3ria Professora Doutora Terezinha Saldanha\u201d. Tia Tere viu esse arquivo nascer no espa\u00e7o de uma sala de aula, ser transferido para um cantinho escuro e abafado ao lado do Departamento de Hist\u00f3ria da Unicentro e finalmente receber o merecido reconhecimento ao ter sua sede pr\u00f3pria. De entusiasta passou a Diretora e o Arquivo passou a ser, muito antes da sua nomea\u00e7\u00e3o oficial, o Arquivo da Tia Tere. Se busc\u00e1vamos por ela era certo todos os dias encontr\u00e1-la por l\u00e1 a trabalhar, ensinar, acolher e ter longas conversas quando saia porta afora para degustas mais uma de suas paix\u00f5es, o cigarro que n\u00e3o abandonava. Entrando no Arquivo vinha ela perguntar: \u201cj\u00e1 assinou o livro de visitas?\u201d, \u201cj\u00e1 viu como os meninos est\u00e3o organizando esse material?\u201d, \u201csabe que encontrei um processo criminal do ano tal que fala sobre a hist\u00f3ria tal?\u201d. Tamb\u00e9m contava sobre os materiais que tinha comprado para preservar a documenta\u00e7\u00e3o, muitas vezes com recursos pr\u00f3prios, e como estava ensinando outros a conservar, sobre o congelamento profundo que havia realizado, os fundos que estava recebendo para preserva\u00e7\u00e3o, os projetos que se sucediam.<br \/>\nParticipava de bancas avaliativas que utilizavam fontes documentais do Arquivo e as quais conhecia cada pormenor. Uma vida dedicada a preservar esses pequenos fragmentos da hist\u00f3ria do Paran\u00e1 e do Brasil. Resistia \u00e0 aposentadoria porque queria encontrar o ou a substituta perfeita para entregar a tarefa de conserva\u00e7\u00e3o. Tere e Arquivo eram sin\u00f4nimos. O Centro de Documenta\u00e7\u00e3o era sua grande bandeira.<br \/>\nEra uma professora generosa e apresentava essa generosidade a seus alunos e orientandos de modo muito intenso, sendo incans\u00e1vel no processo de ensino mesmo depois de encontrar seus alunos j\u00e1 formados. Ensinou a estudar mulheres invis\u00edveis, mesmo quando em afastamento para doutorado, sendo subversiva a ele porque amava o que fazia e amava ensinar. Abria as portas de sua casa para realizar orienta\u00e7\u00f5es, fazendo dela uma continuidade da universidade. Ela puxava os livros da estante de sua biblioteca e dizia \u201cLeia esse, voc\u00ea vai gostar\u201d e assim acompanhou muitos estudantes em suas pesquisas sempre os aconselhando, especialmente quando trabalhavam com<br \/>\ndocumenta\u00e7\u00e3o criminal. Nos acompanhava na vida acad\u00eamica e nos conquistava, permanecendo em nossas vidas. Mais que professora e orientadora, tornava-se amiga. Foi independente quando todos buscavam que se enquadrasse. Foi forte, afrontando os estere\u00f3tipos produzidos socialmente para mulheres. Foi competente e generosa e foi feliz, assim como trouxe felicidade a muitos, mesmo \u00e0queles em cuja face batia a porta da sala quando interrompida numa explica\u00e7\u00e3o ou debate. Foi tamb\u00e9m curiosa e essa curiosidade, depois de doutora em hist\u00f3ria, a fez iniciar os estudos em direito, pois queria dominar melhor o \u201cjuridiqu\u00eas\u201d. Era incans\u00e1vel, meticulosa, teimosa. Foi e continua<br \/>\nsendo exemplo. Via em seus alunos a supera\u00e7\u00e3o dela pr\u00f3pria e lhes dizia isso com aut\u00eantico orgulho. Num universo acad\u00eamico competitivo, marcado por egos, somente mentes generosas e humildes, diante de suas grandezas, se consideram superados, mesmo que n\u00e3o o tenham sido.<br \/>\nTere nasceu em 09 de fevereiro de 1955. Graduou-se em 1985 ainda na extinta FAFIG. Concluiu seu mestrado em 1998 e seu doutorado em 2008 pela Unesp-Assis. Come\u00e7ou a trabalhar na FAFIG (que depois se tornou Unicentro), ainda em 1985 e em agosto de 2025 completaria 40 anos dedicados \u00e0 ci\u00eancia e ensino superior p\u00fablico do Estado do Paran\u00e1. Quando faleceu, em 22 de maio de 2025, estava preparando sua<br \/>\ncomemora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOfertou dezenas de oficinas de conserva\u00e7\u00e3o documental, formou centenas de historiadores e historiadoras. Participou ativamente da cria\u00e7\u00e3o da Rede Paranaense de Arquivos e Centros de Documenta\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica. Pouco publicou, dadas as muitas horas de trabalho pr\u00e1tico exercido, mas o que publicou foi potente e recomendamos sua leitura, especialmente do livro \u201cO com\u00e9rcio do Prazer\u201d.<br \/>\nDia 22 de maio de 2025 foi de tristeza, muita, mas tamb\u00e9m de comemorar a vida e a obra dessa mulher. Obra que, parafraseando o que diziam antigos integrantes do famoso IHGB, n\u00e3o se fizeram apenas pela pena. Que sigamos comemorando sua vida e obra e que as institui\u00e7\u00f5es de guarda e conserva\u00e7\u00e3o de documenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica tenham sempre uma \u201cTia Tere\u201d \u00e0 sua frente. Que sua hist\u00f3ria e dedica\u00e7\u00e3o continuem a inspirar gera\u00e7\u00f5es futuras a dar voz aos invis\u00edveis e aos marginalizados e a preservar os fragmentos de suas exist\u00eancias. Foi-se o corpo velho, permaneceram as ideias inovadoras.<br \/>\nEssa \u00e9 uma pequena homenagem a quem foi gigante. Seu nome merece ser lembrado assim como permitiu que muitos outros nomes assim o fossem, mesmo que subalternos. Ela \u00e9 parte fundamental da hist\u00f3ria dessa institui\u00e7\u00e3o arquiv\u00edstica e de mem\u00f3ria e isso n\u00e3o deve jamais ser esquecido, afinal esse Centro de Documenta\u00e7\u00e3o s\u00f3 existe porque essa mulher dedicou sua vida a constru\u00ed-lo. Ele \u00e9 seu principal legado.<br \/>\nMuita ci\u00eancia s\u00f3 foi e \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as aos seus esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>Profa. Dra. Kety Carla de March (UNESPAR &#8211; Paranagu\u00e1)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Professora Terezinha Saldanha era chamada carinhosamente, e a seu gosto, de tia Tere, e assim seus alunos, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o, a chamaram. Foi uma professora en\u00e9rgica e exigente, bem como corajosa ao pesquisar, quando ainda ningu\u00e9m se aventurava por esses caminhos no interior do Paran\u00e1, sobre prostitui\u00e7\u00e3o. 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